Conheça a história do Pérolas Negras

O Haiti é um país situado na América Central com pouco mais de dez milhões de habitantes e, ao longo de sua história, sempre marcado por pobreza e uma grave crise humanitária que parece não ter fim. Apesar de ser o país mais pobre da América, foi a primeira República Negra que de fato obteve sucesso em seu processo de independência. Em 12 de janeiro de 2010, um grande terremoto assolou o país com a destruição de prédios e mortes de milhares de pessoas.

Em meio a tanta tristeza, porém, começa a ser contada a história do Pérolas Negras, um time de futebol inicialmente formado por meninos e meninas haitianos que vivem próximo à capital, Porto Príncipe. O projeto foi criado pela ONG Viva Rio, presente no Haiti desde 2004 com outras diversas ações sociais, em áreas de mediação de conflito, saúde, segurança humana, educação e meio ambiente. Além disso, o Viva Rio negociou acordos de paz com grupos armados rivais e encontrou no esporte um elo para que programas de educação e formação profissional fossem introduzidos.

A partir de 2016, os jovens que mais se destacam ao completar 16 anos ganham a oportunidade de vir treinar no Brasil na sede do Pérolas Negras, localizada em Paty do Alferes, região Serrana do estado do Rio de Janeiro. Aqui eles têm a oportunidade de uma maior inserção no mercado do futebol, com a realização de torneios, expandindo a sua visibilidade. E foi assim que o jovem haitiano Badio Stanley, 17 anos e zagueiro da equipe sub-20, ganhou uma outra perspectiva para sua vida. “Quando eu entrei no Pérolas Negras eu vi o meu futuro”, diz Badio, que se encontra há um ano e quatro meses no país.

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Refugiado relata como futebol lhe deu novas oportunidades

Com fala tímida e jeito tranquilo, ele conta que o futebol brasileiro é mais rápido do que o jogado no Haiti, já a igreja e o jeito do povo são semelhantes. “Eu estava atrás da minha mãe”, conta, ao falar de um dos momentos de maior tensão vividos por ele em meio ao terremoto: não encontrar sua família e só ficar tranquilo após achar seus familiares.

O Pérolas vem disputando o Campeonato Carioca profissional da série C, mas Badio não pode jogar por ainda não ter 18 anos completos, e a lei é muito rígida quanto a menores estrangeiros. Eles não podem atuar em ligas profissionais antes de atingir a maioridade. Enquanto isso, ele se permite sonhar e demonstra vontade ao dizer que se espelha no seu ídolo, o também zagueiro David Luiz, do time inglês Chelsea.

Assim como Badio, outros sonham com as mesmas oportunidades, consequência de um país muito carente de tudo. “Muitos meninos perderam muito durante a vida”, diz o técnico da equipe profissional, Rafael Novaes Dias. Ele acrescenta ainda que o projeto abriu um leque para brasileiros também. Vindos de diferentes regiões do país, esses meninos recebem igualmente oportunidade de educação e especialização profissional. E ocupam cerca de 70% a 80% do time.

Um deles é Pedro Thomaz, de 17 anos, de Juiz de Fora-MG. O meio de campo já faz parte da liga profissional, apesar da idade. É estudioso, focado e responsável. Seu principal objetivo é ser jogador profissional, mas conta que tem vontade também de estudar para ser professor de Educação Física. O camisa 8 está há um ano e quatro meses no programa e conta que o mesmo professor que deu aula para ele em uma escolinha em MG lembrou dele quando entrou para o projeto e o chamou.

Pedrinho, carinhosamente chamado assim por seus colegas, diz que quando conheceu os haitianos, o maior obstáculo era a língua. Depois percebeu que os meninos tentavam interagir, eram brincalhões e amigáveis. Aprendeu com o tempo não só um pouco de crioule – língua oficial- como também entendeu algo mais importante: apesar das brincadeiras, o respeito é algo muito cultivado.

Essa questão da língua é um problema apenas no início, conta Paula Martins Melo, analista educacional, uma espécie de mãezona dos meninos. Ela estuda com eles Português, Inglês, Geografia, Cultura Brasileira, História, Biologia, entre outras disciplinas. Explica que aqueles que conseguem ter determinado nível de Português, além da monitoria, frequentam a escola pública da região, têm aulas, grades e boletins normais.

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Ela comparece a todos os conselhos de classe, faz acompanhamentos personalizados e tenta conciliar um calendário conflitante entre jogos e provas. Diz também que o Pérolas procura não uma produção em massa de meninos formados, mas sim gerar oportunidades. Ela tenta sempre trabalhar junto com o projeto a individualidade de cada um. Por exemplo, em oficinas, cada um se inscreve na área de seu interesse e ninguém é obrigado a eleger só um determinado tipo de curso.

As aulas lecionadas por Paula no Pérolas têm duração de quatro horas diárias, cada dia abordando um tipo de matéria. Diz ainda que inclui nos conteúdos  alguma forma de ensinar os meninos a paquerar. E brinca dizendo ser um quesito importante para os garotos. Ela tenta sempre se aproximar deles. Conhecendo eles aos poucos, sabe quem gosta de poesia, música, dança, e, a partir dos gostos deles,  ensina o que precisam saber.

Agora ela está usando o método de mídia training, no qual ela grava os meninos e são feitas algumas perguntas pré elaboradas, com respostas pré decoradas também (porém com verdades) e monta essas entrevistas alternando entre lugares calmos e barulhentos. O entrevistado pode ser tanto um colega ou ela mesma. Isso ajuda não só na evolução para fluência da língua, como também serve de treinamento para quando tiverem que dar entrevistas após jogos cansativos e decisivos.

Falante, bem comunicativo e com um português de dar inveja a qualquer brasileiro, Jean Louis Anel, 18 anos e volante da equipe, está há um ano e seis meses no Brasil. E prova que a língua não é problema para esses refugiados. “Desde o Haiti eu já venho estudando, porque já estava sonhando com o dia em que viria ao Brasil”. Foi assim que Anel mostrou desenvoltura em dar entrevista na sua primeira vinda ao país. Ele conta que morava com sua família em uma cidade próximo da capital e jogava bola todo dia. Assim surgiu a oportunidade de fazer o teste no Viva Rio. Naquele dia ele foi o único escolhido pelo técnico Rafael e desde 2011 joga pelo time.

Ao falar de sua família, ele lembra de seus quatro irmãos, sua irmã, mãe e de seu pai já falecido e de como foi o trágico terremoto. “Eu estava jogando bola”, lembra. O cenário era de vários edifícios, casas, escolas quebradas e muita gente morrendo. Jean Louis conta da importância desse projeto em sua vida, dando uma oportunidade de estudar e jogar futebol, algo que no Haiti seria muito difícil.

O impacto positivo que o projeto levou para esses jovens é impressionante, dando um novo rumo à vida deles, tanto aqueles que vieram ao Brasil quanto os que ficaram no Haiti, com objetivo de, acima de tudo, agregar valores para esses meninos. O esporte não só se faz importante como apenas uma atividade física ou um meio de alcançar qualidade de vida: é uma ferramenta social capaz de ajudar e unir diferentes pessoas em torno de objetivos comuns.


Fernanda Macedo M. Monteiro e Letícia Heffer da C. Manduca 

*Reportagem realizada para o Projeto Interdisciplinar em Jornalismo I – Impresso.

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