Crítica: ‘As boas maneiras’

MV5BMTVhYWQwNzItMDYxNC00NjE5LWE2ZDctZjkzZTk5Y2NjMWE2XkEyXkFqcGdeQXVyNDY2NDMxNDY@._V1_O folclore brasileiro é rico em sua natureza mas, ao mesmo, é pouco explorado pela indústria cultural nacional. Algumas produções televisivas foram responsáveis ao longo das décadas em trabalhar da melhor maneira com algumas dessas personagens, tais como a Cuca e o Saci Pererê em “O Sítio do Pica Pau Amarelo”.

O histórico do cinema nacional para com o tratamento a criaturas fantasiosas sempre beirou ao descrédito, renegando-os a serem tributos ao estilo de filmes de terror de baixo orçamento conhecidos nos Estados Unidos como “Terror B”. As obras do Zé do Caixão, por exemplo, que permearam o cinema nacional ao longo da segunda metade do século XX, eram filmes de terror que abertamente se inspiravam nas produções estreladas por Vincent Price e dirigidas por William Castle. Filmes mais recentes como “Um lobisomem na Amazônia” (2005) mantiveram viva a tradição da representação fanfarrona do terror envolvendo monstros no Brasil.

Portanto, é notório o quanto o filme “As boas maneiras” segue por um caminho inverso ao que o histórico nacional no gênero tem a mostrar. O sucesso crítico e comercial que o vencedor do Oscar “A forma da água” obteve em 2018 é um elemento importante que move a narrativa dessa produção franco-brasileira. Dito isso, porque a questão do monstro aqui é trabalhada de um jeito totalmente voltada para a humanização do ser fantástico e da situação fantasiosa em meio ao mundo cotidiano, algo contrário ao misticismo macabro de Zé do Caixão ou do escrachado “Lobisomem na Amazônia”, uma vez que a origem do monstro vem de uma gestação que a personagem Ana (Marjorie Estiano) cultiva na primeira metade da produção.

Esse é o ponto em que a obra se diferencia. Ana carrega o monstro durante a gravidez, sofre com transtornos do sono, ataca animais na rua em uma fome assassina e é tomada por assaltos constantes de libido, mas ela jamais pensa em abortar. Essa relação então é representada como a de uma mãe que quer o nascimento do filho, que sofre com as consequências da gravidez até o momento derradeiro do parto, similar à trajetória da protagonista de Mia Farrow em “O bebê de Rosemary” (1968), de Roman Polanski.

MV5BMDIxNTYxMDEtNjAxOS00ZmY4LWFjYTgtM2FiMzZhOGMyZGY4XkEyXkFqcGdeQXVyMDYxMjcxMQ@@._V1_SX1777_CR0,0,1777,960_AL_

Fonte: IMDB

A protagonista interpretada por Isabel Zuaa também assume papel na concepção do monstro ainda não nascido, mesmo não sendo a mãe. Sua protagonista desenvolve ao longo da produção não só um relacionamento amoroso com a personagem de Marjorie Estiano, como também um sentimento de proteção maternal com relação ao bebê que ainda está para nascer. Ela vê todas as reações sobrenaturais a que sua amada está submetida pela gestação, mas se recusa a abandoná-los e, nessa situação, recria algo comumente utilizado nos filmes do diretor mexicano Guillermo del Toro, a humanização do monstro por meio da reação dos personagens humanos.

A dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra guia a narrativa como se fosse uma fábula infantil ao mesmo tempo em que a casa com a realidade brasileira. Por exemplo, apesar de haver um monstro como pilar principal da narrativa, a história poderia facilmente ser sobre uma jovem que se recusa a abortar e abandona sua família do interior para viver na cidade de São Paulo. Ou mesmo uma das mulheres principais estando sofrendo de efeitos sobrenaturais, o contraste entre a sua origem abastada (Marjorie Estiano) e de sua enfermeira (Isabel Zuaa) retrata a dicotomia presente na sociedade brasileira, aonde claramente uns têm mais oportunidades do que outros.

Entretanto, por mais que o enredo sobrenatural carregue uma beleza singular, ele perde força ao longo das mais de duas horas de projeção. A história segue uma linha em que, ao atingir sua metade, ela muda de direcionamento e, o que antes era uma fábula de terror e maternidade, se torna algo próximo de uma produção voltada para o público infantil. As questões de críticas sociais também se perdem nessa segunda metade e a mesma acaba por caminhar para um desfecho que, mesmo que tenha sido um tributo ao modelo de final clássico dos filmes de monstro do início do século XX (“Frankenstein”, “Drácula”), não tem por que de existir ali. Sua montagem soa amadora e cômica, além de deixar o final em aberto.

A atuação de Marjorie Estiano é exemplar. A atriz consegue reproduzir uma mulher de 30 anos que ainda se vê como uma jovem de 20. Suas ações, auxiliados a uma boa montagem de cenas, contrastam entre momentos em que ela, sob efeito do transe da gestação, sai à noite a procura de alimento para, em seguida, ela estar se exercitando em casa normalmente.

Por fim, “As boas maneiras” é, para os padrões nacionais, um terror inovador. Apesar de claramente se inspirar nas obras do del Toro, ele consegue trazer para a atmosfera familiar de todo brasileiro a sensação de que criaturas sobrenaturais existem dentro de uma população que sofre com escândalos de corrupção, racismo e diferença social. Apesar de uma segunda metade que pode facilmente enfraquecer o quadro todo, a mensagem passada pela primeira duração ainda se mantém, com o apoio de boas atuações de Marjorie Estiano e Isabel Zuaa, como uma produção bela e, para o terror nacional, um sopro de ar fresco a muito desejado.


Gustavo Barreto – 7º período

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s