Sexismo em jogos online: discursos de ódio ganham espaço

No dia 30 de setembro, a Agência UVA publicou uma matéria sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres e meninas que jogam games online. As gamers têm de ler e escutar diferentes frases de ódio quando uma partida não sai como planejada por seus colegas homens. Surpreendentemente, tais frases tendem a vir de perfis de adolescentes, entre os 12 e 16 anos, como foi observado pelo repórter Pablo Guaicurus, em sua experiência imersiva. Essas práticas são preocupantes em qualquer idade, mas é necessário compreender o que leva essa faixa etária a isso.

Para entender o comportamento agressivo desses adolescentes, precisa-se conhecer o universo desses tipos de jogos. Trata-se de uma comunidade criada a partir de fins comuns, onde são gerados vocabulários específicos, gírias e piadas internas. Ao jogar online, a atmosfera competitiva é elevada e o jogador precisa provar que pertence àquele lugar, tanto pela conduta quanto por suas habilidades. A agressividade dos jogos observados, como o Counter Strike e o League of Legends, atrelada a essa rivalidade, põe a masculinidade dos membros em risco.

Foto Unsplash destaque gamers

No game online Counter Strike já houve casos de sexismo entre os jogadores Foto: Unsplash

Sobre esse risco, a antropóloga Ana Fiori diz que isso “aumenta enormemente na presença de personagens, avatares ou jogadoras mulheres, que perturbam os tropos narrativos do jogo e trazem a possibilidade de que se perca para uma mulher, tornando-se menos homem”. Em resposta, Ana afirma que eles atacam as mulheres presentes com xingamentos diferentes do que trocam entre si. “Atacar as mulheres em conjunto serve como proteção mútua a esse risco à masculinidade”.

A psicanalista Danielle Lamarca detalha que essa separação acontece porque os jovens vão reviver a fase de quando começaram a se entender por meninos. Na pré-adolescência, eles passam a integrar-se em clubes, os chamados Bolinha e Luluzinha. “Logo, de repente, um game é algo do universo masculino. Os meninos sabem fazer isso e as meninas não sabem. A rivalidade aumenta, aflorando uma questão cultural. Obviamente, o sujeito que está em formação está sendo influenciado de qual é o olhar da cultura para isso”.

Ao tentar descobrir de onde vem o discurso de ódio dos adolescentes, é natural que se pense na escola e no seu papel na formação dos mesmos. Para reverter o quadro sexista, foram criadas pedagogias de gênero nos ambientes de ensino, onde os professores tentam reduzir a diferenciação entre meninos e meninas. A coordenadora de pedagogia da Universidade Veiga de Almeida, Viviani Anaya, explica que a intenção é não separar as crianças, respeitando as relações de gênero.

“A gente faz trabalhos onde não se separa menino de menina, eles fazem trabalhos coletivos. Não tem mais essa brincadeira é de menino, essa brincadeira é de menina ou essa cor é de menino, essa cor é de menina. Os banheiros, em algumas escolas, são usados coletivamente, então eles têm que respeitar, levantar a tampa, porque uma menina pode depois usar. Eles são ensinados a compartilhar espaços”, esclarece Anaya.

Contudo, não é só a escola que molda o comportamento da criança. A primeira a cumprir essa função é a família. Nesse quesito, observam-se os maiores problemas. “É em casa que os jovens vão sentir o reflexo da sociedade sexista em que vivemos, explicitada na fala machista e agressões do pai. Aliados a isso, temos a interação com os amigos e conteúdos midiáticos, que vão ditar as formas de masculinidade e feminilidade, que não apenas valorizam e reforçam a agressividade entre os meninos, como buscam segregar interesses. Isso cria a sensação de risco à masculinidade caso as fronteiras delimitadas entre os gêneros sejam transpostas, por meninos e meninas”, aponta a antropóloga Fiori.

Não se pode esperar que a escola resolva todas essas complicações. As crianças trazem suas práticas de casa e a instituição identifica aquelas que são negativas, mas não há o apoio dos pais. “A gente detecta isso na escola, mas aí a gente chama o pai, chama a mãe e ninguém vem. Quando vem, eles não admitem que isso acontece”, é o que conta Anaya. Ainda há aquele responsável que culpa a escola, dizendo que, ao implantar as pedagogias de gênero, está incentivando a mudança de gênero sexual dos pequenos, acrescenta a pedagoga.

Atribuições dos pais na fiscalização da conduta dos adolescentes

Recomendações aos responsáveis sobre como agir com as crianças que praticam o discurso de ódio nas plataformas de jogos online.

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Impacto na mente infantil

Além das pedagogias de gênero, os professores procuram encaminhar os alunos à profissionais da psiquê. Porém, é necessário a participação da família para que o tratamento dado funcione, mas a cultura sexista da sociedade não vai de encontro a isso. Nos poucos casos em que eles chegam a ser atendidos por psicólogos ou psicanalistas, os profissionais procuram identificar de onde surge essa tendência comportamental, que pode ter base tanto na cultura, como nos exemplos de dentro da própria casa.

Isso quer dizer que aquele adolescente que tem a mãe que não trabalha e o pai provedor, ou “chefe”, pode reproduzir seu modelo fora do ambiente familiar. “Não que a mãe tenha, necessariamente, transmitido isso, mas ele pode criar, no imaginário dele, que ser mulher é isso”. Ainda assim, alguns jovens com mães independentes podem se comportar de forma agressiva. A psicanalista Danielle Lamarca acredita que é porque “tem milhões de fatores que vão contribuir para que o sujeito se forme daquele jeito: família, cultura e a própria interpretação do indivíduo”.

Também é analisado se há um vício no jogo em questão, pautado em quantas horas o jovem passa jogando. “Gostar de games é diferente de um adolescente que passa o dia inteiro jogando, sete dias da semana”. Cabe aos pais ficarem atentos às nuances das práticas online de seus filhos e procurar um tratamento se perceberem que estão fazendo algo absurdo. Os responsáveis devem sempre saber o que as crianças estão jogando e como são os games. A participação através do diálogo é necessária, pois “crianças e adolescentes precisam de supervisão, porque eles ainda são imaturos em alguns aspectos”.

Não obstante, há a vertente que acredita que a violência do jogo pode ser um fator que incentive esse comportamento. Para a antropóloga Ana Fiori, tem de haver cuidado com essa percepção, pois vai muito além da análise sociocultural e neuroquímica da interação da criança com o game. “O que os jogos online trazem é um distanciamento entre emissor e receptor da mensagem e uma dissociação de seus efeitos. Um problema da internet, de modo geral, mas bastante forte em ambientes mais homogêneos, como servidores de games”.

Nesses tipos de jogos, os embates exigem respostas rápidas, que retardam o processo de reflexão no que diz respeito aos efeitos de suas mensagens. “Isso faz com que a misoginia que delimita a comunidade “dos caras” possa ser vivida com bastante intensidade, mesmo quando nos outros contextos de interação, ela não seja tão presente, ou mesmo que eles não concordem com essa misoginia”, acrescenta Fiori. Contudo, isso não lhes ausenta a responsabilidade por suas falas de ódio e devem ser punidos devidamente.


Luíza Accioly Lins e Pablo Guaicurus – 8º período

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