Linchamento virtual é assunto sério e tem consequências

Quem utiliza as redes sociais muito provavelmente já viu alguém postar comentários ou fotos com atitudes consideradas inadequadas no âmbito social e, a partir disso, o fato acabar tomando uma repercussão muito grande, expondo completamente a pessoa que fez a postagem. Essa atitude é conhecida como linchamento virtual e está tornando-se cada vez mais comum, disseminando ódio e ameças.

O doutor em Filosofia pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGF-UFRJ) Renato Nunes Bittencourt explica que o linchamento virtual é um método reacionário em que um indivíduo sem querer procurar a verdade dos fatos, toma uma atitude precipitada, definindo o que é dado como certo e errado, acreditando ter o direito de julgar e punir o outro por falta de empatia. Esses comportamentos são perigosos, pois podem interferir negativamente na vida de quem está sendo exposto.

Cartaz do filme "Aos teus olhos", com Daniel de Oliveira. Foto: Divulgação

Cartaz do filme “Aos teus olhos”, com Daniel de Oliveira. Foto: Divulgação

O filme nacional “Aos teus olhos” (2018) mostra exatamente como acontece um linchamento virtual e suas consequências. Na história, Rubens (Daniel de Oliveira), um professor que dá aulas de natação para pré-adolescentes, é acusado de pedofilia quando um de seus alunos conta para a mãe que ele lhe deu um beijo na boca. A partir daí, Rubens e toda sua vida começam a ser expostos. Muito bem desenvolvido, o longa deixa essa dúvida no telespectador, levando às vezes a acreditar que o professor é inocente e, em outras, a vê-lo como culpado.

Em debate seguido por uma exibição especial de “Aos teus olhos”,  no dia 25 de abril, na Estação NET Rio, a diretora Carolina Jabor disse que, ao participar do Festival do Rio, deparou-se com o momento de discussões que a internet vivia, referindo-se ao linchamento virtual que o artista Wagner Schwartz sofreu devido a sua performance no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, recebendo inclusive acusações de pedofilia. Para a diretora, por mais que o filme seja baseado em uma peça espanhola, foi uma grande coincidência que a ficção tenha acabado retratando muito bem a realidade.

Citando Pierre Lévy, o filósofo Renato Bittencourt, que também é coordenador acadêmico do curso de Administração da FACC-UFRJ, afirma: “O que é virtual, é real”. Ele comenta  ainda que as pessoas pensam que a internet é um espaço livre, sem regras de conduta, sendo desprovidas de qualquer senso jurídico e, dessa forma, acreditam estar a salvo, abrindo mão de sua própria dignidade. Isso faz com que divulguem as verdades mais insanas, sem qualquer critério e caráter, achando que apenas o mundo concreto importa. Cada vez mais esses atos afetam na vida cotidiana, como no trabalho e nas relações, pois o mundo virtual é uma outra dimensão da realidade.

Em 2013, a norte-americana Justine Sacco, antes de sua viagem para África do Sul, publicou em seu Twitter: “Estou indo para a África. Espero não contrair Aids. Brincadeira. Sou branca”. Durante as horas que ficou no avião totalmente incomunicável, o linchamento virtual de Justine já ocorria. Ela foi completamente massacrada nas redes socais, acusada de racismo. Um comentário infeliz — que ela alega ter escrito de modo irônico em crítica à mentalidade de alguns americanos — marcou a vida de Justine. Ela perdeu seu emprego após o pedido de muitos usuários da rede social, inclusive o atual presidente norte-americano, Donald Trump. Além disso, recebeu diversos xingamentos e ameças de morte. Essa história é uma das narradas por Jon Ronson em seu livro “So You’ve Been Publicly Shamed” (“Então você foi publicamente envergonhado”).

No Brasil, em 2014, no Guarujá, São Paulo, um crime bárbaro ocorreu devido à disseminação de uma fake news (notícia falsa). Um compartilhamento de um retrato falado de uma possível sequestradora de crianças causou a morte de Fabiane Maria de Jesus, uma dona de casa que na época tinha 33 anos, casada e mãe de duas meninas.
O caso aconteceu em um sábado quando Fabiane saiu de casa para buscar sua Bíblia. Ao retornar, sofreu um linchamento público. Devido a boatos espalhados nas redes socais, ela foi brutalmente espancada. Ninguém tentou ajudá-la nem questionou as agressões. Tudo registrado em vídeos que circularam na internet. Fabiane ficou internada por dois dias, mas não resistiu aos graves ferimentos e morreu.

Recentemente, a vereadora Marielle Franco também foi alvo de linchamento virtual. Após seu assassinato, em março deste ano — crime que até o momento não foi solucionado — acabou se tornando vítima de fake news, o que provocou um linchamento virtual de sua vida por parte de algumas pessoas. Um deles foi feito pela desembargadora do Tribunal de Justiça do RJ Marília de Castro Neves, que contribuiu para a disseminação dessas notícias. Ao postar um comentário, a desembargadora afirmou que Marielle estava “engajada com bandidos. A postagem difamatória da desembargadora foi reforçada pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e pela página “Ceticismo Político”, obtendo mais de 360 mil compartilhamentos no Facebook. Marília de Castro Neves acabou se retratando sobre seu comentário: “Repassei de forma precipitada notícias que circulavam nas redes sociais”.

Devido a muitas denúncias sobre fake news relacionadas à vereadora Marielle e pressionado por familiares da vítima, o Facebook decidiu tomar providências. Atualmente, ao acessá-lo é possível encontrar mensagens e vídeos reproduzidos pela própria página, dizendo estar trabalhando para diminuir o aparecimento de falsas notícias.

 


Marielle Franco sofreu linchamentos virtuais logo após sua morte, e conta apenas com a defesa por parte de sua família em respeito à sua memória. Fabiane Maria de Jesus sequer teve tempo de argumentar ao ser atacada e agredida brutalmente. Tanto no caso de Marielle quanto no de Fabiane, ambas não tiveram como se defender.


Thayná Duarte – 4º período

 

 

 

4 comentários sobre “Linchamento virtual é assunto sério e tem consequências

  1. Muito boa reportagem Tainá. Você chama atenção para um problema muito sério, no qual, acredito, muitas pessoas se envolvem por não estarem bem informadas ou não atentarem para os riscos de suas ações.

  2. Amei a reportagem ,porque trata de um assunto muito sério !Quando usamos uma rede social para expor uma idéia,uma opinião,um fato ,devemos ter consciência e responsabilidade sobre aquilo que estamos expondo ,para não destruirmos vidas e lançar fatos mentirosos.Parabéns!

  3. Pingback: Linchamento virtual é assunto sério e tem consequências – Thayná Duarte

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