Andrea Viviane Taubman, a escritora com alma de menina

Do poeta Pablo Neruda a jovens autores como Carolina Munhóz, os inúmeros livros na estante da escritora Andrea Viviana Taubman chamam atenção diante dos olhos de quem chega em seu apartamento na Tijuca. Não há nada mais carioca que morar no maior bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, nada mais brasileiro que ter miniaturas de berimbaus e galinhas-d’angola expostos na sala, mas no meio das características do país verde e amarelo, também há itens que remetem à origem argentina da escritora. Nascida em Buenos Aires, aos 7 anos, Andrea veio para o Brasil com os pais e a irmã, deixando o resto da família. Fez do país não apenas o lugar em que mora, mas seu lar. E a escritora acaba de lançar três livros.

Foi a saudade que fez Andrea começar a escrever. Trocar cartas com a avó Emília fez a menina se apaixonar pelas palavras. Não era a primeira vez que os adultos a inspiravam. Neta mais velha dos dois lados da família, ela queria entender as conversas e por isso se alfabetizou precocemente. “Todo mundo começava a ler jornal muito cedo na minha casa. Era um hábito muito comum nas famílias argentinas”, lembra. Toda emoção que sentia quando criança ainda está presente na memória de Andrea. Seu recente livro “Don Quijote de la Mancha”, adaptação da obra de Miguel de Cervantes, é dedicado a dois tios, os quais considerava adultos fascinantes. “Ao escrever o livro, eu me via pequenininha e as palavras deles pareciam brilhar”.

fsdfvg

A escritora Andrea Viviane Taubman [foto: Júlia Dias]

Apesar de ter o sangue da premiada escritora argentina Alicia Steimberg, escrever livros não foi a primeira escolha de Andrea. A neta da avó Emília era movida pela curiosidade, queria saber do que tudo era feito. Aos 16 anos foi cursar Química e, já formada, se aventurou em áreas tidas como masculinas: a pintura industrial e o setor rodoviário. A experiência que chama de “minha outra vida nesta vida” foi o que fez emergir o lado prático da autora, que a levou a assumir a tesouraria da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. “Metade da minha cabeça é de vento, mas a outra é de cimento”.

O lado “cabeça de vento” de Andrea é essencial para suas obras. Afinal, dialogar com as crianças, entender o mundo infantil e expor temas que não costumam ser apresentados não são tarefas simples. Após algum tempo escrevendo sem intenção de ser publicada, ela chegou ao mercado literário em 2010 com a história de Pedro, protagonista de “O Menino Que Tinha Medo de Errar”, um garoto solitário que vivia afastado das outras crianças. De lá para cá, a escritora tem enchido as páginas dos livros com seus versos. “Escrevo sobre temas que a criança precisa saber, mas os adultos não sabem falar porque também não souberam nos explicar. Quero que meus livros ajudem a construir um caminho para esse diálogo”.

gbvfes

[Foto: Júlia Dias]

Enquanto realiza seu desejo, Andrea se emociona ao lembrar de diversos episódios com seus pequenos leitores. Um deles aconteceu numa escola de educação infantil quando a autora lia um de seus livros. Dentre todas as crianças, um menino a encarava, sério. Quando a contação acabou, ele se aproximou e, olhando nos olhos da escritora, declarou com toda sua sabedoria: “Você é grande, mas você é criança!”. Andrea garante que foi um dos momentos mais incríveis de sua vida. “Algumas vezes eu consegui encostar o dedinho no paraíso. Essa foi uma delas”.

Outro momento marcante na vida da autora foi seu livro “A Escola Que Eu Quero Pra Mim”. Recém lançado e já encomendado pela prefeitura de Teresópolis, o livro acabou tendo a missão de ajudar os estudantes das escolas destruídas no maior desastre climático da história do país, a tragédia ocorrida na região serrana em janeiro de 2011. Andrea, que morava no município serrano, diz que lembra bem “o barulho durante e o silêncio depois”, e afirma que se sentiu abençoada por seu livro ter sido usado como motivador para a reconstrução das escolas. “A premissa era: vamos começar de novo, mas qual é a escola que nós queremos? Muito da minha literatura é isso. Sempre podemos reconstruir algo que foi destruído, mesmo que seja algo dentro de nós”.

rwfgbfr

[foto: Júlia Dias]

Ajudar uma criança é a principal missão da literatura de Andrea, o que torna a responsabilidade de escrever quase sempre maior. O anseio por escrever o livro “A Família de Marília” veio de uma mesa com escritores como Dulce Maria Cardoso e Zuenir Ventura, mas, apesar de saber o que queria pôr no papel, ela não sabia como encaixar sua visão em palavras que as crianças compreendessem. Foram três anos para chegar a um veredito: escreveria o livro como Marília, uma criança que tinha que fazer uma redação sobre sua família. “Em um dia depois de muito chorar, resolvi me colocar no papel dessa criança que tenta escrever e não sabe como”.

Marília foi só uma das muitas meninas e meninos que Andrea imaginou. Só no fim de 2017, a escritora lançou três livros: “Tem cabimento?”, “Don Quijote de la Mancha” e o delicado “Não me toca, seu boboca!”, que tem a missão de alertar pais e crianças sobre a violência sexual. Mesmo abordando temas complicados, ela não perde o sorriso ao falar das crianças nem por um minuto. Aliás, até perde, quando é para dar lugar a lágrimas emocionadas. A escritora diz que o maior amor de sua vida são seus filhos, mas, verdade, é que ela trata todas as crianças com quem cruza como suas, com todo amor que se espera de uma mãe. “Quero que meu coração fale com o do meu leitor, que minha alma fale com a dele”, explica sorrindo.


Reportagem de Julia Camacho Dias para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s