Festival Mulheres do Mundo traz diversidade e debate ao Rio de Janeiro

Três dias. Mais de dez oficinas por dia. Rodas de conversa. Exposições. Troca de experiências. Feiras. Visitas mediadas. Shows. Intervenções. Instalações. Fóruns de vivências. Performances e muito mais. O fim de semana na Praça Mauá foi assim.

Tudo isso para celebrar as conquistas históricas das mulheres na luta pela equidade de gênero, construindo um lugar de respeito, compartilhamento e alegria, em um momento no qual é necessário unir forças e reconhecer a potência e o papel estratégico das mulheres para mudar o mundo.

Dos dias 16 a 18 de novembro, o WOW – Festival Mulheres do Mundo – marcou presença no Rio de Janeiro. Idealizado em 2010 pela britânica Jude Kelly, o evento já percorreu países da Europa, Ásia e África, chegando agora pela primeira vez na América Latina. O evento celebra e protagoniza a luta das mulheres ao redor do mundo.

 

Distribuído entre a Praça Mauá, o Museu do Amanhã, o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Armazém 1 do Pier Mauá, o festival foi totalmente gratuito e dividido em seções como “Mulheres em Diálogos”, “Mulheres das Artes e Culturas” e “Mulheres Empreendedoras”.

Além disso, durante os três dias, grandes nomes estiveram presentes, como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Ana Paula Xongani, Sonia Fleury, Tia Surica, Heloisa Buarque de Hollanda e cantoras como Valesca Popozuda, Elza Soares, Karol Conka, Tiê, Flora Matos, Dona Onete, Luedji Luna e muito mais.

O Festival foi pensado, desde sua origem, como uma plataforma global para agregar e conectar mulheres de todo o mundo. Foi notado que, ao longo da história da humanidade, houve uma falta de reconhecimento das conquistas e contribuições de meninas e mulheres em diversos processos, não existindo, portanto, o devido registro sobre a atuação delas.

“É um movimento em relação ao poder, um movimento em termo da transformação do imaginário da mulher ao longo da história e esse é um dos propósitos deste festival”, diz Nina Best, uma das coordenadoras do evento.

Sabendo disso, as organizadoras do Festival entenderam que existe uma necessidade urgente de enfrentar todas as injustiças e desigualdades que impedem a garantia de direitos iguais entre os gêneros, reconhecendo-se, com isso, as devidas interseções que precisam ser feitas para efetivar a potência e o protagonismo das mulheres no seu direito à vida e à liberdade.

“Estávamos precisando desses abraços, desses encontros, ter a nossa voz ouvida e dar voz às que não são ouvidas…. Pra gente construir conexões mais fortes com as mulheres que estão em outras partes do Brasil também, as indígenas, as negras, as nortistas, as nordestinas’’, enfatiza Nina.

Na edição carioca, o Festival fez uma parceria com a Instituição da Sociedade Civil Redes da Maré, que tem como um de seus projetos de atuação a Casa das Mulheres da Maré.

A Diretora da Rede da Maré e Curadora do Festival fala um pouco da sua história e sua relação com o evento.

A fundadora do WOW, Jude Kelly, também conta a importância de dar voz para as favelas e para as mulheres das periferias e o que elas passam durante a vida, mais do que isso, apoiar causas, ONGs e jovens empreendedoras, não só nesse ambiente, como em todos, reconhecendo suas trajetórias, contextos e vivências.

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Jude Kelly, fundadora do WOW, em coletiva no MAR, no dia 16 Foto: Leticia Heffer / Agência UVA

Além dela, a funkeira Valesca Popozuda explica o quão complicado está o nosso país e o quanto as mulheres estão sendo massacradas, além da importância deste evento para todas.

“É bom que a gente possa trazer a nossa voz, trocar experiências uma com as outras. Lutar pela igualdade que todas nós merecemos. O evento contribui para isso. É uma união, onde a gente busca por muito disso, pelo feminismo e pela sororidade mesmo. Mostrar para essas mulheres o quanto elas são guerreiras, o quanto elas podem, o valor que elas têm que ter com elas mesmas.” 

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Valesca Popozuda, dia 16, no MAR Foto: Leticia Heffer / Agência UVA

Ainda no mesmo dia, a funkeira participou, junto com Adriana Facina e Tati Quebra-Barraco, da troca de experiências no MAR com o tema “Funk you: O lugar da mulher é onde ela quiser”. Ao longo dos três dias de Festival, foram debatidas pautas como cidades seguras para as mulheres, o direito de ir e vir, a questão do assédio nas ruas, a relação da economia do cuidado, escolas feministas, maternidade, mulheres rurais e reconhecimento, trabalho escravo, mulheres empreendedoras, novas perspectivas e também assuntos considerados tabus, como o prazer da mulher e os diferentes tipos de famílias.

O primeiro dia de evento teve cortejo, oficinas, shows e festa

Além do cortejo do bloco Ilú Obá de Min, o palco na Praça Mauá teve a presença de Letrux, da DJ e produtora musical Badsista e de Elza Soares.

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O evento deu também bastante ênfase na luta de mulheres negras e pretas e nesse contexto, falou-se da importância das novas tecnologias, como a internet, para dar voz a essas mulheres que não tem tanta representatividade.

A revolução já está acontecendo e ela é digital: o impacto social das blogueiras e influenciadoras digitais

Fórum de vivência no auditório do MAR recebeu, no dia 16, Ana Paula Xongani, Maíra Azevedo, Angélica Ferrarez e Carla Fernandes.

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Fórum de Vivências no Auditório do MAR em 16 de novembro Foto: Leticia Heffer / Agência UVA

 A tecnologia digital transformou a forma de produção, circulação e consumo de ideias, produtos culturais, cidadania e participação política. A juventude, nesse sentido, vem tendo um papel central na utilização dela. De fato, os espaços criados a partir de novas formas de comunicação são cada vez mais ocupados pela juventude.

Nesse contexto, durante a conversa mediada por Angélica Ferrarez, também palestrante, se desenvolveu de forma harmoniosa, debatendo o espaço da mulher na comunicação, principalmente no audiovisual, o espaço da mulher no samba, a violência contra a mulher negra, a discussão sobre a moda, a representatividade e a autoestima da mulher negra. A inclusão de minorias e o espaço da mulher no humor também foram tema. A própria Angélica começou o fórum desenvolvendo a questão da mulher, principalmente negra, não ter lugar no audiovisual.

“Temos o tempo todo o racismo falando: o seu lugar não é aqui.”

Além disso, como mulher, negra e fazendo parte do ambiente do samba, afirma que não só nele, como também na maioria dos lugares, o machismo está sempre presente. Logo depois mostrou o teaser do seu projeto “Rodadas”, com quatro universitárias negras apresentando e se lançando no audiovisual.

Já Carla Fernandes falou um pouco da sua trajetória como jornalista e radialista, do motivo de ter se desiludido com a profissão e por que começou a fazer um audioblog sobre histórias não comuns de negros em Portugal.

Ela mostra Lisboa a partir de depoimentos de afrodescendentes através do “Afrolis”, além de relatos da violência contra a mulher negra e também dela em outros países, a maioria, casos que não passam no mainstream. A YouTuber Ana Paula Xongani, filha de pais ativistas, expõe a relação da moda, da autoestima da mulher negra e da política.

“Discutir moda é a minha janela para discutir a sociedade”. Ana Paula também acha importante citar e encontrar a pluralidade das mulheres negras e do fato do diálogo, na internet principalmente, abrir portas para revoluções. “Vi que na internet tinha mais espaço para começar um estilo de revolução”.

Para ela, contudo, existir em si já é um ato revolucionário.

“Existir não está para além de resistir. Estar em um evento, numa mesa com quatro mulheres negras, também é revolução”.

Ela complementa citando a importância de novas vozes e novos influenciadores negros estarem na internet. Assim como ela e a palestrante Maíra Azevedo, 23 influenciadores negros estão participando de um coletivo chamando “Influência Negra”.

Por último, Maíra, mais conhecida como ‘Tia Má’ na internet, utiliza do seu humor para falar de pautas importantes, de minorias na sociedade e diz que, sendo mulher, negra, gorda, nordestina e do candomblé, tem que ter muita força todos os dias.

“Para muitos, corpos como o meu servem apenas para entreter. Eu tenho sede de falar. Por isso eu acho a internet um espaço de democratização”.


Leticia Heffer – 7º período 

 

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