Comércio nacional ainda enfrenta instabilidade devido à situação econômica

A crise afeta a todos, não há como fugir. Está presente e espalhada por todo o Brasil. Foram fechadas mais de 200 mil lojas e quase 360 mil pessoas perderam seus empregos nos últimos dois anos. Batendo recordes, 2016 foi o pior, com 108,7 mil lojas encerrando as atividades e 182 mil vagas cortadas no comércio varejista, segundo um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O motivo desse cenário é a diminuição drástica das vendas e o consequente desemprego, já que as empresas contratam menos funcionários por não precisarem de tantos trabalhadores e há substituição do trabalho humano pelas máquinas.

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Fraco movimento de consumidores preocupa lojistas [foto:Anna Beatriz Ferreira]

O superintendente Marcelo Arruda, 48 anos, do Caxias Shopping, conta que foi imediata a percepção da crise. As lojas apresentaram um decréscimo nas vendas mês a mês desde o fim de 2014, e comparando essa época do ano com a dos anos anteriores, houve uma redução de 10% a 30% no faturamento. Outro problema enfrentado é a quantidade de lojas fechadas. “É difícil resolver, já que o número de investidores reduziu junto com a confiança no mercado”. Para tentar atrair o público, o shopping aposta na realização de eventos, sorteios, feiras, promoções de estacionamento e, em datas festivas, sorteios de veículos, viagens e brindes. Os lojistas também procuram por vantagens, como a redução do aluguel e do condomínio, que é aplicado sobre o valor de venda.

Foi o que fez o empresário Marcos André da Cruz, 47 anos: pediu ajuda por conta da diminuição de 20% no caixa, mudou também as condições de parcelamento, dando mais facilidade para os clientes, e apresentou uma linha de roupas com preços mais acessíveis. “Mas sempre apresento qualidade nos produtos”. Para aumentar o fluxo do caixa, a queima de estoque de roupas antigas é outra saída, permitindo assim o pagamento de novas contas e a bonificação dos vendedores sobre as cotas estipuladas, sendo de 4% ou 5%,e mais R$200 para quem alcançar o objetivo. Os três primeiros meses do ano são sempre os que têm contas a pagar mais altas e são piores em faturamento, principalmente com a falta de pagamento dos funcionários públicos este ano.

O contabilista Frederico da Fonseca, 70 anos, acredita que a crise é um ciclo. O atraso no pagamento dos funcionários públicos é causado pela falta de verba do governo, que vem arrecadando menos dos impostos pagos pelo comércio, já que a população está consumindo mais nos e-commerces por ser mais barato, reduzindo o recolhimento de tributos por terem menos funcionários envolvidos no atendimento comercial, e as lojas físicas estão fechando por falta de lucro. “Diante de tal quadro, não há empresário que arrisque em investir seu capital ou a se endividar com empréstimo bancário”. A visão da população é de um futuro incerto, pois todos temem ser atingidos pelo desemprego, inclusive quem trabalha nessas lojas que estão passando por dias difíceis.

Gerente da loja Enzo Toscani, Anderson Claudinho, 43 anos, teve a sorte de não precisar demitir muitos funcionários e, na hora da contratação, opta por experiência, desenvoltura, ambição e necessidade de vender para manter a família. A forma de estimular sua equipe para tentar melhorar nas vendas é ajudando na implantação das premiações sobre a venda e solicitando que cada vendedor trabalhe bem o cliente, com bom atendimento, mostrando o que a loja tem de melhor e ajudando com a simpatia. “Um bom vendedor precisa ser bom de lábia”. Ele investe também na divulgação da loja nas redes sociais, mostrando os produtos e convidando a todos para conhecerem o que é oferecido.

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Anderson Claudinho, gerente de loja de roupa masculina [foto: Anna Beatriz Ferreira]

Ao observar o lado positivo do e-commerce, Patrícia Montenegro, 47 anos, é funcionária pública do estado e município do Rio de Janeiro, e, por conta da sua frequente insegurança financeira, passou a pesquisar mais na internet os produtos que fossem necessários para sua família, comprando somente o essencial. Prefere não utilizar o parcelamento, por isso sempre se organiza para fazer a melhor escolha. “Percebo que a compra on-line representa economia”, diz ela. Suas prioridades são pagar todas as contas fixas e reservar o que sobra para iniciar o pagamento das contas no mês seguinte, já que não recebe salário com regularidade e corre o risco de ter novos imprevistos, como os comerciantes que precisam de estratégias para driblar essa fase.

Enfrentar essa situação não é fácil, podendo ser encarada com desânimo ou como um desafio. Para se restabelecer, é preciso encontrar uma saída para lidar com esse problema e utilizar estratégias e criatividade, sempre pensando no que pode vir no futuro. Tanto os consumidores quanto os comerciantes buscam ter o melhor resultado no dia, para que, com o tempo, consigam mais vantagens em suas compras e vendas.

Ao perceber um aumento de 15% dos consumidores entrando na loja só para olhar, Salvador Marchetti, 45 anos, vendedor de uma loja masculina, precisou mudar sua forma de abordar os clientes, tentando desenvolver uma venda, por menor que seja. “Mostrando boa vontade, conseguimos cativá-los”. Procura sempre comentar sobre as formas de desconto, mostrar o que mais faz sucesso e destacar a qualidade da marca, podendo assim melhorar a situação do caixa e ainda fidelizar um cliente, tendo a chance de recebê-lo novamente, de conhecer cada vez mais os produtos e divulgá-los para conhecidos, ampliando o espaço no mercado.

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Salvador Marchetti na loja em que trabalha há cinco anos [foto: Anna Beatriz Ferreira]

Percebendo o atendimento diferenciado em algumas lojas de roupas, a veterinária Maria Alice Gress, 46 anos, recebeu a oportunidade de ter as mercadorias que selecionasse entregues em casa, para que pudesse escolher melhor o que comprar. Porém, não adepta de compras on-line, ela acredita que esse hábito faz com que as pessoas gastem mais do que precisam. Compras de decoração e vestuário não são mais feitas e procura sempre por promoções em diversos supermercados, mas sem comprometer a qualidade dos produtos de consumo da família, “Passamos a cozinhar mais e diminuir a frequência em restaurantes”. Em relação ao pagamento, costuma preferir pagar à vista se derem desconto, caso contrário, utiliza o parcelamento se não cobrarem juros, procurando o que é mais vantajoso para o momento.

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Maria Alice Gress em visita a um zoológico [foto: arquivo pessoal]

As diversas formas de pagamento são sempre exploradas por quem gosta de consumir, podendo variar com o que se compra, mas também é possível encontrar pessoas que não utilizem ambas e sejam adeptas de uma única, por forma de organização financeira.  Núbia Cerqueira, 28 anos, analista de planejamento, é bem controlada e não gosta de fazer pagamento parcelado. Costuma se organizar com base em uma planilha de gastos e só se permite fazer alguma compra pessoal caso seja muito necessário e se todas as contas já tiverem sido pagas. Economizando para seu casamento, agora em 2018, foca em investir na obra de seu futuro apartamento, dividindo as despesas com o noivo. “Percebo que o mercado tem promovido mais ações promocionais e com melhores condições de pagamento”. Foi por isso que realizou várias pesquisas e conseguiu bons descontos em artigos de decoração e móveis pelas lojas on-line.

O comércio precisa estar sempre aquecido para gerar mais empregos e mover a economia, mas diante da situação atual do Brasil, o cenário foi modificado e é preciso encontrar novas formas de reestruturação. O ato dos consumidores de pensar duas vezes antes de comprar os ajuda a economizar, porém atrapalha os comerciantes, que passam a lucrar menos. A opção encontrada por muitas famílias é fazer novas reservas financeiras para que não passem por momentos de aperto.


Reportagem de Anna Beatriz Ferreira Maciel da Cruz  para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso em 2017-2

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