Cotidiano nas telas: o Cinema Novo e o retrato da vida

Com um início que impactou toda uma geração, o Cinema Novo revolucionou a indústria cinematográfica nacional

Em 2015, o filme “Vidas Secas”, dirigido por Nelson Pereira e adaptado do romance de Graciliano Ramos, conseguiu uma das grandes honrarias concedidas a filmes brasileiros: foi incluído na lista de filmes essenciais para serem assistidos, segundo a British Film Institute. Ainda no mesmo ano, a obra seria considerada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) como um dos melhores filmes nacionais já feitos.

O longa se enquadra na primeira fase do que ficou conhecido como Cinema Novo. Originado no decorrer dos anos 60, esse movimento visava radicalizar o ‘fazer cinema’ a que o Brasil estava acostumado. Até então havendo apenas obras voltadas para o humor descompromissado e que maquiava a realidade social do país, a nova onda de filmes nacionais teria como meta desconstruir a imagem de país paradisíaco que se vendia do Brasil e expor ao público os dramas vividos por grande parte da população.

A geração inicial do Cinema Novo apresentou uma nova leva de diretores que possuíam tais ideais radicais: Glauber Rocha, Ruy Guerra, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e Helena Sohlberg. Para eles o cinema era muito mais do que uma diversão descompromissada, poderia ser também um poderoso veículo de comunicação de massa voltado para a denúncia sobre a luta diária das famílias nordestinas para sobreviver à seca do sertão ou das que tentam sobreviver nas favelas cariocas.

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Cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Imagem: reprodução)

O crítico de cinema do G1, Célio da Silva Júnior, classifica o movimento do Cinema Novo como algo de extrema importância, não só para o amadurecimento da indústria no país como também de conscientização. “Até o início dos anos 60, tínhamos muitos poucos filmes que realmente dispunham a comentar sobre questões sociais. Não era o que o público queria consumir. Isso mudou após o Cinema Novo e principalmente pela edição de imagens nos filmes, que chocavam o público com cenas de animais mortos, seca total e famílias miseráveis”.

O filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)” em particular foi considerado obra símbolo da primeira geração do Cinema Novo por conter justamente todo o simbolismo que chocou o púbico, até então pouco acostumado com a realidade. As imagens reais gravadas por Glauber Rocha, somadas a um enredo focado na trajetória de um cangaceiro, geraram certa polêmica, devido a narrativa fora do padrão e da montagem de cenas chocantes.

Pablo Bazarello, crítico de cinema do site CinePop, destaca que mesmo filmes brasileiros mais modernos, como” Tropa de Elite” e ” Cidade de Deus”, que tiveram grande reconhecimento no estrangeiro não conseguiram impactar tanto como as obras da primeira geração do Cinema Novo. ” O que deve ser destacado é que, mesmo que Tropa de Elite e Cidade de Deus tenham alertado o mundo sobre a questão da violência no Rio de Janeiro, eles não tiveram o mesmo impacto que o ” Vidas Secas” por exemplo. Claro que havia todo o contexto social da época de ver o Brasil como um paraíso tropical e que amplificou o choque, dificilmente uma obra poderia igualar o que foi feito”.

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Cena do filme ” Vidas Secas” (Foto: Divulgação)

Com um respeito e uma nova geração de cineastas consolidadas, o cenário para o Cinema Novo seria o de evoluir para um novo patamar nos anos subsequentes. O tom crítico à miséria do Nordeste ou para a pobreza nas favelas cariocas abriria espaço para um debate maior, seja focado na ditadura militar que viria a se intensificar, ao modelo importado do cinema americano ou as necessidades básicas que a sociedade enfrentava.

Reportagem de Gustavo Barreto para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

2 comentários sobre “Cotidiano nas telas: o Cinema Novo e o retrato da vida

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