Mundo real versus mundo virtual: games atraem cada vez mais crianças

Enquanto algumas mães se desesperam com o tempo gasto pelos filhos na frente da TV, muitos jovens sonham em se profissionalizar na área.

O sol está na posição sul quando o menino chega na casa da avó. Do lado de fora, deixa a lembrança da escola e todos as convenções sociais de um menino de 11 anos. Ao entrar no apartamento toma sua posição de costume, aquela que sua irmã e prima já sabem que não devem sentar. A cadeira puxada da mesa de jantar agora se encontra em frente à televisão. O console do videogame, o qual ele traz da própria casa nas segundas-feiras e leva embora nas sextas-feiras, está esperando devidamente conectado ao televisor. Ele então aperta o controle e a conexão com o mundo virtual começa. O jogo preferido está esperando para ser rodado, mais um dia.

O garoto mergulha naquela vasta extensão de possibilidades de criação, sem olhar a hora passar. A avó, cumprindo o papel de segunda mãe, chama para almoçar. Relutante, ele come com pressa, para logo voltar correndo para o “amigo amado”. Horas se passam até a chegada da mãe para levá-lo para casa. Ela, cansada do dia no trabalho, chama o menino repetidamente para que guarde as coisas. “Amanhã você volta”, lembra. É com esse pensamento que a criança desliga seu universo paralelo e se despede. A todo tempo, pensando naqueles cinco minutinhos a mais que ele poderia ter jogado, sem nunca almejar a separação do companheiro mais compreensível.

Jogador desde os 6 anos de idade, o hábito de Leandro Saramago pode assustar quem não lida com crianças assim no dia a dia. Nos finais de semana, passa o dia inteiro brincando com o jogo e nos dias de semana, a tarde inteira. O motivo de se perder nesse mundo é porque “tem uma variedade de coisas que não há no mundo real”. Interagir com o personagem, viver a vida dele, é um atrativo que não consegue ser comparado. Castigar o menino a um regime de duas horas por semana não atrapalhou em nada sua devoção. A paixão é tanta que ele não se vê fazendo outra coisa. “Gostaria de ser desenvolvedor de games ou fazer vídeos e postar na internet”.

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Leandro Saramago. Foto: Luíza Accioly / AgênciaUVA

O fascínio do mundo virtual não é compreendido por todo mundo. William da Fonseca, de 12 anos, que joga por muitas horas por semana, há nove anos, é ligado nas novidades e espectador fervoroso de esportes virtuais. Ele conta que a emoção de passar de fase e zerar um jogo são os principais atrativos. As possibilidades de feitos heroicos nos jogos também não passam despercebidas. “Você pode fazer coisas que no mundo virtual não pode, como ter supervelocidade e superforça”.

E o que fazer para que eles se desconectem? A mãe de Leandro, Eliane Saramago, responde com convicção: castigo! “Só conseguimos tirá-lo dos jogos ameaçando ele parar de jogar”. Ela conta que o menino raramente larga o jogo para fazer outra coisa, como conviver com os amigos, mesmo que ele diga que anda de bicicleta frequentemente. Apesar de todo o esforço que a relação do filho com o videogame proporciona, Eliane não está preocupada com o futuro do filho. Como um verdadeiro sistema de suporte maternal, até o encoraja a seguir com os planos e sonhos. “O importante é pelo menos tentar fazer o que se gosta a não ser que a vida nos leve para outros caminhos”. E ela irá seguir pelos caminhos tortuosos do bicho de sete cabeças que é a internet, apoiando-o na medida do possível.

Rotinas como a de Leandro não são anomalias para as crianças apaixonadas pelo universo dos jogos. Passando a maior parte do dia conectado com o a tela da televisão e os últimos lançamentos dos games, os jovens de hoje em dia estão cada vez mais sendo influenciados pelo mundo virtual e suas nuances. Essa combinação gerou uma atenção em grande escala para certos aspectos da vida virtual, como o advento dos e-games. São chamados assim por serem esportes no âmbito online, entre eles, o jogo “League of Legends” e “FIFA”. Com o crescimento de espectadores do desporto, vieram também os investimentos financeiros e os salários estratosféricos daqueles que fazem parte de um time praticante. Os campeonatos movimentos hordas de jovens, que gastam o equivalente a uma peça de teatro ou mais para verem seus ídolos.

Além dos esportes virtuais, há também uma forte atenção para um mercado que surgiu sorrateiro no nosso cotidiano, assim como no mundo dos games, o YouTube. Alguns jovens, e até mesmo adultos, viram a plataforma de vídeos como uma oportunidade de bradar suas opiniões para quem quiser visualizar. Existem os que se gravam jogando, os que comentam sobre os lançamentos e seus pontos bons e ruins, e aqueles que fazem transmissão ao vivo das ligas. Muitos youtubers, como são chamados os que postam esses vídeos, se tornam algo como uma celebridade no meio das crianças. Um exemplo é o primeiro que fez sucesso nesse tipo de mídia, o Felix Kjellberg. A conta dele, “PewDiePie”, tem mais de 51 milhões de assinantes.

Fã de Felix e entusiasta do ramo, Rodrigo Guedes sabe muito bem o que quer fazer. Com 16 anos, ele já tem perfil na plataforma de vídeos e planeja os próximos passos. “Quero falar sobre games e talvez até jogar ao vivo”. Para conseguir o que almeja, ele precisa de equipamentos que os pais não podem comprar. O garoto acredita que com esforço e trabalho duro, ele vai conseguir o que quer. Já o irmão mais novo pensa que não vale a pena. “Não dá dinheiro”, é a resolução de Gabriel, de 11 anos.

Ele pode estar mais certo do que pensa. O professor de design gráfico, Gustavo Rosa, explica que são poucos os que conseguem sucesso no YouTube como comentaristas de games. “A maioria não vai ganhar muito dinheiro com isso, não vai conseguir audiência para ganhar milhares de reais por mês”. A relação entre as pessoas que tem um retorno financeiro bom e as que querem ter é muito diferente. E o mesmo serve para aqueles que querem se tornar jogadores profissionais de esportes virtuais. “Não é para todo mundo. Você tem que ser um excelentíssimo jogador de videogame”. São necessárias várias horas de treinamento, como atletas de outros esportes. À primeira vista, a criança acha que esta é a definição de trabalho fácil, mas qualquer profissão precisa de muita dedicação.

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‘A maioria não vai ganhar muito dinheiro’, diz Gustavo Rosa. Foto: Luíza Accioly/ AgênciaUVA

O jovem, então, tem de buscar todas as opções. E o mercado que é mais acessível nessa realidade virtual é o de programação, que diz respeito a toda a parte de desenvolvimento de um jogo. Há várias subprofissões dentro dessa área, como programador, desenvolvedor, designer, animador ou modelador. Podendo se formar em Ciências da Computação ou Designer Gráfico, esse lado dos games permite que qualquer um, com dedicação e a formação necessária, tenha chances de se aventurar nesse meio. Mesmo assim, há um grande número de pessoas querendo e nem todos conseguem. “Tem vaga para os melhores, mas não para todo mundo”, relata Gustavo.

Esses cargos geram fascínio para qualquer apreciador de games. Gera também as coberturas espetaculosas e midiatização desenfreada. O grande problema disso é como reflete em crianças e adolescentes. Produções quase hollywoodianas, como os jogos desenvolvidos fora do país, os chamados Triple A, ou cinco estrelas, mexem com a imaginação dos jovens. A grandiosidade dada pelo público aos jogos, campeonatos, atletas e até mesmo os YouTubers gera um desejo maior de submergir em territórios virtuais. É aí que o jovem se afasta do mundo real e de seus problemas, se tornando alienado a tudo e todos.

O manejo social é um dos mais atingidos nesse processo. Relações se alienam e a pessoa se coloca em um universo paralelo com hiperestimulação. A psicanalista Ana Carolina Lynch conta que se há um fechamento nos jogos por conta de frustrações sociais, há grandes chances de se tornar um vício. Para as crianças, o risco é ainda maior, pelo maior potencial de absorção ao que está sendo exposto. Isso acontece porque estão criando modelos e padrões. A psicanalista acredita que impedir os jovens de jogar não é a solução. “A grande coisa que os pais podem fazer para desviar a atenção do filho do mundo virtual é dar atenção aos filhos, conversar, fazer programas interessantes”.

Há uma enorme preocupação ainda com a chamada dependência da internet, ou IAD (Internet Addiction Disorder). Essa doença atinge a um número cada vez maior de jovens, mas não é um tópico que esteja em discussões do cotidiano. Principalmente, é uma dependência da sensação de controle que o jogo propicia. “Você pode controlar muito melhor porque tem regras claras, o que não acontece na vida real”, acrescenta Ana Carolina.  Em casos extremos, cabe até procurar a ajuda dos institutos especializados no caso, como o Grupo de Dependências Tecnológicas, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Tem de haver um exercício de toda a população para identificar e tratar os problemas gerados pela exposição em excesso ao universo virtual. Porém, o mais importante é colocar em cheque a necessidade de exposição de objetos, cargos e pessoas relacionadas a esse mundo. A sociedade está se tornando alienada, buscando subterfúgios e válvulas de escape em qualquer lugar que der. Talvez seja a hora de passar menos tempo online e mais tempo debatendo as questões sociais que permeiam a nossa vida real. Espetacularizar algo tem suas consequências e é dever de todos analisar e corrigir elas.

Áreas de atuação da produção de jogos

As profissões envolvidas na produção de jogos variam e suas funções nem sempre são explicadas nos mecanismos de busca online. Para entender melhor como elas funcionam, é necessário entender como a equipe é montada e como cada tarefa é dividida. Aqui está uma lista para ajudar àqueles que tem curiosidade ou querem ingressar nessa área da tecnologia, retirada do livro “Manual de Produção de Jogos Digitais”, de Heather Maxwell Chandler.

  • Produtor

Esses são os intermediários de toda a equipe de produção e outras equipes de fora desta área. Eles gerenciam e acompanham o desenvolvimento do game, se certificando que está em ordem e em dia. É um profissional que tem que falar muito em público, por isso tem que ter boa comunicação e conhecimento vasto da indústria de jogos. Necessita de espírito de liderança e, se possível, de experiência em coordenar a produção.

  • Designer

Não existe uma trajetória profissional padrão para os designers. Suas habilidades variam de empresa para empresa. Porém, em todos os lugares é preciso ter comunicação escrita e oral sólidas, além de conhecer as teorias dos jogos. Deve pensar, principalmente, como um jogador, para saber o que o público acharia interessante e implementar no jogo a ser desenvolvido.

  • Artista

A pintura, desenho e escultura são fundamentais para este cargo. Ao se comunicarem com o resto da equipe, os artistas seguem as instruções para criar o boneco ideal para aquele jogo específico, usando softwares tanto de 2D quanto 3D.

  • Programador

Geralmente formados em ciência da computação, estes profissionais exercem muitas tarefas dentro da equipe. Precisam ter conhecimento de linguagens de programação, sistemas operacionais, compiladores, depuradores e interfaces de programação. Eles têm que estar atentos às novidades na indústria tecnológica e como podem afetar seu trabalho.

  • Testador

Esse aqui é o que provavelmente agrada mais aos jovens que não conseguem parar de jogar. Porém, além de gostar de passar horas na frente do videogame, esse profissional precisa ter habilidade de analisar problemas virtuais e apontar suas causas para o programador. Em geral possuem um líder, responsável pelo gerenciamento da equipe de testadores. Também serve como porta de entrada para a área de desenvolvimento de jogos, pois vivenciam de perto todo o processo.

  • Marketing/Relações Públicas

Ao contrário do que podem pensar, a equipe de marketing está diretamente envolvida na pré-produção de jogos, fazendo sugestões. Já as Relações Públicas precisam pensar na publicidade em torno do jogo desde cedo.

Sintomas de problemas gerados pelo uso excessivo do videogame

Jogar videogame por muitas horas tem seus efeitos negativos no corpo de qualquer pessoa, especialmente de uma criança. Alguns pais podem nem notar alguns desses problemas, pois acreditam que o videogame deixa seus filhos mais quietos. Isso não é verdade. A lista de efeitos nocivos é longa e é necessário identificar os mesmos. Se o seu filho apresenta alguns desses sintomas, talvez seja a hora de fazer algo mais severo para interrompê-los.

. Excesso de peso e obesidade

. Problemas de atenção e hiperatividade

. Agressividade e comportamento antissocial

. Depressão e medo

. Intimidação a colegas (bullying)

. Indução de atitude machista

. Perda de sensibilização sentimental

. Passar a pensar que o mundo é violento e violência não gera castigo

. Diminuição do rendimento escolar e prejuízo para a cognição

. Confusão de fantasia com realidade

. Isolamento e outros problemas sociais

. Aceleração do desenvolvimento

. Perda de criatividade


Luíza Accioly – 7° período

Um comentário sobre “Mundo real versus mundo virtual: games atraem cada vez mais crianças

  1. Pingback: Crianças passam cada vez mais tempo no mundo online | AgênciaUVA

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