Plataformas digitais ajudam na conquista da independência musical

O mundo musical está em transformação. O crescimento das plataformas de streaming musical, como Spotify e Deezer, trouxe grande desempenho na reprodução de conteúdos digitais. Segundo a última pesquisa realizada pela Federação Internacional da Indústria fonográfica (IFPI) publicada em 2016, receitas do mercado global de música gravada tiveram, em 2015, crescimento de 3,2% em relação ao ano anterior, atingindo US$ 15,0 Bilhões.

Esses aplicativos oferecem músicas de qualquer artista do mundo pela internet e reverte as reproduções em dinheiro para os músicos. Para que haja a publicação de uma música nesse tipo de serviço, não é preciso fazer parte de uma grande gravadora e isso faz com que músicos independentes possam divulgar seu trabalho mais facilmente e sem muitos empecilhos criativos que, às vezes, são gerados por elas.

O trabalho dos produtores musicais também ficou menos pesado de uns tempos para cá. É o que diz Raul Days, 23 anos, produtor musical na Broken Bed Records e vocalista da banda Adrift. Técnico de mixagem e masterização e formado em Áudio pelo Instituto de Artes e Técnicas em Comunicação (IATEC), ele acredita que as tecnologias abriram mais espaço para estúdios caseiros, já que o custo dos equipamentos, programas e plug-ins de mixagem está menor.

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Raul Days

Mas não é apenas a aparelhagem que faz um produtor musical ser bom. Além do envolvimento na parte executiva e burocrática e da participação no desempenho de execução de uma obra musical, Raul também acredita que é preciso ter jogo de cintura para lidar com os diferentes tipos de cliente e diz que isso é um grande diferencial no mercado. Ele acredita que a empatia é o melhor caminho para o sucesso. “Quando você lida com produção musical, não está lidando apenas com um tipo de serviço, mas também com o sonho de pessoas”, opina.

Ele começou sua vida trabalhando com uma de suas paixões, a informática, mas também sempre teve uma queda por música e tocava como hobby. Mas no momento em que teve que decidir qual carreira trilhar, optou por ser produtor musical para unir suas duas paixões.  “Nessa vida da música a gente sempre tem que se desdobrar, mas atualmente meu foco é a produção musical”, diz.

Apesar de acreditar no potencial do mercado independente musicista, ele acha que ainda falta algum apelo social nesse cenário para mobilizar o público a visitar casas de shows, além de passar uma mensagem consciente. “Essa é a função do mercado independente, se fosse só para ganhar dinheiro todos cairiam para o comum”, defende.

Raul já trabalhou com alguns artistas independentes, como Keven Madrid, 22 anos, vocalista da banda Plataforma 7, junto com Marlon Madrid, que prefere ser chamado de Samurai, por causa de seu antigo penteado de coque de samurai, e Kleberson Lucas, que atende pelo nome de Pi, por causa da semelhança com o protagonista do filme “As Aventuras de Pi”.

Keven se interessa pelo ramo musical desde os 14 anos, quando começou a tomar aulas de dança de rua. Além de cantar, ele também toca bateria, violão, guitarra e baixo. Diz que sua inspiração veio ao ver uma dupla de músicos argentinos tocando nos trens da SuperVia do Rio de Janeiro, enquanto fazia seu percurso para a empresa onde trabalhava antes de começar a banda.

Os integrantes da Plataforma 7 se consideram artistas de rua e começaram quase por acidente. Enquanto se dirigiam ao estúdio para gravar uma música, resolveram ensaiar e afinar os instrumentos dentro do trem. Após a improvisada apresentação, receberam aplausos de seu público e Samurai desafiou Keven a passar o chapéu para recolher as gorjetas. Foi aí que Keven teve o insight de que era possível ganhar a vida sendo músico de rua e foi atrás de seu sonho com sua banda. O sucesso no transporte público foi tão grande que as apresentações da banda nos trens do Rio de Janeiro já foram gravadas por diversos expectadores, que postaram os vídeos no YouTube, tendo um com mais de 30 mil visualizações.

Apesar do seu canal de vídeos – no qual é possível encontrar um vídeo ao vivo da música “Te agradar” e o lyric vídeo de “Amanhecer”, que em breve terá um clipe – ser sua principal fonte de divulgação, a trupe tem planos de usar as plataformas digitais de streaming, como Spotify e Deezer no futuro. Ao falar sobre composições, Keven diz que ele e sua banda ainda estão estudando o assunto e no momento suas músicas são compostas por terceiros.

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Keven, ao meio, junto a sua banda

O cantor acredita que participar de um projeto independente tem suas vantagens, já que por não ter um patrão, o processo de criação é mais livre e espontâneo, mas ressalta também que isso é um ponto negativo, pois os integrantes da banda têm que resolver tudo sozinhos e acabam ficando um pouco sobrecarregados.

Mas os musicistas independentes sabem dessa dificuldade e acabam se ajudando. Thaís Silva, de 24 anos, conhecida como Triggie na internet, também já trabalhou com Raul e ajudou na produção do lyric video da banda, sendo a primeira produção da sua pequena empresa, a Truz Music, que tem como principal objetivo ajudar artistas que ainda estão começando no processo criativo de produção.

Além de trabalhar em sua empresa, Triggie, que é estudante de Publicidade e Propaganda na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), gasta a maior parte do seu dia produzindo conteúdo para seu público na internet, já que ela tem um canal no YouTube, no qual publica covers de artistas que são inspirações duas vezes por semana, sempre usando sua voz e seu violão.

Ela acredita que a interação com o público por meio das redes sociais é fundamental para o crescimento de um artista no começo de sua carreira, já que o retorno financeiro não é muito grande. “Praticamente todos os músicos são forçados a exercer uma outra profissão em algum momento na vida para conseguir ter dinheiro para ser músico”, diz ela. Já é a segunda vez que a cantora usa essa plataforma para divulgar sua arte. A primeira vez foi quando tinha 15 anos, apenas por lazer.

Apesar de dizer que a inspiração vem de dentro, parte da iniciativa de divulgar seus vídeos com o intuito de se lançar no mercado musical foi impulsionada por sua cantora e youtuber favorita, Paula Landucci, vocalista da banda Hewie e dona do canal de vlogs “Diário de P. Landucci”, que é como é conhecida na internet. Triggie aproveitou o sucesso de seus vídeos para realizar um crowd funding e conseguiu dinheiro para financiar o primeiro álbum da banda. “Observar a carreira dela, a forma dela de pensar e até o estilo musical me inspirou a ser musicista”, diz.

Mas Triggie nem sempre trabalhou sozinha. Ela começou com a Sodalita, uma banda cover da banda americana Paramore em 2013. E também teve uma banda autoral, Mayana, em 2016, com a qual compôs o single “Trampo”, mas o projeto foi encerrado. Agora, a ex-integrante da banda está compondo músicas para sua carreira solo, mas ainda não tem nenhuma data para lançamentos de novos trabalhos.

Outra pessoa que começou em uma banda, mas agora segue sozinha é Ana Beatriz Martorelli, de 21 anos. Apesar de cantar na igreja desde pequena, foi com a banda que ela pôde pôr em prática tudo que aprendeu observando os clipes e apresentações de seus ídolos, como Avril Lavigne. Mas desde que foi dispensada do projeto, começou a estudar a possibilidade de seguir sozinha. “Estou me descobrindo de novo como uma artista e estou tendo oportunidade de entrar em contato direto com as músicas que eu escrevo e em como posso levar isso para frente”, diz Bia.

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Bia Martorelli

Apesar de estudar Design Gráfico na Universidade Veiga de Almeida (UVA), ela tem esperanças de sucesso no cenário independente a partir do uso os meios digitais para a divulgação e o crescimento profissional, que ela acredita ser melhor do que assinar contrato com uma grande gravadora. “Eu acho que desse jeito as coisas rolam com mais harmonia e de forma mais verdadeira, porque você tem mais liberdade para ser o artista que você é”, diz a estudante, que está começando a desenvolver melodias para suas composições, que são organizadas em formato de poesia.

Outra pessoa que vê potencialidade nas plataformas digitais para divulgação de conteúdo é o produtor musical na empresa Hitmaker, Pedro Henrique Breder, 25 anos. “Por causa da internet, o público não é mais obrigado a consumir o produto de rádio e TV. Eles podem buscar outros conteúdos nos programas de streaming”, diz o produtor, que já trabalhou com Anitta, nas faixas “Deixa ele Sofrer” e “Cravo e Canela”.

Breder já trabalhou na noite carioca, assim como Paola Vegas, também com 25 anos, que, além de DJ, é cantora e compositora de música sertaneja. Ela usou o YouTube em 2014 para a divulgação de seu DVD “MPBnejo”, que conta com mais de 130 mil visualizações. Além de seu DVD, Paola tem um álbum de MPB disponível para streaming no Spotify, que gravou em 2011 aos 19 anos.

A cantora relata que, apesar do número grande de visualizações, recebeu muitos nãos em sua carreira e foi isso que a motivou a ser uma musicista independente. “É um privilégio viver de música no Brasil, porque é um nicho muito fechado”, afirma ela. Paola sempre foi muito envolvida com o desenvolvimento de sua carreira e aprendeu bastante sobre produção musical.

Além do que foi adquirido com sua rotina de trabalho, a compositora também tem várias formações acadêmicas. Fez faculdade de Música e Tecnologia no Conservatório Brasileiro de Música e é formada como Assistente de Direção pela Academia Internacional de TV e em Produção Audiovisual na Estácio de Sá, formações que renderam a direção do clipe da faixa “Tempo em Movimento”, de Luiza Possi com Lulu Santos, e do clipe de “Florificar”, da própria cantora com o rapper brasileiro Luccas Carlos, que conta com mais de 40 mil visualizações.

Apesar do grande número de visualizações, Paola diz ter passado por dificuldades e preconceito no ramo sertanejo, por ser uma figura feminina atípica. De cabelos curtos, tatuada e homossexual, a cantora pensa que grandes empresas poderiam ajudar na inserção de figuras como ela no cenário sertanejo e transformar isso em uma possibilidade vendável. “Eu sofreria menos como pessoa e como artista. Seria muito melhor, sem dúvida”, afirma ela.

Outra prova viva de que as plataformas digitais ajudam muito na divulgação de materiais independentes é o estudante de Publicidade e Propaganda da UniCarioca, Lucas Truci, de 23 anos. Ele descobriu seu cantor favorito, Phill Veras, na reprodução automática do YouTube, enquanto escutava MPB em 2013. “A partir desse contato, pesquisei as redes sociais para saber das novidades e desde então escuto a música dele praticamente toda semana”, diz.

O sentimento de identificação com o cantor foi tão grande que Lucas decidiu se juntar à administração de uma página no Facebook, chamada “Phill Veras Frases”, na época, com mais curtidas que a própria página oficial do cantor. O desempenho foi tão grande que chamou a atenção do cantor, fazendo com que ele chamasse o estudante para participar ativamente da publicidade e da divulgação dos shows.

Hoje, a página de Phill está bastante movimentada, deixando a página dos fãs para trás nos números de curtidas, mas ele não esqueceu do esforço de Lucas e o trata com exclusividade, mandando ingressos para os shows no Rio de Janeiro, cidade onde o fã mora, além de CDs e DVDs autografados.

RECURSOS PARA MÚSICOS INDEPENDENTES

Abaixo estão listados alguns recursos que são úteis para os musicistas que trabalham por si.

  • Catarse:

Esse site tem a função de levantar renda por meio do crowdfunding, que nada mais é do que uma “vaquinha” virtual. Consiste na criação um projeto (gravação do DVD de uma banda, por exemplo) e oferece recompensas atrativas para que o seu público tenha um grande interesse em ajudar financeiramente a banda.

A meta tem que ser alcançada em até 60 dias. Caso seja alcançada, a banda fica com o dinheiro e o site leva uma pequena porcentagem. Caso não, os colaboradores recebem a grana investida de volta.

Site: https://www.catarse.me/

  • CD Baby:

Com esse serviço pago, um membro faz o cadastro da sua banda no site e envia o seu álbum completo ou somente singles e a CD Baby cuida de toda a parte de vendas. Os produtos serão disponibilizados em plataformas digitais como iTunes, Amazon MP3, Rhapsody, eMusic e Spotify.

Além do campo digital, também é possível a distribuição de produtos físicos como CDs e LPs e os artistas recebem 91% do valor das vendas. Jack Johnson utilizou dessa plataforma para começar a carreira e despertar o interesse dos fãs.

Site: https://pt.members.cdbaby.com

  • Bandcamp:

Uma plataforma alternativa para as bandas distribuírem e venderem suas músicas digitalmente. O site tem uma integração com o Facebook para que todos possam ouvir, baixar e comprar suas músicas facilmente por intermédio da rede social.

O upload de material é gratuito e o BandCamp cobra uma porcentagem sobre o valor de venda das músicas.

Site: https://bandcamp.com

  • me:

Nesse site é possível fazer uma transmissão ao vivo de um show, fazer uma apresentação ao vivo em um estúdio ou até mesmo em sua própria casa e ser monetizado em tempo real. A criação de brindes e promoções ajuda a arrecadar dinheiro com as suas apresentações, como foi o caso da banda ConeCrew Diretoria que lançou o seu álbum “Bonde da Madrugada Parte 1” ao vivo por meio do Netshow.me e distribuíram kits para os fãs que contribuíssem.


Reportagem de Diogo Tavares Ferreira para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso – 2017/2

 

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