Sociedade

O pós-câncer e a chance de ressignificar a vida

Durante a campanha do Outubro Rosa, mulheres que venceram o câncer de mama contam como encaram o recomeço

“Eu tinha uma bolinha no seio e fingia que não tinha. Colocava a mão e sabia que ela estava lá, mas não queria imaginar e talvez não quisesse acreditar que era câncer”. Assim começou a trajetória de Márcia Bides, de 52 anos, com o câncer de mama, o tipo mais comum entre as mulheres no mundo, um percentual que corresponde a 25%. No Brasil, o número de casos alcança 29%, sendo o segundo de maior incidência neste grupo, após o de pele não melanoma, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Segundo a instituição a doença é causada pela multiplicação desordenada de células da mama, que transformam-se em células anormais e geram o tumor.

“Um dos principais sintomas é o aparecimento de um nódulo na mama, que muitas vezes a própria mulher, se apalpando, acaba encontrando. Esse caroço, normalmente, é fixo, irregular e não é doloroso. O fato é que não há muitos sintomas, a paciente raramente sente dor com o câncer de mama, a não ser em estágio final”, informa a ginecologista, Carla Aguiar. Ela ainda relata que existem formas de diminuir as chances de receber este tipo de diagnóstico. “A paciente que tem mais propensão de ter a doença tem obesidade, não faz exercício físico e faz um consumo de álcool razoável. Porém, também existe a propensão genética para desenvolver a doença”, explica. 

 A médica com mais de 20 anos de experiência em sua especialização afirma que viver com menos estresse, ter uma alimentação balanceada e praticar atividades físicas minimiza os riscos, inclusive de quem já foi diagnosticado. “Pacientes que já tiveram a doença e incluem hábitos saudáveis em sua rotina conseguem prorrogar e aumentar sua expectativa de vida. Todo mundo tem células cancerígenas no corpo, o ‘start’ disso depende de algumas situações em relação a qualidade de vida”, conclui Carla.

Márcia, apesar de ter detectado o nódulo, só realizou a biópsia que confirmou seu tumor maligno porque foi ao hospital por outra necessidade. “Eu sempre ia à médica, ela me examinava, mas nunca me deu um parecer. Depois, surgiu uma carne esponjosa nas minhas costas e aquilo me deixava nervosa, ao contrário do caroço no seio. Logo após me examinar a médica falou ‘você tem câncer de mama’. Fiquei parada e disse que tinha ido para a consulta devido a questão nas costas. “Levei um baque e fiquei anestesiada. Mas como a médica que me atendeu falou todos os procedimentos que eu iria precisar fazer, a princípio, não fiquei com medo”, relembra Márcia sobre o momento em que recebeu a notícia, em 2012.

Durante seu tratamento, a realidade de Márcia fugiu à regra de muitas brasileiras que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). “Fui muito bem atendida pelo SUS, descobri a doença em junho e em dezembro fiz a cirurgia, que, anteriormente, precisou ser remarcada. Não foi em todos os momentos que Márcia conseguiu se manter calma. Na primeira vez em que a cirurgia foi marcada ela não pode operar devido ao seu nervosismo, sua pressão estava alta. A partir de então precisou consultar o cardiologista e passar a se medicar como hipertensa. Apesar do contratempo, ela relata que não demorou muito para saber a nova data de sua operação.

Como ela mesma diz, o atendimento ágil que recebeu foi uma exceção entre muitas pacientes. “Assim que cheguei em casa, liguei a televisão e estavam falando sobre o câncer de mama, a dificuldade para conseguir uma vaga e o desespero das pacientes devido ao grande tempo de espera na fila. A primeira coisa em que pensei foi que eu estava na porta do centro cirúrgico e se estivesse calma teria feito a minha cirurgia. Então, no mesmo dia marquei um novo risco cirúrgico”, comenta Márcia sobre o dia da primeira tentativa de ser operada. 

A gratidão da então paciente quando soube que teria a chance de curada começou a se manifestar ainda na sala de operação. “Quando vi uma das médicas só soube agradecer pela oportunidade de poder operar. Olhei para o anestesista e disse o quanto estava feliz e em seguida eu já acordei no quarto, com a minha mãe me avisando que estava tudo bem. Mas eu não tinha coragem de olhar para baixo”, expõe Márcia.

Após a mastectomia, era a vez de um novo desafio: enfrentar as sessões de quimioterapia. Márcia, que é bastante vaidosa, declara que tentou se distrair durante essa etapa. “Eu passei pela quimio assim: combinava meu chinelo com o esmalte, o esmalte com os acessórios. Em seguida veio a perda do cabelo, até o momento em que coloquei a mão e saiu tudo. De repente não tinha mais nada, nenhum fio de cabelo, nem as sobrancelhas, nenhum pelo. Mas depois eu pensei ‘cabelo cresce’. De qualquer forma, pensava em como eu iria sair na rua careca e carregando um dreno”, questionava Márcia. 

A saída para que Márcia ficasse mais confortável com a própria aparência foi procurar uma peruca parecida com seu antigo corte. Fazer doações de cabelos ajuda a elevar a autoestima de muitas mulheres que enfrentam a doença. A esteticista Elaine Oliveira pôde comprovar como essa atitude tem o potencial de fazer com que um sorriso surja no rosto das pacientes. Ela esteve à frente da coordenação do curso de estética da IBMR em 2016, quando realizou uma campanha de cortes de cabelos. “Arrecadamos mais de 100 metros de mechas, que foram doadas à Varanda do Cabelo, loja que vende perucas, além de lenços e outros acessórios que entregamos diretamente às pacientes do INCA de Vila Isabel, durante o evento ‘INCA de Portas Abertas’ ”, destaca a profissional. “Foi muito gratificante, pois proporcionar, minimamente, a alegria e aumentar a autoestima de quem passa pelo câncer de mama não tem preço. Além de ter levado os alunos a refletirem sobre a questão social, foi acima de tudo uma lição de vida”, conta Elaine sobre a experiência. 

Grupo de alunos de Estética fazem doações para as pacientes do INCA de Vila Isabel, em 2016
(Foto: Arquivo Pessoal)

Durante o tratamento receber o conforto de um abraço ou uma ter conversa pode representar muito para as pacientes. É o que explica a porta-voz do grupo de apoio Vencedoras Unidas, Lilian Kelly. “É um trabalho de paciente para paciente. Realizamos tanto um trabalho presencial de apoio e acolhimento às pacientes oncológicas, quanto o trabalho nas redes sociais, com o objetivo de passar as informações e mostrar depoimentos. Uma coisa é ter todo o apoio da sua equipe médica, do seu oncologista e mastologista, que são essenciais nesta etapa. E outra coisa é conversar com alguém que passou ou esteja passando pelo tratamento. A gente se sente bem e entende o que o outro está passando, funciona como uma terapia. Nossas reuniões são regadas de trocas de experiências”, afirma a porta-voz.

 A organização, criada em 2016 no Distrito Federal, iniciou como um grupo no WhatsApp. “Eram 6 mulheres que estavam fazendo quimioterapia e se encontravam na clínica. O grupo tinha a finalidade de compartilhar experiências, tirar dúvidas, falar dos anseios e preocupações durante o tratamento e foi crescendo até chegar a lotação máxima de 240 participantes, com pouco mais de um ano de criação. Então, tivemos que abrir um outro grupo de WhatsApp e começamos a promover eventos, encontros, rodas de conversas. Em dezembro de 2017, nós instituímos a ONG Vencedoras Unidas para formalizar as ajudas que recebíamos e as parcerias que eram firmadas”, relata Lilian, que se envolveu com a causa e atualmente trabalha na ONG. “Mesmo depois de ter passado pela fase principal do tratamento eu escolhi continuar nessa luta, assim como outras integrantes. A vida após o câncer não é tão fácil assim, somos novas pessoas, muitas mulheres se aposentam, outras tem que se realocar no mercado de trabalho e muitas continuam no grupo justamente por causa disso. Hoje a gente tem uma outra visão, outros anseios e angústias e queremos estar bem, até pelo medo do câncer voltar”, desabafa. 

Essa preocupação parece ser comum para todas que já passaram pela batalha do câncer de mama. “Quando vou ao médico sinto um certo medo. Fico ansiosa até eles analisarem os exames e dizer que eu estou bem”, revela Márcia. Além desta similaridade, um dos legados de quem vivenciou a doença refere-se à cumplicidade entre as pacientes. “Nunca senti nenhuma dor, mas uma vez uma senhora falou para eu não ficar nervosa para um dos exames porque ela já tinha passado por aquilo e sabia que não era fácil. Fiquei sem graça de dizer que não tinha dor porque via que ela estava sentindo, então só balancei a cabeça. Cada vez que nos víamos ela estava pior e na última vez que nos encontramos ela não me reconheceu mais”, lembra Márcia.  Embora tenha ficado aliviada por ter ficado bem, Márcia diz que não esquece das amizades que fez no hospital. “Convivi por tanto tempo com outros pacientes que quando se passaram cinco anos do meu tratamento e o médico falou que eu estava bem não tive vontade de ficar pulando de alegria porque sei que tem muitas outras pessoas que ainda estão sofrendo. Fiquei feliz, mas não há como deixar tudo para atrás, por isso tento ser sempre positiva e todos os procedimentos que avançam para a cura me deixam alegre”.

Além da empatia, Márcia demonstra como o apoio familiar também foi fundamental para não perder a esperança. “Em nenhum momento minha família disse que eu não ia conseguir, todos eles sabiam que eu era forte. As pessoas que estavam ao meu lado não demonstraram ter pena de mim e não fizeram eu me sentir para baixo. Fui percebendo o quanto preciso das outras pessoas e também como precisamos ser úteis aos outros. Acho que eu tive que ter passado pelo hospital para entender o que é realmente importante, isso me fez mudar desde o meu jeito de me alimentar até a minha forma de pensar na vida”, indica. 

Após uma cirurgia, 6 sessões de quimioterapia, 28 de radioterapia e depois de ter retirado o excesso de pele nas costas, que, inesperadamente, a levou a descobrir a enfermidade, Márcia enfatiza a necessidade de falar sobre a prevenção do câncer de mama e sobre as possibilidades de cura. “Tocar neste assunto é muito importante, nem sempre as pessoas conseguem conversar sobre isso em casa. Contar essa experiência é relevante porque ajuda as pessoas a se levantarem”.

Júlia Reis – 6º  período

0 comentário em “O pós-câncer e a chance de ressignificar a vida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s