A cada 2 segundos, uma mulher é vítima de violência no Brasil

Números de casos de estupro e agressão impressionam e especialistas defendem a abordagem do tema na TV aberta

As telenovelas já são reconhecidamente um traço importante da cultura brasileira, até mesmo no exterior. Ao longo dos anos, viu-se histórias de personagens e temas abordados por elas caírem na boca do povo. E quando uma trama do horário nobre da Rede Globo – a maior emissora do Brasil e uma das maiores do mundo – toca em um assunto que ainda possui feridas abertas na sociedade e está em voga, os dramas reais vividos pelas pessoas fictícias se tornam trending topics nacionais – o exemplo mais recente disso foi o folhetim “A Força do Querer”, que abordou a transsexualidade por meio da personagem Ivana/Ivan. Agora, “O Outro Lado do Paraíso” – sucessora da trama de Glória Perez -, escrita por Walcyr Carrasco, trouxe à baila outra discussão social pertinente: a violência contra a mulher. Na novela das nove, a protagonista, Clara, interpretada pela atriz Bianca Bin, sofreu agressões de seu cônjuge, Gael (Sérgio Guinzé), no início da novela. A cena de estupro da personagem na noite de núpcias do casal, exibida em 24 de outubro, no segundo capítulo, chocou o público e dividiu opiniões acerca da necessidade da sequência, nas redes sociais.

O assunto não é novo, porém ainda deve ser discutido e a mídia é um dos principais meios para isso, como afirma a doutoranda em Direito Penal pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Roberta Lussac, que atua na área de Direitos Humanos e Estudos de Gênero e Diversidade. “É uma excelente ferramenta de difusão de ideias e tem relevante papel de influência no pensamento social. A partir da mídia, muitos assuntos deixam de ser tabus e passam a ser problematizados pela sociedade. Este é o primeiro passo para a transformação”Além disso, Roberta também fala sobre a polêmica envolvendo o termo “estupro” para descrever a cena; ela explica a definição deste tipo de crime, de acordo com o código penal. Pela lei, o estupro é caracterizado pelo ato sexual não consentido, mesmo que por parte do marido, namorado, noivo ou qualquer outra pessoa com quem a vítima se relacione. “De acordo com o Código Penal, o crime de estupro é tipificado como o ato de ‘Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso’, independente de este constrangimento ocorrer no seio do matrimônio ou não”.

TRISTE QUADRO. Números de violência contra a mulher atualizados o tempo todo. Reprodução da internet

Números de violência contra a mulher atualizados o tempo todo. Imagem: reprodução

E os dados numéricos sobre a violência contra a mulher impressionam. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1 estupro a cada 11 minutos em 2015. Além disso, apesar de as estimativas não serem precisas, calcula-se que estes sejam apenas 10% do total de casos, ou seja, o Brasil pode ter uma média de meio milhão de estupros por ano; e somente 15,7% dos acusados foram presos, de acordo com dados do estado de São Paulo obtidos pelo portal G1, referente aos meses de janeiro a julho de 2017. A cada 7,2 segundos uma mulher sofre violência física, conforme aponta o Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha; o Mapa da Violência de 2015 revelou que, no ano de 2013, treze mulheres morreram por dia vítimas de feminicídio e cerca de 30% delas foram mortas pelo próprio parceiro ou ex – este número representa um aumento de 21% em relação à década anterior. O Mapa também registra que o número de mulheres negras assassinadas aumentou 54%. A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou em 2015 o total de 749.024 atendimentos, ou seja, 1 atendimento a cada 42 segundos. Desde sua criação, em 2005, o órgão já realizou cerca de 5 milhões de atendimentos. Na pesquisa “Percepção da Sociedade sobre a Violência e Assassinatos de Mulheres”, de 2013, feita pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Data Popular, 54% dos entrevistados afirmaram conhecer uma mulher que já foi agredida pelo parceiro, em todas as classes sociais.

E o caso de Laura (a pedido da entrevistada, o nome foi alterado), 24, mostra bem isso. Administradora, moradora do bairro de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Laura sempre foi de classe média alta, estudou em instituições particulares e, como conta, nunca pensou que passaria por um relacionamento abusivo. “A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, né? As pessoas têm aquela ideia do marido bêbado e da dona de casa, acham que esse tipo de coisa só acontece nas classes mais baixas, mas não é verdade”, afirma. Ela conta que, há três anos, iniciou um relacionamento com um rapaz de 23 anos que conheceu em um aplicativo de relacionamento. “Enquanto estávamos nos conhecendo, ele era ótimo: educado, gentil, inteligente. Depois de uns dois meses saindo, começamos a namorar”. Algumas semanas após o início do namoro, Laura começou a perceber uma mudança de comportamento do namorado. “Ele me mandava mensagem de hora em hora querendo saber onde eu estava, com quem eu estava, falava para eu mandar fotos para provar que estava falando a verdade”.

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Maria da Penha. Foto: reprodução da internet

Além disso, o jovem também não gostava que Laura tivesse amigos homens e mulheres solteiras. “Sempre que eu marcava algum compromisso com os meus amigos, eu fazia questão que ele fosse, para fazer parte do grupo também, mas todas as vezes que ele foi não acabaram bem. Ou ele brigava com alguém, ou a gente acaba brigando. E, com o tempo, as nossas discussões passaram a ficar mais violentas”. Laura também lembra que, por conta do comportamento do namorado, passou a ficar cada vez mais reclusa. “Sempre que me chamavam para um evento, eu inventava uma desculpa ou nem respondia, só para evitar uma nova briga”. Mesmo assim, houve episódios em que a jovem foi agredida fisicamente. “Em uma das nossas discussões ele me puxou pelo braço e me sacudiu”, conta Laura que ficou com um hematoma nos membros superiores.

O namoro, que durou sete meses e meio, havia chegado ao fim, mas o rapaz continuava procurando e importunando a ex. A situação só chegou ao fim quando o irmão da jovem confrontou o rapaz. “Ainda sinto vergonha por ter deixado a situação chegar onde chegou. Hoje eu vejo que ele é só um covarde. Bastou aparecer um outro homem do mesmo tamanho que ele para que parasse de vir atrás de mim”. A jovem também conta que, desde então, nunca mais esteve em um relacionamento. “Primeiro, eu resolvi tirar um tempo para mim mesma. Nesse meio tempo, de lá para cá, até conheci alguns caras legais, mas não sei se estou preparada para entrar em um novo relacionamento”. Sobre a discussão a respeito da violência contra mulher na televisão, Laura afirma que o assunto deve ser debatido. “É importante mostrar para as pessoas que a violência de gênero ainda é uma ferida aberta na sociedade”.

O caso de Laura chegou ao ponto da agressão física, mas estes não são os únicos tipos de violência vividos por mulheres em relacionamentos abusivos. Segundo o portal do Governo do Brasil, estão tipificados como tipos de violência: humilhar, xingar e diminuir a autoestima; expôr a vida íntima; impedir a mulher de prevenir a gravidez ou obrigá-la a abordar; fazer a mulher achar que está ficando louca – prática conhecida como gaslighting -; controlar e oprimir a mulher; tirar a liberdade de crença; atirar objetos, sacudir ou apertar os braços; forçar atos sexuais desconfortáveis; controlar o dinheiro ou reter documentos e quebrar objetos da mulher. “A Lei Maria da Penha prevê ainda violência psicológica, violência sexual, violência patrimonial e violência moral”, lembra Roberta.

Aliás, a doutoranda ressalta os avanços proporcionados pela lei. De acordo com Roberta, a sanção retirou a violência doméstica e familiar contra a mulher da invisibilidade. “Em razão de ser o Brasil um país extremamente machista e misógino, a violência doméstica e familiar contra a mulher sempre foi naturalizada e, por isso, invisibilizada pela sociedade.  As pessoas sempre se comportaram conforme o ditado: ‘em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’. Muitas mulheres morreram em razão da normalização desta violência”. Ela também afirma que a Lei Maria da Penha, portanto, abriu espaço para o diálogo e a reflexão a respeito desta forma de violência e empoderou mulheres para que denunciassem seus agressores”.

Apesar disso, Roberta reitera que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que a violência contra a mulher deixe de ser uma realidade. “Há uma forte demanda pela produção de políticas públicas em favor das mulheres, com o objetivo de vencer as desigualdades de gênero – medidas referentes à divisão sexual do trabalho, à sobrecarga das mulheres em razão da maternidade, à necessidade de inserção das mulheres nos espaços públicos e políticos de tomada de decisão e medidas contra a objetificação do corpo feminino estão entre as mais urgentes. Para isso, Roberta destaca, a prática da sororidade tem sido essencial. “A boa notícia é que o feminismo tem conquistado cada vez mais espaço e adeptas. Cada vez mais mulheres se declaram feministas e se conscientizam do papel secundário que ocupam na sociedade e no Estado, a despeito do papel de protagonista no ambiente familiar. Estamos lutando para conquistar a tão sonhada igualdade. Isso leva tempo, mas estamos no caminho”, afirma a doutoranda, lembrando que, hoje em dia, as mulheres se sentem mais seguras para denunciar uma agressão. “A lei prevê as chamadas ‘medidas protetivas de urgência’, que são aplicadas após a denúncia de agressão feita pela vítima à Delegacia de Polícia, cabendo ao juiz determinar a execução desse mecanismo em até 48 horas após o recebimento do pedido da vítima ou do Ministério Público”.

A estudante Clara Oliveira, 22, conta que estava com 19 anos quando começou a se relacionar com o seu primeiro namorado. Por não gostar de usar preservativo, ele a obrigava a tomar anticoncepcionais. A jovem fala que nunca gostou de tomar anticoncepcionais por eles serem “bombas de hormônio”. Entre os efeitos colaterais das pílulas, estão mudanças de humor, acne, ganho de peso, além do risco de causarem trombose, por exemplo. “Mesmo assim, ele me obrigava a tomar e eu aceitava. Era o meu primeiro relacionamento sério e eu fazia de tudo para manter isso”.

Além disso, Clara também teve sua autoestima minada pelo rapaz. “Quando eu comecei a ganhar peso por causa do anticoncepcional, ele dizia que eu estava ficando feia, que se a gente terminasse, ninguém iria olhar para mim, o que me levou a desenvolver distúrbios alimentares. Tudo que eu fazia, ele dizia que estava ruim, que eu não sabia fazer nada direito. Ele criticava tudo, desde cabelo e roupa até minhas atitudes, meus trabalhos no curso que eu fazia na época”, conta. O relacionamento teve um fim, seis meses depois do início, por interferência na mãe da jovem, que percebeu que a filha estava ficando doente física e emocionalmente. “Ela percebeu que eu tinha me transformado em uma pessoa completamente diferente, que tinha perdido a alegria de viver, depressiva, que estava prejudicando até a própria saúde”.

Atualmente, Clara está em um relacionamento há oito meses com um amigo de infância com o qual ela não tinha contato havia quase dez anos. “Foi totalmente por acaso. Um dia, ele me achou nas redes sociais e nós começamos a conversar e estamos juntos até hoje. Minha família adora ele”. A jovem também conta que ainda faz acompanhamento psicológico por conta dos problemas que desenvolveu no primeiro relacionamento. “É ótimo! Estou conseguindo recuperar a minha autoestima, tratar os meus distúrbios e me compreender melhor, saber o que eu quero e o que eu não quero, o que é bom para mim e o que não é”. Clara afirma que levar a violência contra a mulher para o horário nobre da televisão aberta é necessário e deve ser encarado com seriedade. “É preciso fazer todo o possível para que a sociedade pare de ver a violência contra a mulher como algo normal, aceitável ou perdoável”.


Daniel Deroza – 6º período

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