Busca por visibilidade: como as mulheres estão lutando por um espaço na música

Ao longo dos últimos anos, muito se falou de feminismo, de igualdade de gênero, da luta por direitos e por salários iguais. Não é de hoje que as mulheres lutam para ter cada vez mais espaço em ambientes que antes eram inimagináveis para elas. Na música não foi diferente. Nessa busca incessante, as mulheres ainda sofrem com estereótipos e preconceitos: do pop ao rock, do sertanejo ao funk, eles ainda estão lá.

 

Prova disso é a guitarrista da banda Five Minutes of Rain, Stéphanie Vetromille, de 19 anos, que conta que os homens muitas vezes ainda têm pensamentos machistas e a veem como um “sex symbol”.

“Uma mulher tocando guitarra para eles é incomum. Muitos deixam de se ligar no meu trabalho, no meu profissionalismo para simplesmente suprir egos e fragilidades no meio. É nítido que o meio underground da música ainda persiste machista, principalmente nas vertentes do metal e afins’’, afirma.

Apesar de ter começado a tocar profissionalmente aos 17, seu contato com a música vem desde os 10 anos, quando a avó lhe deu como presente de aniversário seu primeiro violão. Inspirada em artistas como Slash, do Guns N’ Roses, ela fala do quanto hoje incentiva crianças e mulheres que a veem no palco e sabem que o sonho delas é possível. “Eu creio que nós mulheres estamos tomando o nosso digno espaço e superando muitas expectativas por merecimento”.

Além de inspirações singulares como a de Stéphanie, atualmente existem diversos projetos voltados para aumentar a visibilidade da mulher na música. Um deles é o projeto do Spotify ‘Escuta as Minas’, que tem como objetivo aumentar o número de mulheres na música e fazer com que elas sejam mais ouvidas. Ele conta com a participação de grandes nomes da música, como Elza Soares, Karol Conká, Mart’nália, Maiara e Maraísa, Mulamba, Cássia Eller na voz de Lan Lanh, Maysa na voz de Tiê e Chiquinha Gonzaga na voz de As Bahias e a Cozinha Mineira.

Nesse contexto, uma das criadoras do projeto ‘Oficina das Minas’, a DJ Bia Marques, de 24 anos, reforça a atenção para as mulheres que trabalham no universo da noite. Bia explica que, por este ser um ambiente majoritariamente masculino, ainda existe preconceito com as mulheres na área, o que faz com que o trabalho não seja valorizado da forma que deveria ser em várias questões, inclusive referente ao cachê.

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A DJ Bia Marques Foto: I Hate Flash

“Depois de 3 anos nessa carreira, ainda sou botada para tocar em horários não tão privilegiados e recebo muito menos que diversos homens”, conta Bia.

Justamente por isso, ela e mais três amigas criaram o projeto ‘Oficina das Minas’, um coletivo criado para proporcionar, de forma acessível, conteúdo e oficinas de discotecagem para mulheres que queiram conhecer, se inserir no mercado de trabalho e até mesmo se especializar. Assim como Stéphanie e Bia, a música está muito presente na vida de Cynthia Thai, 32 anos, baterista da banda de death metal Schatha, formada somente por meninas. Da mesma forma, ela também já sofreu preconceito.

“O mundo da música ainda é bem machista. Vai desde o professor de bateria, baixo, guitarra, etc ao cara que está vendendo os instrumentos nas lojas, do produtor de shows, aos caras da banda que teriam que “aceitar” ter uma mulher na banda… E por aí vai! Mas temos que usar isso como gás para estudarmos mais e melhoramos cada vez mais”, diz Cynthia.

Para ela, assim como para diversas mulheres, a arte e a música consistem em um ato político.

“Arte e política andam juntas e de mãos dadas e não tem o que discutir. Qualquer artista em qualquer nicho, seja DJ, cantora, músico, tem uma voz e essa voz é ouvida por milhares de pessoas. Você saber o que falar e como se posicionar diante disso, eu já considero que seja um ato político. Hoje em dia, ser artista pra mim é resistir, o que já nos torna um ato político por si só”, diz Bia Marques.

Pensando nisso, as meninas da banda curitibana ‘Mulamba’ falaram um pouco de como foi participar do projeto ‘Escuta as Minas’ do Spotify.

Meninas da banda ‘Mulamba’ Foto: Divulgação

Confira a entrevista realizada com a Fer Koppe, violoncelista do sexteto:

AgênciaUVA: Como foi para vocês participar do projeto ‘Escuta as Minas’?

Fer: Foi legal. Uma experiência nova tanto de set como de troca com artistas tão especiais.

AgênciaUVA: Como foi estar do lado de grandes nomes da música?

Fer: Foi corrido, aquele esquema de correr contra o tempo nos sets de filmagem. Mas nos poucos minutos que gravamos juntas, deu tempo para cantar, sorrir e se emocionar com a voz da Elza Soares ecoando por todos os cantos daquela sala e, também, sentir um pouco mais desse mundo onde vozes ativas reunidas criam uma potência incrível.

AgênciaUVA: O que vocês acham do espaço da mulher na música?

Fer: Ainda pouco habitado, tímido, mas em constante ascensão. Cada dia que passa conhecemos mais trampos de mulheres fodas e estamos vindo com tudo, com vontade, com muito trabalho, com muita seriedade e com muito amor pra ocupar nossos espaços.

AgênciaUVA: Está mais fácil conseguir apoio?

Fer: Depende. Eu acho que a vida nos encaminha pra muitas formas de apoio. Somos quem somos e estamos construindo uma história apenas porque sempre caminhamos com o apoio de muitas pessoas que se doam, assim como nós, pra ver as coisas andarem e acontecerem.

AgênciaUVA: Para vocês, hoje, no momento atual em que vivemos, qual a relação da arte com a política?

Fer: Quanto mais absurdos vemos acontecer na política, mais vontade temos de falar, expressar, soltar, criar, chorar, gritar e mostrar que nada se evolui com mentiras, armações, armas e intolerâncias. A arte tem o poder de transformar pessoas, histórias e situações e vamos continuar resistentes falando de amor mas também falando sobre realidades que não são tão lindas assim.

AgênciaUVA: O que desejam para o futuro em relação ao espaço das mulheres na música?

Fer: Que haja mais respeito. Respeito real mesmo, olho no olho, reconhecimento e mais entendimentos em relação ao “estamos no mesmo barco, vamos nos ajudar e nos potencializar”.


Leticia Heffer – 7º período

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