Cultura negra, da periferia para todos os lugares

Entre o sucesso e a lama, a cultura que antes era chamada pela classe dominante de “cultura do gueto” agora é referência de arte, estilo, boa musica e têm representantes que podem ser considerados estrelas pop. É inegável: hoje a cultura negra é parte integrante e enraizada à sociedade como um todo, não somente entre negros, não somente entre pobres. Artistas consagrados, grandes atletas e rappers milionários são hoje ídolos globais, mas nem sempre foi assim.

Não é um exercício mental muito difícil lembrar de uma época em que era chamada de estranha a pessoa que usava roupas com estampa característica da África, calçava tênis desenhados para jogadores de basquete ou exibia orgulhosamente seu penteado Black Power. Mas os tempos mudaram. É cada vez mais comum andar nas ruas e ver o que foi citado acima ser usado por inúmeras pessoas. O mesmo ocorre com a chamada “música negra”.

Ao assistir uma entrevista de qualquer cantor pop atual e ouvir dele a resposta para a clássica pergunta “quais são suas referências musicais?”, é quase certo que ele dará crédito aos grandes artistas do século passado: Michael Jackson, James Brown, Stevie Wonder, ou até mesmo Usher e Beyoncé, mais recentemente. Hoje, segundo a revista musical Billboard, o hip-hop é o gênero musical mais tocado no mundo, e a influência exercida por esse estilo não fica restrita à música: é transmitida para a personalidade dos que a admiram, de pessoas comuns a atletas de nível mundial.

O arquiteto João Paulo Miranda, 29, profundo admirador da cultura hip-hop, explica a ligação entre os dois itens na cultura: “O primeiro ponto que é necessário ressaltar é a troca constante entre esses dois elementos culturais, esporte e música, dominados por ídolos negros – jogadores de basquete, seleção brasileira, Usain Bolt…- e a música negra      – Rap, samba, funk carioca, RnB, jazz – entre roupas usadas por eles e sua influência no modo de vestir e se comportar na nossa sociedade”.

As letras do rap hoje são muito mais representativas da realidade brasileira, isso levando em consideração que, no inicio do movimento hip-hop no Brasil, ele era basicamente uma adaptação da música popular nos Estados Unidos. “É necessário saber que são tempos diferentes, com uma economia diferente da que temos hoje e com focos mais únicos. O rap no Brasil tinha forte influência do norte-americano, que também lidava com as mesmas questões, com fortes referências à política e à estratificação social”.

Outro elemento de ligação entre música, esporte e cultura negra é a possibilidade da utilização visível de atletas e músicos como representantes de causa e até mesmo manifestantes. “O segundo momento se refere a pontos importantes para a visibilidade da causa negra. Muhammad Ali e seu envolvimento em causas sociais, medalhistas nas Olimpíadas de 1968 com o punho fechado, enluvado e erguido durante a execução do hino norte-americano, símbolo do Black Power, o que também foi feito pelos jogadores de futebol brasileiros Sócrates e Reinaldo. São imagens síntese de como o esporte pode andar ao lado do movimento negro”, avalia João Paulo.

Por muitos anos, talvez décadas, os símbolos da cultura negra foram reprimidos e considerados “feios” pela sociedade em geral e o padrão de beleza existente durante muito tempo. O cabelo natural, um dos maiores símbolos da representação negra, hoje é visivelmente mais comum, e seu significado não é apenas visual.

“Cabelo faz parte da identidade de um povo. Assumir o cabelo crespo é um ato de resistência, é reafirmar o que sempre negamos em nós”. É o que diz Daniele Almeida, 37, uma das idealizadoras do Coletivo Pixaim, em Natal-RN, projeto que procura difundir e compartilhar a identidade negra. “Não está relacionado apenas à vaidade. O cabelo revela o estado de espírito, as qualidades físicas e até morais de uma pessoa. Assumir o cabelo crespo é ir contra padrões de beleza impostos, é sinônimo de empoderamento e mostra a cultura de um povo”.

Mesmo com todo o movimento de aceitação, ainda existe o racismo quanto tipo de cabelo crespo. “É tachado de duro, ruim, então andar num ônibus aqui em Natal ainda é um ato de resistência. Desde cedo as meninas negras têm a autoestima abalada, porque temos que ‘corrigir este defeito’. Mas como? Tenho visto muitas empresas dispensarem negras com o cabelo crespo por não se encaixarem no padrão”. Daniele fala também do livro “O mito da Beleza”, de Naomi Wolf, sobre o padrão de beleza para as mulheres, o que acaba impedindo seu avanço político. “Mais uma evidência que temos é a falta de negras e crespas na mídia”. E conclui citando a poetisa e atriz Elisa Lucinda: “Seu cabelo é bom e o meu é ruim, seu cabelo é bom por causa de quê? No sábado ele fez alguma caridade?”

Ainda não é possível falar que a sociedade aceita aberta e verdadeiramente a cultura negra, e isso gera um impacto psicológico sobre as pessoas “O racismo tem um efeito na autoestima da pessoa negra, que é muitas vezes irreversível. Se a pessoa não percebe a tempo, ela não consegue se fortalecer, para poder enfrentar o dia a dia. Geralmente a pessoa se acha feia e incapaz. Indiretamente a sociedade diz isso, por meio de símbolos, programas, ausências em determinados espaços. Nem sempre é uma coisa falada clara e abertamente, como chamar de ‘macaco’, ‘neguinho’. Muitas vezes são formas sutis, mas que devastam a autoestima da pessoa negra, que cresce se achando uma pessoa inferior e com uma sensação de não pertencimento e exclusão, o que tem um efeito de cancelar sonhos, criar estereótipos e minar a autoestima”. É o que diz Bruna de Paula, 26, autora do blog Afrotag.

“O governo criou algumas políticas públicas voltadas para a população afro-brasileira, mas que estão sendo exterminadas pela onda conservadora que estamos vivendo. O racismo é o mesmo, mas as pessoas negras têm se agrupado e vêm se reconhecendo para resistir e lutar contra ele. Esse movimento não é de hoje, mas temos maior facilidade de ver, por conta das mídias, que nos colocam mais próximos de alguns debates, e agora temos mais canais para falar sobre isso, mais espaço para colocar nossas pautas. Mas o racismo não mudou, apenas uma mudança na forma de resistência”, fala Bruna.

O jogador da NFL (Liga de futebol americano) Colin Kaepernick fez pela primeira vez em 2016 um gesto que certamente entrará para a história: ele se ajoelhou durante a execução do hino nacional norte-americano, em protesto à violência policial, especialmente contra negros. Logo, muitos outros atletas o acompanhariam, o que gerou a fúria do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sugeriu a demissão dos atletas que se manifestassem.

“Entre tantos jogadores de vários esportes e artistas conhecidos mundialmente, o cantor Pharrell Williams fez uma pausa entre as canções enquanto se apresentava em Charlottesville, Virginia, cidade onde houve a maior manifestação de supremacistas brancos do passado recente dos Estados Unidos. O cantor se ajoelhou depois de um breve discurso. Isso mostra a influência que os artistas e atletas têm na sociedade”, diz a advogada Julianna Nascimento, 29. “Acredito que não há nada mais patriota que os cidadãos terem o direito de se expressar pacificamente em liberdade sobre os assuntos importantes”.

Além dos jogadores de futebol americano, o astro do basquete Stephen Curry declarou ser contra uma visita à Casa Branca – tradicionalmente os campeões da NBA, NFL e NHL, basquete, futebol americano e hóquei, respectivamente, fazem uma visita ao presidente – em protesto contra as políticas publicas de Trump, principalmente a violência policial contra negros.


Reportagem de Daniel Fernandes para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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