Os desafios de ser mulher e gamer: como os jogos têm se tornado um ambiente tóxico

Jogar é um hobbie desde as cartas e tabuleiros, até hoje, na era digital. É comum encontrar alguém se distraindo com algum joguinho na tela do celular, mas existe um público específico que sofre para se divertir. Atualmente, o ambiente dos games online é considerado um território hostil para as mulheres.

Vídeos com ofensas dirigidas a elas não são raridade e essa realidade parece desanimar quem quer apenas se divertir e passar o tempo. Os casos apresentam um padrão: ofender mulheres com o sexismo. Frases como “vai lavar louça!” ou “tinha que ser mulher!” fazem parte do cotidiano de moças que gostam de jogar.

A estudante Daiane Belfort, que joga o título League of Legends, mais conhecido como LoL, contou que o ambiente é bem agressivo. Ela assumiu que já deixou de jogar por conta das ofensas. “Eu não estava me concentrando no jogo e fui xingada. Em um momento que fui me distrair, acabei me estressando mais ainda. O que será que fiz de errado para ser tratada assim? Só por ser mulher?”, diz Daiane.

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Daiane Belfort usa apelidos que não a identifiquem como mulher Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Hoje, ela evita dar qualquer indicação de quem é ao jogar. “Meu apelido é bem generalista, mas, às vezes, meus amigos se esquecem e acabam me chamando pelo nome e aí começa. Eu faço alguma coisa errada e me xingam. Em alguns momentos, envolve até palavrões”, conta a estudante, que usa também a estratégia de não jogar sozinha.

Daiane não é um caso isolado. Gabrielle Mancini é administradora de um grupo temático de Counter Strike Global Offensive (CSGO). Esse é um título problemático, o que dificulta ainda mais para uma mulher, por envolver conversação de voz. Ela aponta um outro problema, o assédio e revela que também já deixou de jogar por conta das ofensas. “Metade dos jogadores me mandam lavar a louça e outra metade dá em cima de mim ou faz alguma piada sexista de duplo sentido. É chato quando me ofendem só por eu ser mulher ou por alguém ser negro, por exemplo”, revela.

A estudante Layla Fleischhauer também viveu momentos negativos enquanto tentava se distrair jogando LoL e CSGO. Assim como as demais, já abandonou uma partida por conta dos xingamentos. “As falas machistas já me machucaram muito, a ponto de chorar pelo que eu escutei”. Ela transmite o jogo em seu canal na Twitch, que já foi invadido por homens a fim de proferir ofensas de todo o tipo.

Layla Fleischhauer

A estudante Layla Fleischhauer já teve sua transmissão atacada por homens Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Layla joga também no clube de CS Gamers Club, que tem um sistema de punição a esses ataques mais eficiente do que a Valve, programadora do CSGO. Para Layla, o fato do sujeito estar escondido atrás do monitor é o fator determinante para esse comportamento. A estudante faz ainda um apelo aos homens que não concordam com essa atitude, que saiam da passividade e ajam em prol das mulheres.

Na opinião de Vivian Raquel, o problema está na aceitação da mulher em um ambiente tido como do homem. Ela acredita que a falta de um cenário profissional feminino forte, como acontece no masculino, não as incentiva a jogarem. “Muita das vezes jogamos caladas, para evitarmos ser xingadas ou assediadas”, conta Vivian.

Apesar disso, há quem procure ajudar. O DJ Guilherme Atuartte apresentou o Counter Strike à esposa, Caroll Gervasio. Ele conta que reage quando presencia algum comportamento parecido, mas que ainda assim, são muitas as pessoas com a intenção de atrapalhar o jogo. Caroll acredita que deveriam existir plataformas mais eficientes para denúncias.

O problema persegue até pessoas famosas dentro desse universo, como a repórter e apresentadora do Circuito Brasileiro de League of Legends (CBLoL) Carol Oliveira, ou simplesmente Tawna. Recentemente, ela postou no Twitter um caso de discurso de ódio recebido enquanto estava transmitindo um jogo, que pensa ter sido para chamar atenção. Ela acredita que esse tipo de atitude deva acabar e que esse é um espaço a ser ocupado pelas mulheres por direito.

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Em outras plataformas, como o celular, não é diferente. A assistente administrativa, Cíntia Cristina enfrenta o mesmo obstáculo. Ela já foi criticada logo no início da partida, apenas por ser mulher. Cíntia conta que quando está muito nervosa, prefere desativar os chats e jogar só e ainda sugere: “Nunca deixem de fazer algo por causa do preconceito alheio”. Aos homens, o pedido é que eles não as deixem sozinhas: “Já é muito difícil encontrar garotas que jogam, então precisamos de apoio”.

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Cíntia Cristina joga pelo celular, onde também já viveu situações desagradáveis Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Em comum, todas as entrevistadas dizem que a comunidade inteira deve agir. Sugerem que os bons usuários se manifestem contra o discurso de ódio, fazendo denúncias. As salas de games online são febre no mundo inteiro, mas parecem hostis para as mulheres, ainda que se divertir seja um direito de todos.

HÁ UMA ALTERNATIVA PARA O PROBLEMA

Os jogos normalmente contam com um sistema de denúncias, mas cuja eficiência é questionada pelos usuários. Dentro do título CSGO, já existe uma iniciativa que tem surtido efeito: A Gamers Club. Após um cadastro, a pessoa têm direito a jogar nos servidores próprios da GC, que possuem diferentes ações que visam fomentar o cenário competitivo do CSGO, dentre elas, a Liga Feminina.

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A proposta da GC é tornar o ambiente atrativo para todos os públicos Foto: Divulgação / Gamers Club

Yuri Uchiyama, CEO da empresaacredita que liga é importante, mas não é a única solução, embora entenda a necessidade desse produto exclusivo para esse público. “Acreditamos na capacidade de todas as mulheres, por isso, elas podem jogar qualquer competição da GC. A Feminina é um incentivo a mais que acreditamos fazer sentido para o momento do mercado”.

Segundo o clube, o comportamento agressivo é enquadrado como discurso de ódio, o que é passível de exclusão dos servidores. O recado dado por ele é simples: “Todos são bem-vindos a jogar na Gamers Club! Se alguém lhe ofender, informe para que as punições sejam aplicadas. Respeitem as regras e tenham um bom jogo!”.

A EXPERIÊNCIA DE VIVER NA PELE DELAS POR UMA SEMANA

Para entender melhor sobre o assunto que escrevia, resolvi me passar por uma mulher em dois títulos: Counter Strike Global Offensive e League of LegendsDaianeryS, meu alter ego, frequentou diversas partidas, em diferentes horários. A primeira impressão foi a de necessidade de transferência de culpa após um erro, seguidas de frases como “Me segue, burra!”, usadas sempre que um equívoco ocorria.

No LoL, um ponto observado foi a falta de credibilidade. Em diversos momentos, eu tentei dar orientações e fui ignorado ou até pior. Frases como “Tinha que ser mulher” e “Você é menina, fica quieta e obedece!” foram as situações mais leves. Nas partidas que joguei sem amigos, o resultado foi uma derrota, sempre comigo sendo culpado por ela.

No Counter Strike a situação foi um pouco diferente, mas não menos desagradável. Como a comunicação é feita basicamente pelo microfone, me restringi a seguir as orientações para não sair do disfarce. Em situações de desvantagens, fui bem pressionado, porque era obrigado a vencer para não ouvir o “volta pra pia!”. Os xingamentos se sobressaíram a alguns ótimos jogadores que foram cordiais e educados.

O melhor estava reservado para a última partida dessa experiência. Por acaso, caí em uma sala com um casal e mais duas pessoas. O jogo foi apertado e eu era o integrante que menos conseguia contribuir para o time. Por outro lado, a real mulher da sala estava sendo bastante efetiva. Em nenhum momento houve pressão por parte de qualquer pessoa, pelo contrário. “Eu confio!”, foi o que ouvi em uma situação de desvantagem. Ao vencer o duelo: “Parabéns! Vamos, vamos!”. Talvez tenha sido o momento mais legal e me fez revelar quem eu era e o porquê estava disfarçado, o que me trouxe uma reflexão que é importante transmitir a todos.

Jogue para se divertir e seja uma pessoa cordial. É normal se irritar quando um jogo de 40 minutos é perdido por conta de erros de um jogador inexperiente, mas ofensas são ineficazes. Não direcione xingamentos de cunho sexista para as mulheres, elas são donas desse espaço tanto quanto os homens. Se você presenciar uma situação de discurso de ódio, não fique calado. Denuncie! Passa por nós ter um ambiente que nos divirta.


Pablo Guaicurus – 8º período

Um comentário sobre “Os desafios de ser mulher e gamer: como os jogos têm se tornado um ambiente tóxico

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