Internacional

Crise de 29: Grande Depressão completa 90 anos

Dia 24 de outubro marca quebra da bolsa de Nova York, que estremeceu o mundo capitalista e resultou em diversos desdobramentos políticos, econômicos e sociais

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi o grande evento que precedeu a crise e contribuiu para o contexto dentro do qual tal descompasso econômico aconteceu. Os conflitos da guerra devastaram não apenas os países perdedores (Alemanha, Itália e império Austro-Húngaro), mas também a Inglaterra, a França e seus aliados, exceto os Estados Unidos, que entraram no final da guerra e, por estarem em outro continente, não sofreram com as destruições enfrentadas pelos países europeus.

Se, por um lado, o conflito prejudicou as economias europeias, por outro, os EUA saíram fortalecidos. Os norte-americanos enxergaram, então, o momento de fraqueza europeu, e se apresentaram como o país capaz de ajudar a resolver as dificuldades enfrentadas, suprindo necessidades básicas pelas quais passavam os territórios destruídos. Dessa forma, com uma Europa debilitada, os Estados Unidos emergiram no cenário, assumindo significativa relevância na esfera internacional.

Diante desse contexto, tanto o ambiente externo quanto o interno favoreceram o desenvolvimento da economia americana. Do lado de fora, um continente vizinho sem poder de produção se configurava como um grande público consumidor em potencial. Do lado de dentro, a política do American Way of Life motivava a população a comprar, vinculando o bem-estar ao poder de consumo, o que estimulava as indústrias locais.

Em meados dos anos 20, no entanto, o crescimento acelerado dos Estados Unidos da América deu lugar à crise que afetaria diversos países. Para o professor de História Econômica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Muniz Gonçalves Ferreira, se forem levados em conta impactos, efeitos e repercussões mais profundos no sistema econômico internacional e na própria história contemporânea, a Crise de 29 pode merecer a característica de maior crise de todos os tempos.

“Ela acontece no âmago daquela que era não só a maior economia do mundo. Os Estados Unidos eram a locomotiva da economia internacional e a Crise de 29 aconteceu exatamente ali. Não aconteceu na periferia da economia internacional, não aconteceu em um nível secundário, mas aconteceu no epicentro da maior economia capitalista do mundo”, afirma.

Embora a crise carregue em seu nome um ano específico (1929), foi apenas entre 1933 e 1934 que seus impactos foram identificados em larga escala. A analista em Relações Internacionais, Beatriz Pontes, garante que apesar de alguns efeitos serem rapidamente percebidos, principalmente, nas camadas mais pobres da população, levou um tempo para que o evento atingisse grandes proporções. “Os empresários e os banqueiros, por exemplo, não quebraram em um primeiro momento”, comenta.

As extensões territorial e temporal e a profundidade da crise mostraram que o modelo econômico liberal adotado pelos Estados Unidos não foi capaz de solucionar o problema. Para o professor Muniz, essa crise marca o declínio das soluções, das alternativas e dos programas baseados em uma ortodoxia liberal para a organização da economia e para o tratamento de crises. O funcionamento do livre mercado não foi suficiente. O liberalismo falhou.

“Durante o período em que foram adotados procedimentos baseados nesse tipo de convicção, a crise só se aprofundou. Quando você vê relatos do que foi a crise nos Estados Unidos, você vê que a crise social foi extraordinária, porque o governo norte-americano se recusava a intervir, a adotar qualquer medida”, explica o historiador.

Impactos profundos
Os impactos foram intensos e podem ser explicados para além do momento histórico. O fato de os países nunca terem enfrentado algo parecido também fez com que essa crise tivesse desdobramentos bastante profundos, que não foram verificados em crises posteriores. Segundo o professor Muniz, “não havia naquela época nenhum tipo de mecanismo regulatório, tanto internamente quanto externamente, que pudesse mitigar e minimizar de imediato os efeitos da crise. Por isso, ela foi tão catastrófica e devastadora inclusive dentro dos próprios Estados Unidos”, comenta.

Dado tamanho impacto que a Crise de 29 gerou, sobretudo, no mundo capitalista, pode-se percebê-la como marco na história e como parâmetro de experiência para o enfrentamento de possíveis crises. Nesse sentido, Muniz ressalta que as crises que vieram depois tiveram proporções diferentes, porque já se deram no quadro de um mundo no qual mecanismos de solução existiam e essas experiências já eram conhecidas.

O Brasil e a Crise de 29
O mercado Brasileiro também foi surpreendido pela crise. À época, o café era o principal produto exportado pelo país, e seu preço já era negociado na bolsa de Nova York. Quando há a quebra da bolsa americana, há queda generalizada dos produtos cotados ali e isso atinge a economia cafeeira também. Apesar disso, o professor Muniz ressalta que, mesmo com as dificuldades, esse momento motivou um desenvolvimento substancial no país.

“Em um primeiro momento, pode-se dizer que a Crise de 29 impactou a economia Brasileira de forma negativa, porque atingiu o nosso principal produto de exportação: o café. Mas, à médio e longo prazos, acabou tendo até um efeito positivo, porque estimulou os governos brasileiros a diversificarem a economia, a industrializarem o país, a terem políticas econômicas mais positivas, mais criativas e mais objetivas. Como resultado, foi aberta uma trilha para o crescimento, para o desenvolvimento, para a modernização e para a industrialização econômica do Brasil”, explica.

Ele afirma ainda que a crise estimulou o país também do ponto de vista da política externa, visto que o Estado Brasileiro procurou manter um relacionamento internacional um pouco mais autônomo. Ainda que o país fosse muito dependente economicamente, ele procurou aproveitar mais as rivalidades internacionais, otimizando as próprias exportações e obtendo mais investimentos.

Dona de impactos intangíveis e inimagináveis, a Crise de 29 mostrou que o modelo econômico liberal era insuficiente e ela só melhorou com a chegada do Keynesianismo, que afirmava que o Estado deveria intervir na economia. Para o professor, são essa nova interpretação e esses novos instrumentos de gestão, de monitoramento e de regulação da economia que vão possibilitar a superação da crise de 29, não só nos EUA, mas em outras economias que também foram afetadas.

A crise não foi sentida apenas nos níveis econômico e social, mas foi determinante para mudanças drásticas no campo político. A analista de Relações Internacionais, Beatriz Pontes, destaca ainda outra evidência da profundidade da crise: o surgimento de novas formas de governo.

“O ser humano tem uma necessidade muito grande de se apegar a um ‘salvador da pátria’. Ele tende a acreditar em um governo específico que vai dar solução a problemas econômicos, sociais, crises. É nesse barco que, por exemplo, na Alemanha, Hitler surge como um grande salvador, um construtor da grande Alemanha”, explica.

Superada a Crise, era preciso evitar que outras crises econômicas acontecessem. Por isso, no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), 44 países se reuniram na chamada “Conferência de Bretton Woods”, para criar um conjunto de regras capazes de regular a política econômica internacional. Nesse momento, surgem, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos com o objetivo de oferecer maior estabilidade financeira aos países capitalistas. Era preciso impedir que o mundo fosse palco de outra Grande Depressão.

Thatiana Cordeiro – 6º período

1 comentário em “Crise de 29: Grande Depressão completa 90 anos

  1. O acordo de Breton-Wood teve também um viés ideológico de combate ao socialismo que emergia na Europa como força antagônica e ao mesmo tempo concorrente. Para salvar o capitalismo da própria crise estrutural, inerente ao sistema nas suas fazes cíclicas, foi necessário o sistema se reinventar no processo de reestruturação econômico-financeira, na ampliação do mercado nos países periféricos, produtores de matérias-primas, tornando essas nações dependentes de capital e tecnologia. Essa estratégia também tornou-se fundamental para que os países em início tímido de industrialização pudessem gravitar na órbita do sistema hegemônico norte-americano.

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