Resenha de ‘Lolita’: ‘Ambos condensados estávamos nós’

A cantora Lana Del Rey fez em seu álbum de estreia Born To Die referências ao livro  “Lolita”, obra controversa de Vladimir Nabokov. Na edição especial do hinário, há uma faixa inteiramente dedicada à personagem que intitula o livro. A cantora capta a personalidade vulgar e ao mesmo tempo infantil da menina. Personalidade esta exposta por um eu lírico cínico, narcisista e melancólico, que não alicia apenas a criança de 12 anos como também os “senhores do júri”.

Em “Lolita”, Humbert Humbert, professor francês de literatura inglesa de meia-idade, narra sua vida de “cavalheiro fiel e contido” atraído por meninas de “natureza nínfica” entre 9 e 14 anos, as quais ele designa como “ninfetas”. Acredita que a perda de uma grande paixão da adolescência tenha provocado sua natureza pedófila.

Um tempo após sua mudança para os Estados Unidos, o intelectual vai para Ramsdale e cai de paraquedas na casa de Charlotte Haze, uma mulher normativa e ríspida que mantém uma relação fria e desdenhosa com a filha de 12 anos, Dolores. Ele enxerga sua condição de inquilino como uma chance de conseguir finalmente possuir uma ninfeta; aquela que ele apelidou de Lolita.

Ao saber do amor da senhora Haze, casa-se com ela a fim de aproveitar-se da posição de padrasto para acariciar Lo quantas vezes quisesse. Oportunamente para Humbert, Charlotte morre atropelada. Assim, ele busca a criança numa colônia de férias e passa boa parte do livro em fuga pelos Estados Unidos, abusando da garota sexualmente, psicologicamente e emocionalmente.

Humbert escreve a história dentro de uma prisão e, por diversas vezes, se dirige aos jurados que compõem tanto os literais como os leitores. Em seus primeiros capítulos, recapitula sua vida pré-Lolita, tentando justificar sua natureza. Com uma escrita rebuscada e cínica, que inclui expressões em francês, consegue de modo sutil durante a narrativa confundir os sentimentos de quem a lê. Ele exalta sua estética, personalidade e dons que possui, e fala de si como um homem melancólico, taciturno e oprimido.

Lolita é uma menina clichê da época que se interessa por quadrinhos, revistas femininas e de cinema, jazz e dança, guloseimas e teatro. Pueril, mas nem tanto, chama a atenção dos garotos e dos homens. Segundo o padrasto, via o ato simples [sexual] como parte integrante do mundo furtivo dos jovens.

A narrativa é dividida em duas partes. A primeira vai até o dia em que o professor conta a Lolita já violada que a mãe está morta. E a partir da segunda parte, a menina já se vê sozinha; só lhe resta Humbert. Dolly, antes de saber que está órfã, imagina que esteja vivendo uma aventura. A aventura termina e se inicia um misto de drama e horror, gêneros que não se encaixam entre os prediletos da menina.

Humbert recorre a métodos abusivos para manter Lolita sob sua posse, como persuadi-la de que também é culpada pela relação que eles mantêm; aterrorizá-la psicologicamente com ameaças de reformatório e orfanato; e suborno, exigindo que transe para que só assim ganhe alguns trocados.

O protagonista cria expectativas para Lolita, a fim de que ela tenha uma finalidade diária pelo que viver. Em certo período, pausa as viagens e fixa-se com Lolita em uma residência, a fim de tentar dar à vida dela alguma normalidade ansiada pela garota.

Humbert se vitimiza e se humaniza; e apresenta uma personalidade agressiva, exasperada e impertinente de Dolly. Comportamentos que ele sabe serem frutos da insatisfação da moça com a vida atípica. Percebe-se, quando não se está sendo levado pela eloquência do intelectual, de que a jovem não está bem.

O professor de literatura chama sua história com Lolita de paródia de incesto. Ele não é parente, muito menos um primo que brinca com Lo. É um homem com cerca de 40 anos que estupra muitas vezes por dia uma menina. O humor deve estar nos artifícios narrativos utilizados e nos momentos patéticos da irônica devoção do opressor à oprimida.

Lolita pode ser considerada um símbolo feminista. Dolores (menina; mulher; feminina) vítima de opressão pelo padrasto (homem; sociedade), que vai desde a aversão ao que é considerado feminino (formas de expressão do gênero) a abuso sexual e privação da liberdade. Lolita é hipersexualizada. Também objetificada; uma boneca humana que serve ao desejo e prazer masculino. A mocinha se alimenta de expectativas diárias para sobreviver, valoriza a liberdade e ser jovem, e corre atrás de seus sonhos mesmo num sistema que a puxa para baixo.

Não se sabe realmente até que ponto a vulgaridade da menina é fiel, visto que a obra é escrita sob a perspectiva de um maníaco narcisista e cínico. Entretanto, desejos sexuais podem surgir na infância e estão presentes na adolescência, porém nada que justifique um adulto manter relações íntimas com quem não alcançou a maturidade.

Vale destacar as viagens pelos Estados Unidos. Para muitos, Lolita simboliza a jovem América e o boêmio Humbert, a velha Europa. Esta degradando àquela. Segundo Martin Amis no posfácio do livro, para Humbert, a vastidão selvagem que o cerca representa uma humilhação e uma paródia; sua amplidão e liberdade são uma censura permanente à sua furtividade e a seu ignóbil comedimento.

A mente do eu lírico é afligida pela culpa moral, mas não controla seu amor obsessivo. Em poucos momentos Humbert expõe que Lolita está insatisfeita e sofrendo por algo ou por tudo. Ele aproveita muito mais suas técnicas de abafamento. Isso não só por fazer tudo girar em torno dele, mas também porque enquanto preso, pretende ser leal aos sentimentos e pensamentos que lhe dominavam na época dos acontecimentos.

A culpa não é compartilhada apenas entre Lolita e Humbert, mas também entre seus leitores. O escritor conquista. Provoca empatia. Depois surge a pena. Que dá lugar ao nojo. Este tomado pela pena novamente. Os sentimentos, contraditórios, vão dar em quê? Em admiração por um personagem excelentemente construído por Nabokov.

E Dolores Haze? Cabe um trecho da música Carmen (um dos vocativos direcionados a Lolita por Humbert) de Lana Del Rey, “The boys, the girls / They all like Carmen”, talvez não da maneira que merece.


Jefferson Alves – 7° período

 

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