Crítica: O Processo

Impeachment ou golpe? No dia 31 de agosto de 2016, o Senado Federal Brasileiro, em sessão presidida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, votou pela destituição da presidente da República Dilma Rousseff, eleita em 2014 com 54 milhões de votos. O documentário “O processo”, dirigido por Maria Augusta Ramos, faz uma abordagem observativa dos fatos, em ordem cronológica, a partir da autorização para abertura de processo de impeachment pela Câmara dos Deputados, no dia 2 de dezembro de 2015.

Neste formato, a história parece não ser contada, literalmente. É reproduzida a partir de imagens espontâneas dos próprios “atores” sociais, sem comentários, narração ou trilha sonora. Foram utilizadas mais de 400 horas de gravação, efetuadas nas duas casas legislativas e nos bastidores, com autorização dos protagonistas do impeachment: a ex-presidente Dilma, o ministro do STF Ricardo Lewandowski, senadores, deputados, os advogados envolvidos no processo, dentre outros. Este tipo de abordagem já é característico do trabalho de Maria Augusta, que se destacou com a premiada trilogia “Justiça” (2004), “Juízo” (2013) e “Morro dos Prazeres” (2013), documentários que retratam a aplicação da justiça no Brasil.

Em “O Processo’, ela tenta trazer à análise do público um momento muito relevante da história recente do Brasil, cuja compreensão foi detonada pela paixão e pela perplexidade que dividiram o povo brasileiro: metade da população acreditava que o impeachment era necessário e inevitável, enquanto a outra metade, perplexa, tentava resistir ao que considerava ilegítimo e surreal, fruto do embate político e de campanhas midiáticas da oposição. Em entrevista à rede de notícias alemã Deutsche Welle (DW), reproduzida pela revista “Carta Capital”, Maria Augusta esclarece: “Eu faço filmes para compreender melhor uma situação e me interessa ver e refletir sobre a sociedade através do sistema judiciário, principalmente o teatro da justiça”.

Eu faço filmes para compreender melhor uma situação e me interessa ver e refletir sobre a sociedade através do sistema judiciário, principalmente o teatro da justiça”

Como não podia deixar de ser, por se tratar de um tema tão delicado da vida política brasileira recente, o clima é tenso, carregado de dramaticidade e sentimentos. A falta de explicações é proposital para deixar o espectador livre para tirar as próprias conclusões. Apesar disso, a narrativa não é despreocupada ou pobre de significado. Se utiliza da arquitetura e do silêncio para marcar o ambiente histórico e jurídico.  Alternando momentos de discussão dos “atores” com os das manifestações nas ruas, com cortes bruscos, estáticos e silenciosos sobre imagens dos monumentos arquitetônicos e o amanhecer de Brasília — como se desse pausas para se absorver os acontecimentos —, marca o espaço histórico, o lugar onde tudo acontece. Com o silêncio nesses momentos, realça a atmosfera tensa dos tribunais, pesada e angustiante, na qual o rito segue uma marcha, neste caso inexorável, até o desfecho final.

O filme é uma boa oportunidade para que, a partir de uma perspectiva histórica, se faça uma nova leitura da situação e das motivações que levaram ao “processo”. Teve a estreia internacional no Festival de cinema de Berlim, no mês de fevereiro, onde ficou em terceiro lugar na escolha do público na sessão Panorama. No Brasil, foi exibido no festival de documentários “É Tudo Verdade”, em São Paulo e Rio de Janeiro, em meados de abril. Ambas as mostras atraíram grande público e controvérsias. O fato, levantado por alguns críticos, do trabalho da cineasta ter tido mais espaço por parte da defesa que da acusação não representa parcialidade. É até justificável se avaliarmos que, na posição confortável de maioria, à oposição não interessava se expor ao debate, bastava sustentar o argumento acusatório que a vitória estava garantida.


Francisco V. Santos – 7º Período

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