Bette Lucchese: ‘Não fiquem chateados com o primeiro não’

Um sonho que virou realidade

“Não fiquem chateados com o primeiro não. O não a gente sempre vai ouvir, mas temos que ser persistentes”. Esse é um conselho de Bette Lucchese a todos que estão começando no jornalismo. Desde que decidiu que queria ser jornalista, aos 14 anos, ela enfrentou muitos “nãos” em sua vida, mas hoje com 47 anos, superou todos eles com muita garra e realizou seu grande sonho: ser jornalista da Rede Globo. Seus pais, imigrantes italianos que vieram para o Brasil em busca de uma vida melhor, ensinaram Bette a ser essa pessoa trabalhadora e guerreira que ela é hoje.

 

Bette Lucchese em ação. Foto: Acervo pessoal

Bette Lucchese em ação. Foto: Acervo pessoal

Em 1989, ela começou sua trajetória estagiando no Jornal dos Sports quando estava no terceiro período de faculdade. Depois, já formada pela Faculdade da Cidade, em 1991, começou seu estágio na Rádio Globo, na qual foi contratada meses depois. Foi assim que as reportagens policiais entraram em sua vida. Em 1993, ela presenciou uma das cenas que jamais irá esquecer, “A chacina de Vigário Geral”. Só que não era isso que Bette almejava. Para conseguir trabalhar na televisão, ela folheava jornais todos os dias à procura de uma chance, até que apareceu nos classificados um anúncio de que a TV Serra Mar (afiliada da Globo na Região Serrana do estado do Rio) precisava de um repórter. Logo ela entrou em contato com eles e fez o teste, virando repórter de vídeo. Assim ela dava mais um passo em direção ao seu sonho.

As reportagens policiais estavam em seu caminho mais uma vez. Agora era o caso dos irmãos necrófilos, que viviam na mata, assassinando e estuprando pessoas. O desfecho dessa história se deu com a morte deles. Mesmo trabalhando na TV Serra Mar, ela sempre estava atenta às oportunidades que brotavam na Editoria Rio. Assim, toda vez que tinha chance, cobria férias e fins de semana. Com isso, foi fazendo contatos importantes lá dentro, até que chegou o dia 9 de Junho de 2000, quando finalmente foi contratada pela Globo, um dia que Bette jamais irá esquecer.

Passou uma temporada atuando em reportagens na madrugada, até que foi transferida para a manhã, na qual fez uma série que a marcou muito, baseada no trabalho sobre fome que Marcelo Canellas fez e foi premiadíssimo. César Seabra, diretor de jornalismo na época, propôs que fizessem um mapa sobre fome no Rio de Janeiro. Foram cenas tristes de crianças que lutavam para conseguir qualquer alimento que pudesse enganar a fome e ir sobrevivendo com o pouco que tinham. Outro trabalho que ficou na memória aconteceu em 2007, quando fez a cobertura que durou três meses com reportagens diárias no Complexo do Alemão e na Penha. “Nunca vi tanta gente ferida, tanta gente morta como eu vi naquela fase. Bastava um plantão de poucas horas na porta do Hospital Getúlio Vargas, ali na Penha, para a gente ver bandido chegando morto, inocente chegando ferido. São imagens difíceis de esquecer”.

Eis que chegou o ano de 2010, quando Bette fez a primeira matéria ao vivo com sua equipe, o repórter cinematográfico Luiz Júnior e o auxiliar técnico Mário Lago Neto, no alto da Vila Cruzeiro, quando as forças policiais implantavam a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). “Quando chegamos lá em cima do morro, estávamos exaustos e com o equipamento trivial, porque sabíamos que seria preciso subir e superar muitos obstáculos. Mas o Lago teve um estalo e falou que dentro do carro tinha equipamento para entrar ao vivo e voltou para pegar o material”. A cobertura da ocupação rendeu o Emmy ao Jornal Nacional, envolvendo 200 profissionais da Globo. “Essa cobertura foi muito emblemática para mim. E quando eu soube do prêmio, foi muito emocionante mesmo. Vêm na lembrança flashes de tudo aquilo que eu fiz e do que as outras equipes fizeram também. Foi maravilhoso!”.

Depois de um ano de muito trabalho e conquistas, quando finalmente chegou o réveillon de 2010, em que podia tirar umas folgas para relaxar, Bette foi chamada às pressas para cobrir as chuvas que tinham provocado um deslizamento de terra na Região de Angra dos Reis. Porém, a matéria mais triste para a Bette foi a maior catástrofe natural da história do Brasil, na qual as chuvas destruíram a Região Serrana do Rio de Janeiro. Foram mais de 900 mortes e cerca 165 desaparecidos. Por ter passado sete anos lá, no começo de sua carreira, ver essa tragédia no lugar em que ela trabalhou foi doloroso. “O que eu vi ali não vou esquecer. A gente começou a sobrevoar e no início só víamos deslizamentos nos morros. Até que conseguimos achar o ponto nervoso de tudo, onde houve aquela tromba d’água que arrasou o bairro de Campo Grande. E olhando aquilo tudo de cima, você ficava meio perdido. Era uma coisa meio de cinema, que só tinha visto em filme”.

No meio de tantas coberturas trágicas em sua carreira, o Caso Amarildo rendeu a Bette o prêmio Vladimir Herzog e o prêmio Tim Lopes de Jornalismo, na categoria televisão, em 2014. Esse prêmio teve uma emoção especial devido a sua amizade com o jornalista Tim Lopes. “Ele nos ensinou a olhar com sensibilidade o trabalho de repórter. Isso faz toda a diferença”. Tim era muito querido pelos colegas de profissão e era considerado um dos jornalistas investigativos mais corajosos e audaciosos em atividade. “Era um colega muito ético, tranquilo, amigo de todos. Recebia a todos com um sorriso incrível, que jamais esquecerei”.

Mudando um pouco o cenário triste das matérias de Bette, já em 2002, ela rodava no Sambódromo mostrando os desfiles das escolas de samba e nos carnavais de rua do Rio de Janeiro, levando para o telespectador um momento de alegria. “Aqueles quatro dias ali, a gente parece que é tomado pela euforia. Eu acabo curtindo muito, me emocionando com a bateria, com os integrantes. Aqueles quatro dias são compensadores, são dias de muita alegria”.

Mas não foi só nas histórias das escolas de samba que Bette viajou. Essa repórter determinada já percorreu vários lugares. Pelo Fantástico pôde conhecer Jordânia, Paraguai, Colômbia. Pelo Globo Repórter, percorreu a Bolívia, o trecho mineiro do Rio São Francisco e outras diversas cidades brasileiras. Porém, o Globo Repórter que ela mais gostou de fazer foi sobre as incríveis histórias do Líbano, apresentado em duas partes. Foram 16 dias de descobertas impressionantes sobre um país, que, para a equipe de Bette, ressurgiu das cinzas como uma Fênix.

Para a jornalista, o lugar mais encantador do passeio foi o Vale do Kannoubine, onde percorreu uma trilha de incertezas, para tentar encontrar um dos últimos quatro eremitas do mundo, o padre Dario. Essa jornada pelo Líbano trouxe a Bette uma bagagem de experiências emocionantes, repleta de histórias ricas em sabedoria e descobertas fascinantes. Uma viagem que Bette jamais vai esquecer. “Esse foi o programa que eu mais gostei de fazer. Porque ali, eu pude ser eu, aquela é a Bette. A Bette que gargalha, que brinca e se emociona”.


Reportagem de Mylena Santos para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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