Reconstruindo o pensamento sobre o suicídio

A dor vem como uma marreta de cimento. Os problemas pesam toneladas sobre os ombros. Busca-se, mas não há soluções para eles. Eles pesam e doem. A vida começa a ficar cinza. O que o fazia feliz, já não faz mais. Ninguém parece ser capaz de compreendê-lo. Você queria que notassem o que ocorre, pois tem medo e vergonha de dizer. Mas parece que os ouvidos foram tampados e os outros estão mais distraídos do que nunca. E a dor continua a aumentar. Você só quer que ela acabe. Não quer mais esse sofrimento que, ao seu ver, nunca irá embora. E é aí que se começa a remoer um pensamento perigoso. Ele assusta no primeiro momento. Mas depois parece se tornar a única saída. As pessoas continuam a não notar e você não sabe como contar. E então, disposto ao que for para parar de sofrer você toma uma decisão: tirar a própria vida.

Uma decisão radical que vem se tornando a cada dia mais comum. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a 14ª causa de morte no mundo e a terceira entre pessoas de 15 a 44 anos, dos dois sexos. O Mapa da Violência de 2012 – o mais recente relatório da OMS – aponta que cerca de 804 mil pessoas no mundo tiraram a própria vida naquele ano. Uma taxa de 11,4 para cada 100 mil habitantes, o que significa um suicídio a cada 40 segundos. Com base em dados compilados pela ONU, no âmbito internacional, o Brasil ainda apresenta taxas de suicídio relativamente baixas. Porém, em números absolutos, é o oitavo país com maior número de mortes por suicídio no mundo, segundo o ranking da OMS de 2014.

Os dados são alarmantes também entre os jovens. Em 1980, a taxa de suicídios na faixa etária de 15 a 29 anos era de 4,4 por 100 mil habitantes; chegou a 4,1 em 1990 e a 4,5 em 2000. Assim, entre 1980 a 2014, houve um crescimento de 27,2%. Em números absolutos, foram 2.898 suicídios de jovens de 15 a 29 anos em 2014, um dado que costuma desaparecer diante da estatística dos homicídios na mesma faixa etária, cerca de 30 mil. Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o problema é normalmente associado a fatores como depressão, abuso de drogas e álcool, além das chamadas questões interpessoais: violência sexual, abusos, violência doméstica e bullying.

Mesmo sabendo que o suicídio é um atentado violento contra a vida, muitos ainda encaram o ato de forma errônea e preconceituosa. Como explica Mônica Romana, psicóloga há 26 anos, com pós-graduação em Terapia de Família, Gestalt-terapeuta e especialista em Psicologia Clínica, os suicidas são vistos pela sociedade como pessoas fracas, que não sabem resolver seus problemas ou que são desequilibradas. “Mas enquanto se é ser humano, estamos suscetíveis a todas as coisas. E sabemos que nem toda dor é suportável”. O que ocorre, acrescenta ela, é que nem todos lidam com a dor com facilidade.

Psicóloga Mônica Romana (especialista)

Mônica Romana. Foto: acervo pessoal

Por isso, há pessoas que até negam situações, fatos ou doenças por não quererem sentir dor. “Existe esse preconceito, porque é associado a desequilíbrio. E o adoecimento psicológico ainda é muito negado pela sociedade”, avalia Mônica. O suicídio está muito relacionado a transtornos emocionais, a como o indivíduo lida com as emoções, com a relação entre o que pensa e o que sente, e a dificuldade das pessoas de se relacionarem umas com as outras. “Muitos acham que algumas pessoas não têm capacidade de lidar com essas áreas da vida e por isso elas desistem”, diz.

O que essas pessoas não sabem é que o suicídio não é uma questão tão banal. Não é um simples ato de desistência, mas sim de desespero. Para a vítima, nenhuma outra escolha que ela tomar lhe dará a solução que precisa para deter a dor e o sentimento de angústia. Essa escolha, no entanto, é, por vezes, provocada por alguma doença mental – sendo a mais comum a depressão –, segundo os dados da OMS. Estima-se que uma em cada quatro pessoas sofrerá com depressão ao longo da vida. Hoje, ela afeta 322 milhões de pessoas no mundo. Em dez anos, de 2005 a 2015, esse número cresceu 18,4%. A prevalência do transtorno na população mundial é de 4,4%. Já no Brasil, 5,8% da população sofre com esse problema, que afeta um total de 11,5 milhões de brasileiros. De acordo com pesquisas da OMS, o Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo com maior prevalência nas Américas, ficando atrás somente dos Estados Unidos, que têm 5,9% de depressivos.

“A população tem que entender que depressão não é frescura, não é preguiça, que ansiedade não é frescura, não é falta do que fazer”. Boa parte das tentativas de suicídio não acontece só para chamar a atenção. “Estes sintomas são doenças”, defende a psicóloga Karen Scavacini, coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio. Enquanto o preconceito social perdurar sobre as doenças psicológicas e sobre o suicídio, não será possível mudar a situação. “Infelizmente, a sociedade não está preparada, ou não quer se preparar, para entender que uma pessoa que comete suicídio está numa situação complicada, e que requer cuidados psicológicos, físicos, familiar e social”, opina Raphael Muniz, 20 anos, aluno de Enfermagem da Universidade Celso Lisboa.

Universitário Raphael Muniz (personagem)

Raphael Muniz. Foto: acervo pessoal

O preconceito social leva à não abordagem sobre a questão e a classificar o suicídio como um assunto tabu – algo que não deve ser falado ou discutido. Durante séculos, por motivos religiosos e morais, o suicídio foi considerado um dos piores pecados que o ser humano poderia cometer. “Esse tabu virou um problema e mascarou uma triste realidade: ele pode afetar qualquer pessoa em qualquer momento da vida, independentemente do nível socioeconômico, idade ou raça”, declara Antônio Geraldo da Silva, superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), coordenador nacional da campanha Setembro Amarelo e presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL).

Por muito tempo, o tema do suicídio não foi tratado abertamente por medo do “Efeito Werther”, que se refere ao livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (“Die Leiden des jungen Werthers”, título original em alemão) do autor Johann Wolfgang von Goethe, de 1774. No romance, o personagem Werther se mata com uma pistola após ser rejeitado pela mulher que amava. Logo após sua publicação, houve relatos de outros jovens utilizando o mesmo método para tirarem a própria vida em um ato semelhante à desesperança. Tal acontecimento resultou no banimento do livro em diversos países. Em Milão, o Arcebispo ordenou a compra de todos os exemplares e os queimou em praça pública. Assim, o termo “Efeito Werther”, criado pelo pesquisador David Phillips, em 1974, passou a ser usado na literatura técnica para se referir a uma onda de suicídios copiados.

Contudo, a medida de abafar o ocorrido não foi a melhor solução. “Estima-se que 90% dos suicídios poderiam ser prevenidos. Isso faz pensar que esse preconceito histórico em falar sobre suicídio não ajudou a prevenir essas mortes”, diz a psiquiatra Ana Beatriz Silva, Autora de “Mentes Depressivas – As Três Dimensões da Doença do Século”, citando estimativa da Organização Mundial de Saúde, em contraponto ao “Efeito Werther” e à proibição de falar sobre suicídio com medo de que incitasse a prática. Quanto mais se cria silêncio e segredo sobre o tema, pior fica a situação das pessoas que sofrem e lidam com ele. Não há para elas segurança e oportunidade de falar sem que haja discriminação ou sem que sejam ignoradas. “Poder falar e contar a história pode ter um efeito curativo em quem lê e em quem escreve”, defende a psicóloga Karen Scavacini.

Luana Sousa, 19 anos, que participa de um curso de teatro do projeto “MovimentArte”, tentou o suicídio uma vez. Ela conta que, na época, não procurou ajuda ou falou do assunto por medo e vergonha, mas reconhece que por mais que seja um pouco mais debatido atualmente, ainda há um desconforto com a questão e um preconceito por parte das outras pessoas. Diz que é muito importante se trocar o ponto de vista sobre tema para uma intervenção. Para que as pessoas se sintam mais abertas a falar e entendam que não precisam passar por tudo sozinhas.

Luana Sousa (personagem)

Luana Souza. Foto: acervo pessoal

Renata Borher, 20 anos, ex-aluna do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora (INSA), que perdeu um amigo do colégio por ele ter cometido o suicídio, afirma: “Para a vítima, não existe graça ou prazer em viver. E isso é algo horrível. É uma coisa que qualquer um pode sentir. E nós devemos estar preparados para dar total suporte a essa pessoa e incentivar a buscar o prazer na vida, mostrar onde ela vai encontrar esse prazer de novo na vida”.

A chave para se debater o tema é focar na outra face do problema: a solução. Ao se abordar o suicídio, deve-se sempre levantar o incentivo para a vítima buscar ajuda. Dizer que a vida dela é importante e que, sim, ela fará falta neste mundo e para as pessoas de seu convívio social. Pensamentos suicidas, depressão e outros transtornos têm tratamento. Há como mudar a situação para melhor. O medo do “Efeito Werther” e o preconceito da sociedade não são mais importantes do que estender a mão a quem precisa.

A psicóloga Mônica Romana salienta que os profissionais de saúde atualmente buscam captar a atenção das pessoas para atitudes que propiciem uma melhor qualidade de vida. “Se o relato indica, no fim, onde a pessoa pode receber ajuda, isso se transforma numa rede de cuidado. Muitas pessoas estão tão perdidas e impactadas que mesmo uma sugestão de caminho a seguir faz grande diferença”, orienta a psicóloga Karen Scavacini. Portanto, deve-se reconstruir os pensamentos sobre a questão, eliminando o preconceito e adotando uma postura de empatia e altruísmo.


Reportagem de Jamile Darlen de Barros para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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