Futebol, uma língua universal

“A chuteira veste o pé descalço, o tapete da realeza é verde, olhando para bola vejo o sol, está rolando agora é uma partida de futebol”.  Assim começa uma grande história de solidariedade com a Organização não-Governamental (ONG) Viva Rio, em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU), que tem beneficiado meninos e meninas das periferias do Haiti e os inspirado a mudar completamente o rumo de suas vidas. No ano de 2010, um terremoto atinge o país devastando cada canto dele, mas 18 meses após essa tragédia, um projeto é colocado em prática. Nesse momento, surge o Pérolas Negras, time formado como estratégia de inclusão social dos participantes no mercado de trabalho, mostrando que, a partir do esporte, é possível reconstruir a história de cada um.

Existe uma preocupação com todos os participantes do projeto, pois a cada dia o time dos Pérolas Negras cresce. Por esse motivo, foi gerada a necessidade de ampliar a perspectiva do programa, já que o Haiti é um país com oportunidades escassas, mas repleto de pessoas talentosas e que sentem amor pelo futebol. Para solucionar esse problema, foi pensada e criada a base no Brasil, localizada em Paty do Alferes, região sul do Estado do Rio de Janeiro, que gerou a oportunidade de brasileiros fazerem parte dessa proposta. A intenção é trazer e treinar, a partir dos 16 anos, os jovens que mais se destacam para que tenham a chance de entrar no tão sonhado mercado brasileiro. Ao chegar, eles ganham um visto de refugiado, são acompanhados por profissionais capacitados para melhorarem o desempenho em campo, disputam campeonatos regionais e nacionais que são vitrines para olheiros de grandes clubes.

Conquistar o sonho não é tão fácil. Ao chegar ao time, o passaporte para o sucesso é treinar. A rotina no Brasil é puxada, os jogadores treinam diariamente, em uma estrutura montada para dar suporte a eles, com campo bem cuidado, espaço para atividades físicas, acompanhamento de fisioterapeutas e nutricionistas. Os meninos são tratados como verdadeiras pérolas. O coordenador do time profissional e técnico do sub-20 Wesley Assis, trabalha a parte tática de cada um para as competições, mas nem sempre é tudo tão fácil, começando pelo idioma falado por eles. “A língua do futebol é universal, então a paixão deles por futebol facilita a compreensão”, conta ele.  Ao entrar no projeto em 2015, existiam algumas falhas na comunicação. Como era novo no programa, o jeito era buscar formas de driblar as dificuldades encontradas e transforma-las em formas de aprender algumas palavras no dialeto crioulo.

À direita, Wesley Assis passando instruções a um de seus jogadores

A direita, Wesley Assis instruindo um de seus jogadores

Mas se alguns desses meninos achavam que seria só futebol, estavam enganados. Apesar de, na base, eles terem uma rotina de jogadores profissionais, o que não pode ser deixado de lado são os estudos. A maioria deles está matriculada em escolas  públicas e todos estudam a língua portuguesa. O idioma é considerado a grande dificuldade, porque acrescenta acentuações que eles não estão acostumados a ver normalmente. O dialeto falado por eles é o crioulo, que tem base no francês, entretanto muitos já chegam no Brasil sabendo algumas palavras do português,  o que facilita o cotidiano desses jovens. Mesmo que encontrem obstáculos na aprendizagem, eles conseguem ajuda de pessoas como Larissa Gomes de Mello, 23, que dá suporte na educação, junto com a professora Paula Martinez Mello, 47.

Os meninos vieram em busca de um sonho e encontraram algo mais que isso. No projeto, eles recebem aprendizado e estrutura para levar a vida. Para Paula, o propósito é mostrar o talento dos refugiados e dos brasileiros, mas o Viva Rio não tem um time de futebol comum. O aspecto social é também muito importante. Existe uma imensa preocupação com a educação deles e com a formação como cidadãos, para que possam, durante e depois da carreira, fazer a diferença com consciência social. “Nós procuramos promover atividades que façam eles pensarem e repensarem como vão reverter tudo que ganham em um bem maior”, afirma ela.

Pode ser que, para outros, os estudos básicos sejam suficientes, mas esses meninos querem ir além. Claro que o futebol é o principal na vida deles, mas a vontade de descobrir outras possibilidades não é descartada. Todos chegam ali esperando que o sonho de se tornar profissional seja alcançado e mesmo com todo o tempo de treino e muita dedicação no esporte, eles não deixam de almejar um diploma. O jogador haitiano do time Pérolas Negras, Philogène Jackyto, 19, mais conhecido como Jack, é um desses, que pretende arrumar um tempo para se tornar um diplomata. “Se tudo der certo, continuo com futebol, mas depois que acabar eu penso em fazer outra coisa, faculdade de Relações Internacionais, talvez”, conta ele.

Todo esforço na parte técnica e educacional tem valido a pena. Alguns meninos já estão seguindo suas carreiras, levando o sustento para suas famílias. Os que ainda estão jogando pelo Pérolas Negras já disputam a série C do campeonato carioca com a parceria do Audax, time de futebol federado de São João de Meriti. Um deles está na expectativa para acertar com o Fluminense, a maioria já fez testes em diversos clubes de futebol, como Grêmio, Botafogo, Goiás, Rezende, entre outros. A procura da oportunidade de ser reconhecido nos campos brasileiros e internacionais é grande. O mercado é concorrido, muitos foram contratados, outros não, mas a persistência é algo que eles têm em comum.

E toda garra e vontade de seguir a carreira podem ser encontradas no jogador mineiro com uma bela história de perseverança, Wellington Luiz de Oliveira, 20, que atua como goleiro no time sub-2. “Fiz o teste no ano passado e foi muito difícil, mas eu consegui”, conta o jovem. Está há cinco meses no clube, mas não teve um início fácil. Quando chegou não tinha um grupo em que pudesse jogar, entretanto essa situação não o deixou abalado. Ele seguiu se dedicando aos treinos e se preparando para quando fosse sua hora de entrar em campo.  Não existe uma característica específica para participar do projeto, porém paixão, dedicação e esforço são qualidades em comum encontradas nos jogadores desse time.

O talento do time e a ideia do projeto têm conquistado olhares curiosos para entender mais a fundo essa missão que está nas mãos do Viva Rio. Documentários, matérias para TV e impresso já foram feitas e cada uma delas consegue mostrar a felicidade no olhar dos meninos em poder mostrar seu dom com a bola e a alegria de quem tem a oportunidade de trabalhar na Academia. Hoje, as chances de transmitir para as pessoas o significado desse programa são importantes, pois tudo que existe vem de doações.  Parcerias com empresas e universidades surgem e são formas de expandir cada vez mais essa visão de um mundo mais solidário, além de colaborar na formação de seres humanos melhores.

O Pérolas Negras se tornou, acima de tudo, uma grande família, com belas histórias. Seja voluntário, técnico ou algum trabalhador do local, todos mostram como é apaixonante participar desse projeto. Cada pessoa que convive na Academia sente um prazer inexplicável e cria laços fortes. Muitos deles descrevem o quanto é difícil imaginar estar ali e não ter mais os meninos por perto, como nos momentos em que eles fazem uma viagem temporária para ver suas famílias no Haiti e acabam deixando os brasileiros semanas ou meses, gerando saudades naqueles que aprenderam a amar cada um desses garotos. “A experiência de trabalhar em um projeto como esse é única”, conta Larissa Gomes.


Nilséa Fernandes 

*Reportagem realizada para o Projeto Interdisciplinar em Jornalismo I – Impresso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s