Vera Couto: eterna mulata bossa nova

Ao olhar para Vera Couto, 73 anos, é possível perceber traços do seu passado. A pele bem cuidada e o cabelo impecável são características consideradas fundamentais para sair de casa. A presença elegante causa nas pessoas a impressão de que ela ainda é a mesma jovem que ganhou o concurso de Miss Estado da Guanabara, em 1964. Mas, nos dias de hoje, ninguém poderia imaginar que ela não queria entrar para o mundo das competições de beleza.

Ao se mudar para o bairro do Méier, aos 15 anos, começou a frequentar um salão de beleza cuja dona, de nome Dinah, era esposa do diretor social do Renascença Clube, na época localizado no Lins de Vasconcelos. Foi nesse período que começou a participar dos concursos internos do clube. Dinah, notando o potencial de Vera, decidiu inscrevê-la no concurso de Miss Estado Guanabara, mas, pelo fato de ser menor de idade, não conseguiu competir.

Quando completou 18 anos, o presidente do clube e a dona do salão voltaram a insistir, mas Vera disse que preferia ganhar um carro do pai e que isso já seria despesa suficiente para o momento. No ano seguinte, houve uma nova tentativa e dessa vez, não havia como negar. “Meu pai disse que as despesas do concurso seriam pagas pelo pessoal que me convidava e, diante disso, aceitei participar”, explica Vera.

Ela conta que ninguém acreditava em sua vitória, já que nenhuma menina negra havia ganhado a competição até aquele momento. Mas o destino parecia querer ajudar Vera. “A imprensa fez uma campanha muito extensa para que eu ganhasse. Revistas famosas como Manchete, O Cruzeiro e Fatos e Fotos compraram a ideia”, lembra. Ela conta que a pressão foi enorme nesse período, e que a família precisou inclusive mudar o número do telefone de casa por causa das inúmeras ligações que recebia.

O preconceito racial naquela época era tão presente que a ganhadora do Miss Guanabara participaria de uma campanha para a marca de cosméticos Helena Rubinstein, mas não havia nenhum produto para a pele negra. “Sem falsa modéstia, acredito que abri os caminhos para que as meninas negras tivessem mais oportunidades”, diz Vera.

Perfil - Vera Couto

Vera Couto. Foto: acervo pessoal

No mesmo ano de 1964, a miss Guanabara foi competir no Miss Brasil. Lá, novamente enfrentou episódios de preconceito. “Escutei da mãe de uma das misses que não poderia competir porque era o mesmo que colocar um gato no meio dos cães”, lembra Vera. Mas a mulher do presidente do Renascença Clube, que a acompanhava, disse que na verdade era o mesmo que colocar um príncipe negro (tipo raro de rosa) em meio às outras rosas. Mesmo com tudo isso, Vera ficou em segundo lugar.

Nos bastidores do concurso, durante uma festa, João Roberto Kelly, famoso compositor brasileiro, viu Vera dançando. Na época, o ritmo musical da moda era o Hully Gully e ele, encantado com a beleza da miss, criou a marchinha de carnaval “Mulata Bossa Nova”, que até hoje é uma das músicas mais tocadas durante os dias de folia.

O próximo passo foi competir no Miss Beleza Internacional, ocorrido em Long Beach, nos Estados Unidos. Ficou em terceiro lugar e isso gerou uma grande repercussão na mídia. “Depois disso, desfilei pelo mundo inteiro, Estados Unidos, Europa, América do Sul e vários estados do Brasil”, conta Vera. Para a menina de 18 anos que não se imaginava participando de concursos, ela tinha alcançado reconhecimento mundial.

A partir daí, foi fazer palestras pelo Brasil falando sobre a importância do tratamento igualitário entre meninas negras e brancas, dizendo que elas tinham totais condições de competir “ombro a ombro” em qualquer aspecto da vida. “Sempre fui contra essa onda separatista que existia, mas pelo menos atualmente vemos alguns avanços, e o número de negras tendo papéis importantes na sociedade aumentou bastante”, analisa ela.

Ficou afastada do mundo dos concursos e do trabalho quando casou e teve os dois filhos. Mas após a separação, voltou a aceitar convites para fazer parte de júris e começou a trabalhar na Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur). “Trabalho como assistente de diretoria há 40 anos e, durante o carnaval, coordeno os palcos dos Bailes Populares espalhados pelos bairros”, conta.

São 53 anos de exposição na mídia, ajudando a motivar e a mudar a vida de jovens que se julgam feias ou diferentes pelo simples fato de serem negras. “É uma luta, mas vale a pena quando olho para trás e vejo quantas coisas mudaram desde que aceitei participar do primeiro concurso”, lembra ela. Vera realmente abriu portas para a aceitação da pele negra e, por isso, é lembrada como a musa que sempre foi e sempre será.


Reportagem de Raphaela Quintans de Andrade Rodrigues para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

 

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