Ciência Meio Ambiente

Avanço do mar e calor extremo em Mato Grosso alertam para urgência climática

Mutações climáticas já são realidade no Brasil e no mundo. Segundo a ONU, temperatura global média de 2015 a 2019 deve ser a mais alta da história

Cada vez mais velozes e aparentes, as mudanças climáticas têm sido tema de preocupação na comunidade internacional. Na esteira desse debate, cientistas de todo o mundo vêm utilizando o termo emergência climática para despertar a atenção de governos e sociedades, e para cobrar deles atitudes efetivas a fim de combater o aquecimento global. Um estudo divulgado pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) na Cúpula do Clima 2019, ocorrida entre 21 e 23 de setembro, mostra que a temperatura global média de 2015 a 2019 deve ser a mais alta do que qualquer período de mesma duração já registrado anteriormente, sendo estes, assim, os cinco anos mais quentes da história.

De acordo com o relatório “Unidos na Ciência” da Organização Meteorológica Mundial (OMM), já se calcula que o planeta esteja 1,1ºC acima da era pré-industrial (1850 e 1900) e 0,2ºC acima do período de 2011 a 2015. Professor de Ciências Ambientais da UVA, Cleyton Martins pondera que, apesar de aparentar pouco, essa variação de temperatura é muito expressiva para um curto período geológico.

“Cabe ressaltar que ela se intensificou ainda mais na última década, pois a elevação de 0,2 ºC se refere somente aos últimos cinco anos. Vale dizer também que ela é calculada como uma média global, o que significa que em determinadas localidades este valor pode ser ainda mais expressivo”, destaca.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criado pela ONU para divulgar informações científicas sobre o fenômeno, também publicou um relatório na última quarta-feira (25) sobre os impactos que o aquecimento global pode trazer para o ecossistema marítimo e a criosfera, isto é, a porção de água congelada no planeta. O documento destaca que, caso nada seja feito até 2100, o aumento do nível do mar pode chegar a um metro de altura e o degelo do permafrost (solo que passa todo o ano congelado) vai liberar quase mais de 1,5 mil gigatoneladas de gases de efeito estufa. Isso representa quase o dobro do carbono que hoje se encontra na atmosfera.

“Além de contribuir para a perda da biodiversidade marinha, visto que muitas espécies são sensíveis ou não conseguem se adaptar a variações climáticas, a elevação da temperatura pode ainda influenciar no padrão, tanto de frequência quanto de intensidade, de fenômenos atmosféricos intensos, como tempestades, ciclones e furações”, afirma Cleyton.

Este foi o segundo levantamento do IPCC neste ano. O primeiro, divulgado em agosto, voltava-se a analisar a relevância da diminuição da atividade agropecuária para a conservação das florestas tropicais e, consequentemente, para a interrupção de gases do efeito estufa.

As mudanças climáticas também já são perceptíveis no Brasil. No último dia 16, a cidade de Cuiabá, em Mato Grosso, por exemplo, bateu um recorde histórico de calor. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, a temperatura chegou aos 42,3%, a mais alta já observada na capital em 108 anos de medições, ou seja, desde 1911. Segundo dados também do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado do Mato Grosso registrou 8.030 focos de calor no mês de agosto. O número representa um aumento de 230% em relação ao mesmo período de 2018, é o que aponta o órgão governamental. A falta de chuva também é uma realidade na região: o último registro pluviométrico na capital foi em 9 de maio.

Uma consequência dessa realidade é a baixa umidade relativa do ar. Agravada ainda com os incêndios florestais que atingem várias partes do estado, que ainda está em situação de emergência por conta disso, ela tem ficado em torno de 7% em Cuiabá. O número é mais baixo do que a média registrada, por exemplo, no Deserto do Saara, que fica entre 10 e 15%. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o valor tido como ideal é de ao menos 60%. Por isso, o número de moradores com problemas respiratórios, principalmente, crianças e idosos, vem aumentando. Segundo a rede pública de saúde, a procura por atendimento nos postos médicos aumentou 40% na região.

Dona de casa, a cuiabana Luciana Ferreira afirma que precisa tomar medicamentos diariamente por conta da dificuldade de respirar.

“Já tenho bronquite e, como o tempo está muito seco, a orientação do médico foi realizar um tratamento com medicação adequada, além de tomar outros cuidados como colocar umidificador de ar aonde eu estiver e beber bastante água”.

Em um dos dias mais quentes, o morador José Francisco Victor usou um higrômetro e registrou umidade do ar em 7% e temperatura de 38 graus. O instrumento é utilizado para medir os gases atmosféricos.

A duração das aulas práticas de Educação Física também foi reduzida nas escolas de Cuiabá, como conta a professora da rede municipal de educação Vanessa Almeida:

“Costumávamos oferecer uma hora de aula prática na semana e uma hora de teoria, mas, por conta do calor excessivo e da baixa umidade, que a torna a física mais cansativa para os alunos, diminuímos a aula em quadra para 30 minutos e ampliamos a em sala para uma hora e meia”, conta.

Apesar dos notórios indícios de mutações climáticas em vários países, a percepção dessas variações pode ser diferente dependendo da localidade e, dessa forma, gerar má interpretações, frisa o especialista em Ciências Ambientais Cleyton Martins.

“Outro grande ponto é a necessidade de diferenciar tempo e clima. O primeiro é a medida das variações em um curto período de dias, e o segundo, a longo prazo. Esse é o que nos tem deixado cada vez mais em alerta”, explica.

O objetivo dos líderes mundiais é limitar o aumento da temperatura média do planeta em até 2 ºC, considerando os padrões pré-industriais. Este, que é considerado um “limite seguro”, pode levar a danos ainda maiores e irreparáveis caso seja ultrapassado, comenta Cleyton. Segundo o professor, essa meta só pode ser alcançada se as emissões de gases de efeito estufa forem interrompidas. Para isso, seria preciso alterar o modo de obter e de consumir energia, e outras atividades, como a agropecuária.

“Todos estes pontos são considerados grandes desafios, sobretudo, para nações que se encontram em crescente desenvolvimento, e em que as ações do homem, principalmente, as relacionadas ao aquecimento global, são muito importantes na economia”, conclui.

Leandro Victor – 7º período

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