Política

Para cientista político, vitória de esquerda define novos rumos na Argentina

Em entrevista para a Agência UVA, cientista político Guilherme Carvalhido analisa como governo de Fernández pode pode impactar América Latina

A vitória de Alberto Fernández, eleito novo presidente da Argentina com 48,1% dos votos neste domingo (27), representa, mais do que um retorno da esquerda, a força que tem a principal corrente política do país: o peronismo. É o que afirma o cientista político Guilherme Carvalhido, professor da Universidade Veiga de Almeida (UVA). A Agência UVA conversou nesta segunda-feira (28) com o Mestre em Comunicação a fim de compreender o que se pode esperar do governo de Fernández e que impactos ele trará para os demais países da América Latina, sobretudo para suas relações diplomáticas. Confira os principais trechos da conversa:

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Agência UVA: O que esperar do governo de Fernandez, de cunho peronista-kirchnerista, na Argentina? Na sua opinião, ele será capaz de resolver os problemas sociais, principalmente econômicos, que atingem o país?
Guilherme Carvalhido: Difícil dizer isso em um momento de crise na Argentina. Mas haverá uma mudança de rumos no país, visto que a população votou para essa virada. O Estado estará mais presente na vida econômica, interferindo mais. O cunho peronista tem uma tendência de esquerda, colocando o país numa rota não liberal, contrária ao que o governo de Macri vinha tentando implementar no país. E tem também um forte problema que agrava essa situação na Argentina: enquanto um governo mais liberal desenvolvia um tipo de política, no governo seguinte, de cunho esquerdista, ganhava a eleição e desfazia tudo que o anterior tinha feito. Isso colocou o país numa espiral de crises constante, o que levou ao empobrecimento da população.

Agência UVA: Disputas polarizadas na América Latina não são uma novidade na região. Entretanto, e principalmente após a vitória de Jair Bolsonaro no Brasil, especialistas passaram a ver uma onda direitista e, sobretudo, conservadora na região. Em que medida a futura administração centro-esquerdista de Fernandéz se opõe a isso e impõe novas tendências para os países sul-americanos?
GC: Isso dependerá muito do desenvolvimento econômico deles nos próximos anos. Países como Argentina e Brasil tendem a precisar de razoável presença do Estado, pois desenvolveram, ao longo de suas histórias, populações com demandas de dependência para a manutenção da qualidade de vida. Logo, governos de direita com movimentos liberalizantes, historicamente, tendem a ter dificuldades na região. Por isso, se isso se confirmar, o Brasil também tende a voltar para uma intervenção maior de um governo de centro-esquerda. Mas isso, como eu disse, dependerá fundamentalmente do crescimento da economia. Se o país crescer e gerar empregos, o governo Bolsonaro tenderá a ganhar. Se não houver melhorias nesse sentido, os grupos de centro-esquerda tendem a vencer.

Agência UVA: Após ser informado da vitória da chapa kirchnerista, o presidente Jair Bolsonaro se recusou a parabenizar o novo presidente do país, dizendo que iria aguardar um tempo para saber qual a posição real de Fernández na política. Diante disso, até que ponto uma polarização ideológica entre os chefes de estado podem agravar as relações diplomáticas dos países, visto que ambos são parceiros comerciais e integram o Mercosul?
GC: A tendência do embate político nas últimas eleições está na disputa ideológica, tanto no Brasil quanto na Argentina. Dessa forma, os políticos se posicionarão conforme suas escolhas ideológicas (direita, esquerda ou centro). Portanto, na atual circunstância, vejo os políticos indo para o embate para manter suas posições atuais e futuras, pois sabem que o quadro pode mudar e isso os favorecer nas disputas eleitorais. A política, em épocas de redes sociais, tornou-se um cenário de posicionamentos de embate, pois isso clama os grupos a formarem diferenças aos seus adversários, e portanto prometer soluções quando seus adversários não estiverem bem, o que acontece constantemente. Sem dúvidas, o que mais sofrerá neste embate entre Bolsonaro e Fernández é o Mercosul, pois não haverá consensos, e o modelo tenderá a perder força, ganhando os grupos de direita que sempre estabeleceram problemas para os grupos globalizantes, como Mercosul e União Europeia, por exemplo.

Agência UVA: Na esteira disso tudo, observamos também uma onda de protestos no Chile, país que adota um modelo político-econômico mais liberal e avançado, mas que vem recebendo críticas da população por ainda apresentar uma série de desigualdades sociais. Como você avalia esse cenário por lá?
GC: O Chile está num momento um pouco diferente. O que vou falar é controverso, mas a população de lá obteve um nível de vida melhor do que a média de outros países da América Latina. Os chilenos não estão satisfeitos com o rumo da previdência adotado na reforma de lá, somado a um aspecto pontual de países que cresceram significativamente nós últimos anos: eles querem melhorar ainda mais, o que os coloca numa tomada diferente de Brasil e Argentina. Mas, se olharmos para o lado político, há também uma briga ideológica entre grupos de esquerda e de direita. Entretanto, a divergência política faz parte do processo democrático, o que acontecerá permanentemente entre nós. Tudo isso mostra o início de um amadurecimento democrático na região.

Leandro Victor – 7º período

1 comentário em “Para cientista político, vitória de esquerda define novos rumos na Argentina

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