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Coronavírus: isolamento provoca futuro incerto para pequenos negócios

Comerciantes do Rio de Janeiro falam sobre impactos das medidas de contenção

A pandemia de Covid-19 completa nesta quinta-feira (26) um mês de chegada ao Brasil. Nos laboratórios e hospitais, a busca por identificar o funcionamento e contenção eficaz do vírus é constante. Por outro lado, comerciantes, pequenos empresários e trabalhadores começam a sentir os impactos da recessão, que pode atingir bruscamente o país após o efetivo controle da doença.

Na primeira semana de isolamento social no Rio de Janeiro, Gabi Fontes, 36 anos, havia decidido manter sua cafeteria aberta. O parco número de clientes, somado às entregas, gerava a renda necessária para arcar com os custos de manutenção do estabelecimento. Sempre acompanhando as informações passadas pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Gabi mudou de ideia e optou por fechar a loja na última sexta-feira (20).

A Cafeteria e Doceria Gabi Fontes enfrenta a queda brusca de produtividade após o fechamento. (Foto: Gabi Fontes/Arquivo Pessoal)

A nova rotina tornou viável apenas 4 dias de funcionamento do delivery durante a semana, cujo movimento é consideravelmente inferior ao de dias comuns. Toda a operação, envolvendo estoque, mão-de-obra, produção e saída, caiu para 15 a 20% da usual. “Vamos ver até onde isso vai. Espero que a partir de abril já tenha uma melhora, porque o cenário está péssimo. Tenho conversado com outros comerciantes aqui da região e todo mundo está desesperado”, desabafa a empresária.

Se suspender as atividades foi opção para Gabi Fontes, a medida é obrigatória na capital: a Prefeitura do Rio determinou, no último domingo (22), o fechamento dos comércios. José Antônio Prata, 55 anos, nem precisou esperar o decreto. Decidiu parar o funcionamento de seu restaurante, no centro da cidade, tanto para proteger os funcionários da doença quanto pela falta de clientes — em maioria, trabalhadores dos escritórios da região, que migraram para o home office. “Em 52 anos de atividade, é a primeira vez que o restaurante é obrigado a fechar as portas”, exclama.

O prefeito Marcello Crivella alterou ontem (25) o decreto de fechamento dos comércios, promulgado em 22 de março.

José não optou pelo delivery. Economicamente, o número de clientes atendidos não compensaria trazer a equipe de casa. Além disso, o empresário não deseja expor os funcionários à contaminação. Todos foram colocados em férias coletivas por 15 dias, conforme sugestão do governo. Vão ser convocados novamente ou postos em férias por mais duas semanas, a depender de novas decisões estatais.

Medidas como flexibilização de impostos e suspensão do contrato de trabalho dos funcionários —  permitindo o saque de parte do fundo de garantia e acesso ao auxílio-desemprego — podem desonerar a carga financeira das pequenas empresas. “No meu caso particular, eu aplicaria recursos para manter a saúde da empresa e os funcionários temporariamente suspensos”, finaliza José.

Tal qual aconteceu com José Antônio, a equipe de colaboradores foi peça-chave nas atitudes de Cynthia Fraga. Dona de uma loja de chocolates, ela também decidiu fechar o negócio antes do decreto oficial da prefeitura. Para a lojista, suspender as atividades foi uma mistura de sentimentos:

“Metade de mim estava muito tranquila por ter fechado a loja, e a outra metade em pânico. Estou muito apavorada com a parte financeira, mas muito feliz de não estar colocando nenhum funcionário ou cliente em risco”, comentou a comerciante.

O temor de Cynthia tem justificativa. Por conta da Páscoa, abril é o melhor mês do ano para empresas do ramo. Mas, em meio a uma pandemia mundial e perspectiva de crise financeira, pouco se pensa ou fala em festas. “Estamos com o estoque completo, preparado para a Páscoa, e acho que vamos perder tudo”, afirma a empresária. Cynthia pretende aderir ao delivery em abril, mas sabe que não será lucrativo como nos anos anteriores, nos quais atendia cerca de 3.000 pessoas apenas na semana da Páscoa. “Acredito que vou atender sim alguns clientes, mas nem de longe o suficiente para me livrar do prejuízo”, conclui. 

Em dias comuns, a loja de chocolates chega a atender 3.000 pessoas.
(Foto: Cynthia Fraga/Arquivo Pessoal)

Com relação aos preparos para arcar com a manutenção da loja e o salário dos funcionários, Cynthia desabafa: “Eu não estou preparada. Não entra dinheiro nenhum”. A única certeza dela para os próximos meses é o salário dos 8 funcionários, que ainda assim ficarão sem comissão de vendas. No aguardo de providências do shopping onde fica a loja e da empresa matriz, ela explica: “Todo mundo vai ter que fazer uma parte do sacrifício. Não tem mais que se falar em lucro.” 

Mesmo em meio ao caos, um fenômeno muito interessante surgiu entre o grupo de comerciantes no qual Cynthia se enquadra: “Houve uma união que aconteceu antes. Estamos pensando juntos no que podemos fazer. Com certeza vamos nos ajudar”, conta. Certamente, essa será a única forma de superar não só esta crise, como todas as outras que aparecem.

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