Da sala de aula

Os obstáculos do acesso: como estudantes da rede pública fazem dos celulares suas salas de aula durante o ensino à distância

Tecnologia se mostra indispensável para participação dos alunos nas aulas durante pandemia

Manter a frequência de estudos durante o isolamento social não foi tarefa fácil para os alunos da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. No Brasil, o acesso à internet e os meios necessários, como celular, computador, tablet, entre outros, não estão presentes em todos os lares. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada neste ano, o número de brasileiros sem acesso à internet é de cerca de 46 milhões. Já com relação às casas em que há computadores, a taxa é de apenas 45,3%.

A estudante do Ensino Médio Kevelli Pinheiro, de 16 anos, lida diariamente com a dificuldade de levar os estudos adiante sozinha, usando apenas seu celular. Aluna do Colégio Estadual Abdala Chama, em Duque de Caxias, ela relata que o corpo docente da instituição está exigindo dos alunos mais do que eles são capazes de resolver sozinhos, sem auxílio. “Estudar está sendo difícil, sinto que não aprendi por conta da falta de explicação dos professores. Estou tendo que aprender por minha conta e, muitas vezes, não consigo entender nada. Estamos sobrevivendo no improviso”, conta Kevelli.

A jovem, que atualmente cursa o primeiro ano do Ensino Médio, alegoa que não teve aulas online por vídeos, apenas recebeu conteúdos pela plataforma Google Classroom para ler e em seguida resolver questionários. Ela se queixa ainda da falta de tato de alguns professores nesse momento, que sobrecarregam os alunos com questionários frequentes e apostilas, sem que esses estudantes tenham sido orientados na disciplina.

Além disso, Kevelli é a representante de sua turma, posto dado a um aluno que participa de reuniões escolares e é porta-voz das críticas dos colegas de classe. Ela ainda relata que a ausência das aulas virtuais e de um planejamento maior para apoio aos alunos não chegaram a ser debatidos pelos professores e pela direção da escola em reuniões ao longo do primeiro semestre do ano.

Kevelli Pinheiro em seu espaço de estudos improvisado, em casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Problemas semelhantes fazem parte da nova rotina de estudos de Camily Santos. A estudante, atualmente cursando o segundo ano do Ensino Médio, confessa que nesse momento de pandemia e aulas virtualizadas, não se sente estimulada a estudar por conta das circunstâncias do ensino. A jovem é aluna do Colégio Estadual Hervalina Diniz Pires, também em Duque de Caxias, e, assim como Kevelli, só recebeu materiais por escrito para suprir a ausência das aulas presenciais durantes esses meses.

A estudante de 17 anos acredita que o ensino virtual limita a capacidade de ensino dos professores. “Momentos para tirar dúvidas, fazer uma observação ou dar uma explicação individual para facilitar o aprendizado do aluno não acontecem. Não acho que a plataforma funciona bem para os alunos e professores”, avalia Camily.

Camily Santos estudando em seu quarto. (Foto: Arquivo pessoal)

Um ponto que diferencia a experiência das duas estudantes com as aulas no ambiente virtual são as opiniões de ambas acerca da continuidade do ano letivo. Enquanto Kevelli diz que, mesmo com dificuldades, prefere continuar estudando improvisadamente para não perder um ano completo de estudos, Camily segue por outro caminho. “Eu particularmente me sinto prejudicada. Com certeza optaria por pausar esse ano letivo se fosse possível. Foi muito limitante”, declara a jovem.

Tais dificuldades também bateram à porta dos educadores. A necessidade de adaptar toda a rotina, os meios de ensino e a interação entre o professor e os alunos para o meio virtual foi uma tarefa árdua para Rosane Ramos, 54 anos, professora das redes pública e privada de ensino. “No início, o grande desafio, certamente, era o desconhecido. Porque era uma modalidade na qual nunca tínhamos trabalhado integralmente”, explica a educadora.

Com o passar do tempo, os desafios da virtualização se modificaram. “Hoje, o maior desafio é manter a qualidade das aulas e o nível de motivação e envolvimento dos alunos”, confessa Rosane sobre essa parte do ensino virtual que é essencial para ela: manter seus alunos mais envolvidos e conectados com o conteúdo quanto possível.

Rosane Ramos em seu novo ambiente de trabalho, adaptado para o ensino a distância. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com relação ao acesso dos estudantes à internet, a professora relata perceber grande dificuldade dos alunos, principalmente ao comparar alunos da rede pública e da rede privada. Para ela, é perceptível que possuir um celular não significou facilidade no acesso, pois a maioria dos alunos da rede pública utiliza apenas pacotes gratuitos para redes sociais, mas é raro o acesso em outras plataformas e ferramentas.

“No setor público, o acesso ao mundo digital não é democrático e popular, como se gostaria de imaginar. Nós, professores, dizemos que é um apartheid digital. Na rede pública, a maioria dos alunos não tem acesso além dos aplicativos de bate-papo e entretenimento. Não havia o hábito entre os alunos de utilizar ferramentas digitais para estudo. Ninguém foi preparado para isso, muito menos foram dados os meios necessários”, explica Rosane.

É essencial também nesse momento considerar a situação financeira das famílias no Brasil, que foi posta à prova durante a pandemia. Diversos empregos foram prejudicados, o auxílio emergencial levou meses para ser aprovado, há famílias que dependem do cartão do Bolsa-família, entre outros cenários. Nesse contexto, para muitas famílias, é delicado e por vezes impossível assinar um pacote de internet residencial, e até mesmo possuir o próprio computador.

Para além disso, culturalmente, o Brasil não é um país onde a busca por conhecimento de forma autônoma seja incentivada. A crença de que a escola é o único ambiente para estudar também atingiu os estudantes. Entretanto, o maior obstáculo encontrado pelos alunos nesse período de isolamento, que exigiu de muitos o desenvolvimento de uma espécie de autodidatismo imposto, foi a falta de acesso à internet e aos meios necessários para o aprendizado pleno.

*Matéria produzida pela aluna Ana Clara de Jesus Serafim para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “Os obstáculos do acesso: como estudantes da rede pública fazem dos celulares suas salas de aula durante o ensino à distância

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, Ana!!!!

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