Maio de 68: Poesia Marginal ironiza o governo e sofre com o AI-5

A Ditadura Militar é uma lembrança histórica que poucos brasileiros preferem lembrar. De 1964 a 1985, o país sofreu repressão social, política e cultural, deixando marcas até os dias atuais. Mas foi o ano de 1968 que marcou a história do país, quando o então presidente no poder, general Costa e Silva, fechou o cerco para a liberdade de expressão e crescimento artístico. Com o endurecimento do regime, movimentos nasceram em todo país, e no campo das artes a Poesia Marginal veio de encontro ao conservadorismo imposto socialmente, servindo de combustível para os protestos da época.

Também conhecido como Geração Mimeógrafo ou Marginalia, o Poesia Marginal era composto por grupos de poetas, principalmente das grandes capitais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, que faziam críticas ao conservadorismo da época. A ideia foi se espalhando pelo país, conforme o enrijecimento dos Atos, e ganharam esse nome por utilizarem o mimeógrafo como forma de copiar as obras, por não ter vínculo com editores e estar nas margens da sociedade.

As poesias eram carregadas de sarcasmo, ironia e distanciamento da sociedade tida como tradicional, e ainda utilizavam imagens sugestivas para ilustrar os poemas expostos. O historiador Kauê Garcia acrescenta que os moldes literários impostos pela Academia Brasileira de Letras só fizeram com que o movimento se tornasse ainda mais intenso e crítico. “Mesmo não sendo um movimento literário, a exclusão de artistas considerados fora do padrão artístico impulsionou o Marginalia”. Na época, os poetas não ganharam tanto destaque quanto os percursores de outros movimentos, como a Tropicália com Caetano Veloso.

Entretanto, nomes como Paulo Leminski, José Agripino de Paula, Waly Salomão, Francisco Alvim, Hélio Oiticica e Torquato Neto conseguiram dar voz as críticas à Ditadura Militar em maio de 1968 por meio de texto emblemáticos. Oiticica escreveu “Seja marginal, seja herói”, cartaz que definiria o movimento e daria destaque às obras produzidas e distribuídas a baixos custos nas ruas e em bares.

cartaz

Cartaz criado por Hélio Oiticica para definir o movimento da Marginalia (Reprodução)

De todas as críticas escritas, poucas ganharam destaque e o movimento marginal foi perdendo influência cultural. A resistência ficou por parte de apresentações com público limitado em bares clandestinos ou até mesmo em encontros escondido nas casas de poetas. A dona de casa Maria Paula Lima, de 79 anos, presenciou uma dessas apresentações, mas confessa que, por medo, parou de falar com esses amigos. “Alguns amigos arriscavam a escrever poesias e críticas, mas com medo de acontecer algo, preferi cortar contato com eles”.

E o receio de que algo pudesse acontecer não foi somente dela. Maria Paula confessa que apesar de apoiar os protestos, a decisão de se afastar desses grupos veio também do marido, filho de militar, e de amigos próximos. “A verdade é que eu queria participar do movimento, assim como outras pessoas também queriam, sempre amei a essência da poesia, mas não tinha coragem de seguir em frente e enfrentar as consequências. Mal sabia que o regime ia piorar ainda mais”. E piorou.

“Já havia muito rigor nas ações do Governo até 68, mas os burburinhos das manifestações levaram ao AI-5, a pior fase dos 21 anos de ditadura”
(Kauê Garcia, historiador)

As críticas e produções marginais, assim como outros movimentos artísticos, não foram vistos com bons olhos pelo governo. A consequência foi o então Ato Institucional 5, que colocou fim na liberdade de produção. Costa e Silva endureceu as leis a fim de frear as manifestações, sendo considerado o presidente mais rígido do período. “Já havia muito rigor nas ações do Governo até 68, mas os burburinhos das manifestações levaram ao AI-5, a pior fase dos 21 anos de ditadura”, afirma o historiador Garcia. Assim, a partir do decreto qualquer pessoa que criticasse a Ditadura Militar seria vista como rebelde, o que poderia levar a torturas e também a morte.

As consequências do Ato são sentidas até hoje. Segundo Garcia, a poesia poderia ter ganhado destaque, mas as medidas da época foram tão intensas, que nem sempre escrever os pensamentos com outras palavras ajudava; o que ainda prejudica o entendimento e estudos do papel do movimento na época. “Não se encontram muitas referências e registros da Marginalia, possivelmente pela dificuldade de divulgar as críticas, mas sabemos que os textos conhecidos reforçaram a luta por liberdade e pelo fim do regime”.

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Censura social e a poesia hoje

Cinquenta anos após o movimento ganhar voz e passar por repressão, a poesia ainda é tratada como uma arte marginal, principalmente se comparada com o teatro e a música. São poucos os que se aventuram pela rima das palavras, e aqueles que o fazem vivem da paixão. É o caso do sapateiro de 76 anos, Balbino Neto, cearense, morador da Tijuca, que ama poesia, mas que admite não viver dela. “Faço cordel e poesia desde pequeno, mas o retorno é pequeno. Segui o ofício de sapateiro para viver, mas se houvesse mais espaço para os poetas, teria seguido esse sonho”.

Ele estimula a arte com apresentações em praças públicas, vídeos produzidos para o Youtube e doação de livros em sua sapataria (Rua Professor Gabizo, nº 55, fundos, Tijuca), buscando a maior apreciação do público pelas palavras. “Gostaria que as pessoas vissem na poesia a beleza que eu vejo”. Infelizmente o interesse do público ainda é pouco, desconsiderando o trabalho de poetas como o de Balbino.


Poesia ao Rio – Projeto Espalhando Livros pela Cidade, de Balbino Neto

Vista como uma arte com menos relevância histórica, a poesia sofreu repressão em 68 por ser crítica ao governo, e, nos dias atuais, é posta de lado por ser vista como um movimento intelectual e inacessível à população. Mas ao contrário do sendo comum, Balbino acredita que a poesia é de todos e para todos. “Poesia não precisa ser difícil, não escolhe classe ou cor. Ela serve para expressar sentimentos, juntar pessoas e mexer com os sentimentos. Simples assim”.

O professor de história Kauê Garcia admite que existe uma visão distorcida da poesia, a acrescenta que no Brasil a história dessa arte é curta. “Os registros mostram que não houve produção poética de relevância no país, o que é uma pena, já que essa arte é forte em países europeus, por exemplo, uma das raízes culturais da nossa população”.

Silvia Priscila Juppa para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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