Cultura

Dia do Disco de Vinil: LP’s vivem e resistem

Você sabia que 20 de abril foi o dia do disco de vinil e da cultura musical que existe por trás dele? Leia mais na reportagem especial da Agência UVA

Você sabia que 20 de abril foi o dia do disco de vinil e da cultura musical que existe por trás dele? Leia mais na reportagem especial da Agência UVA

O vinil surgiu em 1948, teve o seu ápice de sucesso durante as décadas de 70 e 80 mas até hoje existem pessoas que contemplam e admiram essa forma de se relacionar com a música por meio dos discos.

De acordo com o último levantamento feito pelo Universo do Vinil, site que se dedica a pesquisar e noticiar todos os assuntos que envolvam a temática dos vinis no Brasil e internacionalmente, há cerca de 115 fábricas presentes em 32 países do mundo. No continente africano, por exemplo, não existe nenhuma fabricante, enquanto que no Brasil temos duas fábricas: a Polysom e a  Vinil Brasil.

O Doutor em Comunicação e professor de Mídias Sonoras na Universidade Veiga de Almeida (UVA), Diego Brotas, acredita que há uma tendência para que o consumo do disco de vinil se mantenha no mercado musical.

“O vinil também está inserido na cadeia produtiva da industria fonográfica atual. A cultura do streaming tem sido responsável pela reconfiguração do acesso às obras musicais, entretanto o disco de vinil, muitas vezes, representa uma estética e um formato complementar, baseado em experiências de escuta específicas”, explica ele.

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A produção nacional de vinis duplicou com a inauguração da fábrica paulista Vinil Brasil em 2018 Foto: Pixabay

Diego ressalta que muitos artistas atualmente se utilizam dos lançamentos em vinil como um complemento conceitual dentro da estratégia de promoção.

“Um exemplo interessante é o formato ultra LP do disco Lazaretto, de Jack White. Ele possui como diferencial músicas escondidas na parte central do vinil, lugar geralmente reservado às informações descritivas de faixas, nomes de músicas, ano de lançamento, ilustrações, etc. Além disso há a inversão da ordem de reprodução. Tradicionalmente o disco começa a tocar da parte exterior e à medida que vai tocando vai avançando em direção ao centro”, exemplifica.

O professor de Mídias Sonoras afirma que essas e outras características fornecem uma nova camada de experiência no consumo da produção musical. Entre os diferenciais do vinil na era digital estão dois modos de experiências particulares, o da escuta e o do álbum.

“A experiência de escuta pode ser resumida, de forma simplista, à percepção de frequências sonoras específicas do formato, graves, médias e agudas. Muitos dizem que é uma diferença quase que imperceptível, outros afirmam haver uma diferença substancial. Ainda dentro deste modo, o ruído gerado a partir do atrito da agulha com o sulco do vinil adiciona um elemento específico dentro na experiência de escuta. Já a experiência do álbum, neste caso, está ligada ao contato com o encarte, formatado em um tamanho distinto. Muitos discos de vinil possuem fotografias, textos, informações sobre as faixas, letras de músicas, etc. “, completa Diego.

Esse mercado de nicho se tornou um espaço para que os admiradores musicais pudessem abrir lojas para vender discos de vinil.  Uma delas é a Locomotiva Discos, localizada no centro de São Paulo. A loja foi inaugurada em janeiro de 2011, quando ainda não tinha o streaming  no Brasil, no seguinte contexto: o MP3 já não apresentava uma lucratividade para a indústria fonográfica e para as grandes corporações. Como conta Gilberto Custódio, da Locomotiva Discos:

“Temos novamente pequenas lojas de discos e gravadoras independentes dominando o mercado, que é de nicho, bastante especializado, gerenciado por pessoas que realmente entendem e gostam de música”, explica Gilberto

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À esquerda na foto, Gilberto posa em frente a loja que está há oito anos na capital paulista  Foto: Reprodução/ Facebook

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Gilberto começou a ouvir música em vinil nos anos 80. Também escutava em fita cassete que gravava da rádio e dos seus amigos, mas seu principal interesse pelos LP’s era devido preço, pois os sebos vendiam muito barato na década de 90 com bastante oferta de discos. Ele recorda que um dos pontos altos da sua vida foi durante o intervalo do curso de inglês que fazia aos sábados, quando encontrou em um sebo LP’s de artistas que gostava. “Encontrei vários LP’s do Kraftwerk e do New Order novos, sendo vendidos pelo preço de uma coxinha. Passei vários sábados sem comer nada para poder comprar esses discos, que tenho comigo até hoje”, relembra.

Além disso, ele percebe alguns aspectos do vinil que fomentam o interesse das novas gerações em comprar os famosos “bolachões” ainda que estejam inseridos num contexto social altamente digitalizado com o streaming. Como, por exemplo, o aspecto tátil de poder segurar algo e o sentimento de posse de poder guardar e admirar.

“No passado quem não tinha condições de comprar discos se contentava com a rádio. Hoje em dia esse tipo de pessoa fica no streaming. Mas a partir do momento que ela tem contato com os discos, surge uma faísca que um fã de música compreenderá como sendo algo extremamente prazeroso”, afirma Gilberto, da Locomotiva Discos.

Jhon Araújo, de 21 anos, é colecionador de vinis, CD’s e fitas cassete. De forma espontânea, o seu primeiro contato com os discos foi na casa da avó. Ele achava legal e ainda mais divertido quando brincava com eles ao jogar para o alto. No entanto, apenas em 2014 passou a olhar para os LP’s com outros olhos. “O interesse surgiu quando me vi perdidamente apaixonado por um álbum, em 2014, e decidi ter todas as versões do álbum, inclusive em vinil. Foi uma questão de tempo para me apaixonar e querer colecionar de todos os outros discos que amo”, conta.

Apreciador de música pop e alternativa, a sua coleção atual possui 70 discos de nomes como Lana Del Rey, Lorde, Imagine Dragons, The XX. As compras são realizadas 80% online em sites internacionais e os outros 20% foram em viagens que ele comprou pessoalmente, porém ele considera melhor comprar online pelo preço.

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O álbum Blue Neighbourhood do cantor australiano Troye Sivan faz parte da coleção de Jhon n Araújo. Foto: Acervo pessoal

Para o jovem colecionador, o consumo de vinil atualmente possui um peso estético. Não existe um interesse na música e na qualidade sonora somente. “Despertar a vontade das novas gerações só é possível fazendo belas edições de discos atuais. Não adianta lançar um vinil preto somente com a capa simples. Atualmente muito artistas lançam Picture Disc, que é a capa do disco no próprio vinil, além de discos com texturas e artes diferentes para atrair ainda mais o público a consumir”, explica Jhon. Inclusive, o fato de o último vinil que comprou brilhar no escuro, foi um grande motivo para ele levá-lo para casa.

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Jhon considera que a nostalgia e a estética são dois aspectos que influenciam na compra dos discos pelas novas gerações Foto: Acervo pessoal

O fotógrafo Robson Leandro não é um colecionador, porém gosta muito de música e sempre teve contato com ela durante a vida, tendo gosto por ler sobre as histórias que estão por trás dos discos. Ele teve a iniciativa de produzir uma série fotográfica com colecionadores de vinis após ler uma reportagem sobre o assunto.

“Em 2014 eu estava pensando em fazer uma série fotográfica e não conseguia pensar em nenhum tema. Então li uma reportagem sobre a ‘volta do vinil’ e pensei que poderia ser interessante fotografar colecionadoras e colecionadores junto de suas coleções. Então comecei a procurar algumas pessoas e iniciei a série”, conta Robson.

Em 2015, ele cobriu a “Record Store Day” e considerou uma experiência incrível ver tantos colecionadores juntos. Apesar da proposta fugir um pouco da estética da série, foi válida a ida. “Principalmente porque tive contato com o Kid Vinil, um ídolo, que naquele dia aceitou participar da minha série. Infelizmente ele morreu pouco tempo depois e não pude realizar o sonho de fotografar aquele que talvez fosse o principal personagem da série”, contou o fotógrafo, referindo-se ao músico, ícone dos anos 80.

Durante as sessões fotográficas, ele percebeu a relação tão especial que os colecionadores têm com os seus discos. “Não acredito que são ‘saudosistas’. São pessoas que tem uma relação diferente com a música.  Algumas pessoas que fotografei também ouvem música no formato digital. Porém elas preservam o ritual de se relacionar com o disco físico”, afirma.

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Ana Carolina Aguiar – 6º período

 

 

 

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