Ouvem sem prestar atenção… Artistas de rua se tornam paisagem no cotidiano dos cariocas

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A correria do dia a dia faz com que muitas vezes situações simples do cotidiano se tornem apenas automáticas. O ser social passa apenas a viver um dia após o outro deixando de notar as diferenças estruturais da sociedade, sejam elas sociais ou até mesmo materiais. Tudo se torna rotineiro e a beleza, em certos aspectos da vida, vai desaparecendo aos poucos.

A rua, por ser um dos principais locais de expressão social, pode ser comparada ao palco de teatro. A qualquer momento um novo espetáculo pode estar prestes a começar, já que ela é o lar de muitos artistas de rua. Em sua maioria, eles ganham a sua vida com apresentações rápidas, que, muitas vezes, passam despercebidas aos olhos apressados dos expectadores.

A cada ano o número de artistas de rua presentes nesse imenso palco diminui consideravelmente. Hoje, segundo a Escola Nacional de Circo/Funart, mais de 90% dos artistas presentes nas ruas são estrangeiros que acabam vagando como nômades de cidade em cidade para conseguir uma renda mensal. Eles não se fixam em estados, então visam alguns pontos de grande movimentação diária, em especial as cidades do Sudeste. Dentre elas, São Paulo é o principal foco.

Um caso que se enquadra nessa estatística é o de Alejandro Rodriguez, Peruano de 31 anos que durante toda sua vida foi artista de circo em diversas casas de espetáculos no Peru. Cansado de sua vida, ele decidiu vir para o Brasil e tentar a sorte como artista de rua, já que muitos de seus amigos conseguiram se profissionalizar através da arte, aqui ele é malabares e trabalha explorando recursos como fogo, gasolina misturado com malabarismo. “Eu vim de um local muito pobre, chegar aqui e encontrar ruas asfaltadas, carros de todos os tipos e um transporte público que leve você a todos os lados da cidade é algo muito incrível a meu ver”.

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Alejandro Rodriguez praticando malabarismo com fogo; Foto: Projeto Artistas de Rua

Mas não são apenas as diferenças estruturais nas duas cidades que chamam atenção. A diferença cultural muitas vezes pode ser alvo de preconceitos por parte da sociedade brasileira. São diversos os casos de xingamentos e até mesmo de agressão contra esses artistas. Fora que, na maioria das vezes eles acabam entrando de maneira clandestina no país e muitos não conseguem permanecer por muito tempo. “Eu cheguei ao Brasil por uma longa jornada em um Fusca, eu vim do Acre, trabalhei em diversas cidades no caminho até chegar ao Rio, local em que estou há dois anos, mesmo com todos os problemas eu amo essa cidade”.

Problemas esses que são retratados pelo artista de rua de grafite Raphael, 32 anos, natural do Rio de janeiro que pinta muros pela Tijuca, Grajaú e o Bairro do Rio Comprido. Com a sua arte voltada para as críticas sociais, Raphael pinta diversos flamingos rosa que representam a situação crítica de nossa cidade. Ele conta que além de não receberem o devido reconhecimento como “artistas” por trabalharem na rua, muitas vezes não possuem o apoio adequado das Fundações Artísticas do Rio de Janeiro.

Para evitar que tal situação aconteça é necessário um incentivo maior as artes tanto nas escolas quanto nos programas sociais. Um maior incentivo faria com que esses artistas não passassem tão despercebidos na sociedade de hoje, recebendo assim seu devido valor. “É muito comum você cobrar pela sua arte um determinado valor e na hora em que os clientes descobrem que você trabalha na rua, eles pensam que podem desdenhar do seu trabalho, e muitas vezes não aceitam pagar, no final nos sentimos desvalorizados”.

A razão dos clientes reclamarem do preço está atrelada ao fato de que, por estar na rua, não consideram o trabalho como arte. Evângelo Gasos, formado em Artes Visuais e professor da disciplina de Comunicação, Arte e Cultura na Universidade Veiga de Almeida acredita que a arte está o tempo inteiro buscando novas formatações, sem limites pré-estabelecidos. “Não poder definir exatamente o que é a arte faz parte do que é a essência da arte”. O objetivo é transformar quem ouve ou vê aquele trabalho, colocar o espectador para pensar.

Evângelo ainda ressalta que devemos sair da definição quadrada de artistas de rua. Não se trata apenas de apresentações circenses ou musicais. “Pode ser também um performer que trabalha dentro de espaços artísticos que pensa uma ação específica para rua”. Além de outros aspectos que entram neste escopo, como as esculturas.

A rua serve como exposição do talento desses artistas. É lá que eles podem mostrar seu trabalho e conseguirem visibilidade para o que tem para falar. Através dessas apresentações eles podem ser contratados para outros espaços e é perfeitamente comum e normal aceitarem doações para manter as performances.

 Todos já devem ter ouvido o debate que está muito presente no cotidiano, sobretudo dos cidadãos cariocas e paulistanos. A linha que divide a pichação do grafite é tênue e as duas práticas não devem ser confundidas.

Esse assunto já está dando o que falar, principalmente em São Paulo, graças ao prefeito Dória e sua política de limpeza dos grafites da cidade. E para Evângelo Gasos, não necessariamente indica que um deles não é válido. Apesar de estar num âmbito mais criminal, a pichação ainda é uma contestação contra uma situação de problemas sociais.

Isso significa que as pessoas da cidade precisam expor suas ideias. Elas necessitam de um espaço de fala, onde quer que encontrem, seja por desenhos ou siglas. “É uma expressão humana que busca um diálogo, nem sempre positivo e passivo, com o mundo que ele vive”, fortalecendo a democracia.

 Aqueles que querem se apresentar nas ruas geralmente não tem conhecimento dos métodos a serem adotados. Além de não saberem que estão protegidos por uma lei para não terem suas apresentações negadas pela prefeitura.

Se trata da Lei Municipal do Artista de Rua número 5.429 de 5 de junho de 2012, na qual os performers devem somente comunicar às autoridades sobre a apresentação. Ela estabelece também, que os agentes públicos não podem interromper os artistas. E aquele que quiser vender sua arte, está liberado.

Evângelo Gasos reafirma a importância de uma regulamentação, principalmente pela necessidade de democratização de discursos na arte. “A cidade que não possui artistas na rua é uma cidade fechada, que não está propensa a dialogar”.

A estudante de enfermagem, Sabrina Azevedo, de 24 anos, entrou para o mundo da disputa de recitação de trabalhos originais quando nada mais encaixava com ela. “Tudo que eu sentia dor, eu transformava em poesia”, e isso se transpareceu em seus trabalhos, levando-a a ganhar o SLAM RJ. No final deste ano, a menina vai defender seu estado na competição nacional.

Sabrina faz parte de dois coletivos, o ‘NósdaRUA’ e o Poetas Favelados. Eles têm como prática os ataques poéticos em transportes públicos e escolas, onde eles utilizam seus slams para conscientizar a população sobre os problemas sociais sofridos por eles. “A gente chega no metrô, grita e tenta passar nossa mensagem”.

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​Confira a íntegra da reportagem multimídia “Artistas de Rua“.


Reportagem de ​Alana Luiza, Izadora Peres, Raissa Gomes e Luiza Accioly para a disciplina Jornalismo Digital

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