Um conto de solidão: afetividade e preterimento da mulher negra

Era uma tarde ensolarada de setembro. Uma despedida do inverno. O encontro já estava marcado. Em breve ela chegaria para uma conversa. Alguns minutos de espera, uma ligação e lá estava ela. Aos poucos, foi se aproximando, até que o assunto pôde, enfim, começar. O cenário: a orla do Gragoatá, um dos campi da Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

Seu rosto estava marcado por um belo sorriso. Sua expressão mostrava a incerteza do que estava por vir, junto ao alívio por ser ouvida. O assunto era delicado. Nem todas as mulheres negras se sentem à vontade para falar abertamente sobre sua vida afetiva, sua solidão e suas experiências. Mas ali em frente estava uma mulher forte, corajosa e disposta a contar tudo por que já havia passado, pronta a se abrir e dizer o que guardava em seu coração. Quem é ela? Rosana Miranda. A Rosa.

Quem é Rosa?

Seu nome é Rosana, mas escolheu ser lembrada como uma flor. Rosa tem uma personalidade forte. É teimosa, mas muito justa. Gosta sempre de ajudar ao próximo, independentemente de quem seja. Escolheu ser feliz acima de tudo e aproveitar a vida ao máximo. Afinal, ela é tão passageira.

É oriunda do Centro da cidade do Rio de Janeiro, mas foi criada em Ramos, na Zona Norte. Rosa é sonhadora e seus sonhos já a levaram longe. Aos 36 anos, é a primeira mulher negra Licenciada em Cinema no Mundo. No curso, era a única negra da sala. Hoje fica feliz ao ver como o número de negros têm crescido na universidade.

Rosa já alcançou muitas conquistas, mas nenhuma delas veio fácil. Aliás, sua vida nunca foi fácil. Principalmente quando o assunto é sua solidão e sua afetividade. Apesar dos sorrisos, ela carrega na pele o peso da rejeição e do preterimento sofrido em seus relacionamentos por ser negra.

A solidão de Rosa

A solidão de Rosa está em ter várias pessoas em volta, mas mesmo assim se sentir sozinha. Ela surge quando precisa de alguém, mas não tem com quem contar. E, principalmente, em não ter um ombro para chorar ou alguém para ouvi-la.

– Na maioria das vezes eu me sinto muito sozinha e não importa se estou me relacionando com alguém ou não – diz Rosa.

E quando o assunto são os seus relacionamentos amorosos, ela sente essa solidão de maneira bem mais forte. Mas Rosa não está sozinha. Sua vida reflete a condição de milhares de mulheres negras espalhadas pelo Brasil. Uma realidade que o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, ajuda a revelar: 52,2% das mulheres negras brasileiras não vivem em união com alguém, independentemente do seu estado civil. No Estado do Rio de Janeiro, 50% das mulheres negras, na faixa dos 18 aos 80 anos, estão solteiras, divorciadas, viúvas ou desquitadas.

A história de solidão dessas mulheres não é recente, mas sim histórica, tendo sua origem desde os períodos escravocratas. A historiadora Fernanda Barroso explica que as escravas eram separadas de suas famílias e tinham seus filhos vendidos. Elas sofriam um quadro de afastamento familiar e de solidão, somados à esperança de um reencontro. Esse passado se reflete até hoje em suas relações. Essas mulheres negras ainda se deparam com um inconsciente coletivo racista, segregador e carregado de estereótipos, atrelado ao seu passado de escravidão, de submissão e de violência doméstica.

Os aspectos dessa solidão estiveram presentes em todos os relacionamentos de Rosa. Ao todo, ela se casou três vezes e todas com homens negros. Mas nenhum deles deu certo.

– O fato de eu estar sozinha nunca foi uma opção. Eu tive três casamentos e neles eu me sentia só em muitos momentos.

Aos 19 anos Rosa se casou pela primeira vez. Desde o começo estava decidida sobre o que iria fazer. Mas o que ela não sabia é que o que estaria por vir não seria nada fácil.

Rosa se casou três vezes mas se sentiu sozinha em todos eles. Foto: Nincow Luciano/arquivo pessoal

Rosa se casou três vezes, mas sempre se sentiu sozinha. Foto: Nincow Luciano / Arquivo pessoal

Primeiro casamento: a falta de amor

Início dos anos 2000. Um novo século começava e com ele as incertezas do que estaria por vir. Foi nesse novo momento que Rosa decidiu dar um grande e importante passo em sua vida: casar. Aos 19 anos se casou com seu melhor amigo. Nada poderia dar errado, afinal, já se conheciam bem. Pelo menos era o que ela acreditava. Mas Rosa não poderia imaginar tudo o que estaria para acontecer.

Algo parecia estranho nesse relacionamento. Estava casada com um homem que não sentia desejo por ela. Aos poucos, isso fez tão mal a sua autoestima que Rosa entrou em depressão. Não se sentia desejada. Tomava remédios para dormir e para acordar. Seu escape estava na academia. Em sua cabeça, precisava emagrecer, pensava que o problema era com ela. Então, era melhor se cuidar.

O tempo foi passando e seus artifícios de nada funcionavam. Rosa sentia essa rejeição de uma maneira muito forte e isso agravou ainda mais a depressão. Ela chegou a tentar suicídio algumas vezes, mas todas as tentativas não seguiram em frente. Um dia, ao acordar, pegou seis remédios e os colocou em sua mão. Estava pronta para tomar todos de uma vez, sem pensar nas consequências. Nesse momento, como um sussurro em seu ouvido, se deu conta do que estava prestes a tentar:

– Eu não posso fazer isso comigo! – ela pensou.

Após inúmeras dúvidas e até mesmo o pensamento em tirar sua própria vida, Rosa decidiu terminar seu casamento, sem saber ao certo o que estava acontecendo. Ela estava depressiva. Seu marido não conseguia ter nenhum tipo de intimidade com ela e não tinha coragem de explicar o que estava acontecendo. Tudo isso mexia com Rosa e ela não aguentou. O casamento acabou e ela decidiu ir embora.

Anos depois, em um evento na quadra da Beija-flor de Nilópolis, os dois se reencontraram. Foi nesse momento que Rosa finalmente descobriu o que se passava durante aqueles anos todos. Seu ex-marido era homossexual e naquela época já estava com alguém, mas nunca conseguiu dizer isso. De imediato, ela não recebeu bem a notícia, se sentiu traída.

– Eu me senti mal pela infidelidade que ele teve comigo durante o nosso casamento, por não me contar o que estava acontecendo de verdade.

Mas Rosa não guardou essas mágoas por muito tempo. Logo aquela ferida não existia mais. Ela o perdoou e os dois puderam reatar a amizade que outrora haviam tido.

Segundo casamento: a violência doméstica

– Esse foi o capeta na minha vida! – desabafa.

Quatro anos após o primeiro casamento, Rosa se casou pela segunda vez, com 23 anos. Os dois se conheceram pela internet. Depois de algumas conversas, decidiram marcar o primeiro encontro, que aconteceu na praia. Quando ela chegou, e olhou aquele homem negro a sua espera, logo se interessou. O tempo foi passando e os dois começaram a namorar.

Ainda no terceiro mês de relacionamento, ele passou a apresentar um comportamento bem diferente do habitual. Foi quando agrediu Rosa pela primeira vez, batendo a cabeça dela em um poste. Ela ficou assustada, mas nada fez. Sentia vergonha e não queria falar para ninguém o que havia acontecido. Ela preferiu acreditar que isso não aconteceria novamente. Nesse momento, o silêncio foi sua maior companhia.

Um ano se passou, até que os dois decidiram morar juntos. Rosa escolheu casar, achava que tudo seria diferente.  Então, foi até sua mãe contar a decisão:

– Mãe, vou casar com ele.

Sua mãe, sem receber bem a notícia, respondeu:

– Ah, você vai sim. Mas você vai agora, porque aqui não fica mais!

–- Mas mãe, ele vai melhorar.

– Eu já falei para você sair disso, Rosa. Mas se é o que quer … Vai. Vai agora!

Rosa pegou suas coisas e saiu de casa. Acontece que os dois ainda não tinham onde morar. Nessas condições, encontraram uma única solução: a rua. Essa foi a residência do casal durante uma semana, até conseguirem uma casa. A situação não estava fácil. Para se limpar para ir ao trabalho, Rosa se banhava na água do mar.

Enfim conseguiram um lugar para morar, mas nada melhorou. Os comportamentos agressivos de seu marido eram cada vez mais constantes. Até que um dia, aconteceu algo que poderia mudar a história deles e trazer alegria ao relacionamento. Rosa foi até seu encontro, estava ansiosa, tinha algo muito importante a dizer:

– Preciso te contar uma coisa…

– O que é? Diz!

– Estou grávida! A alegria pareceu ser imediata, era motivo de comemoração:

– O quê? Você está falando sério? Que maravilha! Nós precisamos comemorar! Olha, eu tenho que sair agora, mas faz uma comida bem gostosa para gente, vamos comemorar mais tarde quando eu chegar.

Assim Rosa fez. Em sua barriga, ainda com 1 mês e 20 dias, estava aquele ser que poderia mudar seu casamento. Mais tarde, enquanto preparava a comida, ouviu um barulho muito forte na porta. Alguém estava batendo. E batendo muito.

– Abre essa porta! Por que está demorando tanto? Tem alguém aí com você?!

Seu marido havia voltado. Estava completamente alterado. O medo tomou conta de Rosa novamente. Ele entrou, totalmente diferente de como estava antes, e a agrediu grávida.

– Eu estou sangrando, me ajuda!

– Levanta sozinha! – ele falou.

A casa onde moravam ficava próxima ao hospital do Andaraí. Rosa foi andando até lá, sozinha. Ao ser atendida, descobriu o pior: ela havia perdido seu bebê. Mesmo com essa notícia, o comportamento dele não mudou, pelo contrário, a situação ficou ainda pior. Ele a agredia, física e psicologicamente, e no dia seguinte se apresentava como outra pessoa, calmo e carinhoso. Levava flores e até café da manhã na cama, mas logo a tortura começava novamente:

– Da próxima vez vai ter chumbinho nesse café. Viu o preço do chumbinho? Tá barato!

Rosa foi vítima de violência doméstica durante três anos. O caso terminou quando ela saiu de casa. Chegou um momento em que não aguentava mais tudo por que estava passando. Certo dia, foi para cima dele. Ela reagiu. Quebrou seu nariz e seus dentes.  Ele não quis deixar barato, como vingança, queimou todas as roupas e os documentos dela. E foi em meio a essa situação que Rosa resolveu dar um basta nesse relacionamento. Saiu de casa para refazer sua vida e foi morar com sua mãe em Brasília.

A violência doméstica contra mulheres negras como Rosa tem números expressivos. O Mapa da Violência de 2015 identificou que, entre os anos de 2003 e 2013, cresceu em 190% a violência contra a mulher negra. Isso quer dizer que, em dez anos, houve um aumento de 1.864, para 2.875 negras violentadas. As agressões são praticadas por pessoas próximas à vítima, como parceiros e ex-parceiros. Nem mesmo com a Lei Maria da Penha o número de negras agredidas diminuiu. Ele aumentou em 35%. Em contrapartida, a violência contra mulheres brancas caiu de 1.747 para 1.576.

Terceiro casamento: o relacionamento abusivo

No terceiro casamento Rosa estava com 28 anos.  Foi em um aniversário de uma amiga que conheceu o rapaz, ele era mais novo que ela. Nessa época, Rosa estava bem de vida. Trabalhava em uma boa empresa e ganhava o suficiente para sustentar a casa sozinha. Era o que fazia. Seu marido somente estudava. Eles tinham um bom relacionamento e um companheirismo. Mas uma coisa não deixava Rosa feliz em sua vida: seu trabalho. Ela ganhava bem. Trabalhava bem. Não tinha do que reclamar. Mas não estava satisfeita com o que fazia. O que ela gostava mesmo era de contar histórias, de fazer filme. Foi então que conheceu o processo seletivo para o curso de Licenciatura em Cinema na UFF, mas ela acreditava que não deveria tentar:

– Eu não vou. Não sou capaz de conseguir – disse para seu marido.

– Você vai tentar sim, sabe por quê? Eu paguei a inscrição para você.

O sonho de Rosa não seria deixado de lado. O resultado saiu e ela passou para a primeira turma de Licenciatura em Cinema do Mundo. Sua vida foi mudando e as oportunidades foram surgindo. Até que recebeu o primeiro convite para dar aula. Ela precisava escolher entre o trabalho, no qual ganhava muito bem, e dar aulas pelas quais receberia menos.

– Você vai fazer isso, sair do seu trabalho e dar aula para ganhar 200 reais? – questionou seu marido.

– Meu amor, entenda uma coisa: quando eu saio de um lugar as portas não se fecham para mim. Elas ficam arreganhadas. Então, se lá não der certo e eu quiser voltar, eu vou voltar.

Rosa não voltou. Seguiu seu sonho.

Aos poucos o relacionamento dos dois foi mudando. Antes, era ela quem sustentava a casa, mas quando a situação se inverteu, ele não reagiu bem. Até que Rosa resolveu dar um basta em tudo e um belo dia resolveu mudar. Se levantou. Estava decidida. Pegou suas malas, colocou suas coisas dentro e se preparou para sair:

– Estou indo, tá?

– Para onde?

– Para a casa do meu pai.

– E volta quando?

– Não volto.

– Eu acho que a gente entrou em uma rotina mesmo. Vamos dar um tempo e a gente vê se volta depois.

Rosa não retornou.

O preterimento e a autoestima da mulher negra

Um dos estigmas relacionados à solidão afetiva da mulher negra está relacionado ao preterimento do homem negro, ao trocá-la por uma mulher branca. Ao longo de sua vida, Rosa também passou por situações como essas. Sempre encontrou na sua cor um empecilho para se relacionar afetivamente. Para ela, lidar com isso nunca foi algo fácil:

– Você estar em uma noite com as amigas e ser preterida é cruel. E isso sempre aconteceu comigo. Eu achava que era por eu ser feia, mas não. É porque a mulher negra não é vista para casar, namorar ou ter uma família, mas sim para servir.

Rosa nunca pensou muito ao tentar se aproximar de alguém de quem gostasse. Corajosa, sempre foi em frente para dizer seus interesses, mas dificilmente conseguia aquilo que queria. Escutava do próprio homem negro desculpas para explicar por que aquela aproximação não poderia acontecer:

– Ah, não vai rolar, né? O negócio é clarear – respondia um.

– Não dá para ficar com você, não curto muito seu estilo – explicava o outro.

Para Rosa, encarar esse preterimento causava dor, era como mexer em uma ferida que nunca cicatrizava.

– Isso pesava demais para mim. Já terminaram comigo várias vezes para ficarem com uma mulher branca.

Nos seus três casamentos, Rosa foi trocada por mulheres brancas duas vezes. Ela via uma diferença grande em como os homens negros a tratavam e em como eles se relacionavam com as outras.

– Eu sempre vi essa diferença gritante. Elas são tratadas com um cavalheirismo que nós, mulheres negras, não recebemos. Nunca falaram para mim “deixa eu levar sua bolsa, está pesado”, ainda mais eu que sou gorda. Sou vista como alguém que aguenta essa carga. Mas eu sou mulher, um ser humano, também preciso de cuidado. Eu quero sim, que peguem minha bolsa e levem, por que não?!

Em todos os relacionamentos que teve com homens negros e os dois com homens brancos, ela percebia essa diferença. Se por um lado Rosa sofria a rejeição do homem negro, por outro, ao se relacionar com um branco, sentia um outro tipo de tratamento. O cuidado era muito melhor, seus ex-namorados eram companheiros, proativos e sempre ajudaram Rosa no que ela precisasse. Mas os problemas apareciam na hora apresentá-la à família. Nesse momento, a diferença de cor se tornava um obstáculo:

– Olha, minha família é branca, releva. Tudo bem? – disse um de seus namorados brancos.

– Eu que tenho que relevar? Essas diferenças que sempre aparecem. O tratamento do homem negro com a mulher negra é como se ela fosse como um homem negro para ele. E o branco, quando se relaciona com a preta, diz que faz tudo por ela, mas na hora de apresentar para outros é sempre um problema.

Esse preterimento e essa solidão afetiva presentes na vida das mulheres negras trazem como consequências psicológicas impactos que afetam diretamente sua autoestima. As mulheres apresentam-se ao social com mais insegurança, tanto no que tange a sua aparência física, quanto no que se refere ao seu conhecimento intelectual. Um sentimento que pode ser explicado pela psicologia:

– As mulheres negras dificilmente se reconhecem inteligentes o bastante para terem a sua fala respeitada e capazes de serem aceitas nos espaços em que frequentam ou, até mesmo, bonitas e qualificadas o bastante para serem amadas – explica a psicóloga Jennefer Neves.

O fato de não aceitarem sua aparência e a precariedade afetiva que encontram ocasionam um sofrimento significativo, que vai além da esfera das relações afetivas. O resultado não poderia ser outro: as mulheres negras ficam presas em situações abusivas, presentes em empregos e em relacionamentos tóxicos.

“Preta, macaca!”

A discriminação e o racismo fazem parte da vida de Rosa desde pequena, em momentos que deixam marcas até hoje. Como esquecer das festas juninas da escola? Para Rosa, aquele momento era uma tortura. Ela participava das festividades, vendia todas as suas rifas, se arrumava, colocava seu vestido e sua maria chiquinha. As pintinhas no rosto não poderiam faltar. Estava sempre pronta, linda. Mas não para as outras pessoas.

Uma vez, chegando ao colégio, lá estavam as meninas na festa, todas juntas e arrumadas. Rosa estava lá também. Os adultos chegavam e apreciavam a graciosidade de cada uma delas:

– Você está linda! – falavam para a primeira.

– Ah, que graça de menina! – elogiavam a outra.

Rosa ficava olhando. Não chegaria a sua vez?

– Menina, você também é bonita. Não deixe ninguém falar que você não é. Acredite! Confie! – falavam assim, dando uma batidinha em seu ombro, como forma de consolo.

– O tempo todo, nós negras, somos permeadas por esse pensamento de que não somos bonitas. E não somos desde pequenas. Não é só quando começamos a nos relacionar com uma pessoa – desabafa Rosa.

Em sua vida algumas marcas machucaram muito, em situações que, para outros, poderiam não significar nada. Rosa lembra o quanto se privava de fazer coisas simples do seu dia a dia, como comer. Hoje, um de seus traumas é pegar banana na frente das pessoas, com medo de ser chamada de macaca novamente.

– Até hoje, no bandejão da faculdade, eu não como a banana quando vejo. Eu amo banana! Mas fico muito sem graça. Porque na escola eu pegava uma comida, uma fruta, e as pessoas começavam a me chamar de macaca.

Rosa lembra disso com lágrimas nos olhos. É difícil conter o choro. As lembranças doem. Quando pequena Rosa ainda apanhava das outras crianças na escola. Era chamada de macumbeira e de todas as outras palavras pejorativas usadas ao se referir a uma pessoa negra. Chegando em casa, ainda levava broncas da sua avó, que não aceitava que ela passasse por isso sem fazer nada:

– Se você apanhar na escola vai apanhar de novo de mim quando chegar em casa! – dizia sua avó.

O jeito era se defender. Revidar e bater também. Mas toda essa proteção não adiantava, porque nada seria capaz de cicatrizar a ferida que se formava lá dentro, no coração de uma criança, que sofria por não ser aceita da sua maneira, com sua cor, seu cabelo, seu jeito.

Rosa quando criança na década de 80. Foto: Arquivo pessoal

Rosa quando criança na década de 1980. Foto: Arquivo pessoal

De frente para o espelho

O fim da tarde já havia chegado, a conversa estava perto de terminar. A história de Rosa não é só dela, é a realidade de muitas mulheres negras que ainda enfrentam o preterimento, a rejeição e a dificuldade de relacionamento por causa de sua cor. A trajetória de Rosa não foi fácil e, em alguns momentos, a solidão se fez muito presente. Mas ela não quis se entregar. Reconheceu tudo o que já passou e o que ainda poderá passar em seus relacionamentos afetivos. Mas escolheu viver, acima de tudo, por ela.

Rosa traçou o seu caminho para ser feliz. Começou a fazer terapia para não enlouquecer. Buscou meios, financeiros e psicológicos, para tornar a sua vida melhor. Aprendeu a se amar. Em um encontro com o seu velho amigo espelho, se reconheceu uma pessoa maravilhosa, digna de amor, carinho e atenção. A partir de então sua vida começou a mudar.

– Eu demorei muito para ter um resgate da minha autoestima. Hoje eu me olho no espelho e vejo que não estou tão gorda quanto eu imaginava. Quando as pessoas chegam e dizem que eu devo emagrecer, eu penso: devo mesmo? Estou me sentindo tão bem assim, estou bem com o meu corpo.

Com os “nãos” que já levou na vida, Rosa chegou a esmorecer e a acreditar que não era feliz, menos ainda, bonita e que não merecia alguém ao seu lado, que cuidasse e gostasse dela de verdade. Mas resgatar sua autoestima ajudou a compreender quem ela realmente é e a se amar.

– Eu mudei muito a minha postura, direcionei toda a minha vida para ser feliz e para poder fazer alguém feliz – diz, contente por sua escolha.

Ela segue confiante. Não desistiu de ter alguém ao seu lado. Hoje procurar um relacionamento com cumplicidade, alguém que some em sua vida e que tenha amor:

– Eu procuro um amor incondicional, alguém que ame até os meus defeitos, porque se a pessoa conseguir me amar e rir até deles e me ajudar a ser melhor, eu vou me relacionar com essa pessoa com certeza.

A história de Rosa reflete a realidade de mulheres negras que passam por diferentes tipos de solidão. Elas se escondem por trás de uma realidade de preconceito e de rejeição. A solidão afetiva da mulher negra é real. E muitas são as vítimas de uma sociedade que dita o padrão correto a seguir e qual deve ser o seu lugar.

A porcentagem de negras no Rio de Janeiro sem qualquer tipo de união é apenas uma parte de um número muito maior. Mas hoje existem mulheres que se emponderam e lutam por essa causa. Entender essa solidão é compreender a necessidade de atenção para se discutir mais sobre o assunto, se aprofundar e ver que negras, como Rosa, existem e não devem ser ignoradas.

– A gente segue confiante e sempre denunciando. A visibilidade é uma arma. Enquanto ficarmos nos omitindo não vamos conseguir chegar a lugar nenhum. Temos que enfrentar – afirma Rosa, certa de que a luta não terminou. Ela é apenas o começo.

Rosa durante um ensaio fotográfico com maquiagem africana. Foto: Nincow Luciano / Arquivo pessoal

Rosa posa em ensaio fotográfico com maquiagem africana. Foto: Nincow Luciano / Arquivo pessoal

Outras histórias, a mesma solidão

Com o intuito de mostrar que Rosa não está sozinha, algumas mulheres negras se apresentaram durante a apuração da reportagem. E nesse sentido, deixá-las de fora seria calar as suas vozes, ainda que Rosa fosse o nosso exemplo maior. Essas histórias ilustram a realidade dos dados numéricos. São mulheres negras que vivem em um celibato compulsório, sofrem com o preterimento e com todo tipo de agressão. E algumas dessas pequenas histórias poderão ser lidas a seguir.

A vida de Joyce Nobre, de 24 anos, era completamente diferente quando mais nova. Na inocência de uma criança, nunca imaginou que o preconceito racial pudesse existir. Para ela, era natural ser a última escolhida para dançar quadrilha, para jogar no time de vôlei ou para ir às festas. Mas, com o tempo, Joyce foi abrindo os olhos e percebendo como tudo realmente era. Como consequência, foi perdendo sua autoestima. Ela seguia padrões aos quais não havia espaço para se inserir, por ser negra e acima do peso.

Tudo isso se refletiu nos seus relacionamentos. Desacreditada, passou a aceitar migalhas de atenção. O pouco passava a ser muito, mas ao mesmo tempo trazia graves problemas. “Atenção para mim era o céu, o paraíso, só para eu me sentir dentro de um contexto de uma realidade que não era a minha”. Joyce passou a ser um tipo de mulher que se doava muito na relação e tudo por querer que desse certo e, com isso, se entregava facilmente a qualquer tipo de afeto que recebia.

Seu último relacionamento é uma cicatriz que ainda carrega. Ela se envolveu com um homem e começaram a namorar. Depois de um tempo juntos eles terminaram. O motivo: ele havia voltado com sua ex-namorada loira, branca e dos olhos azuis. Para Joyce isso foi o mundo desabando. Para muitos isso pode parecer exagero, mas para mulheres como Joyce é difícil encarar.

Toda essa situação a destruiu psicologicamente, é uma mágoa que ela ainda carrega, mas que espera ser curada. “Eu imagino que não seja a única que passa por isso.  Na cabeça do homem brasileiro, a mulher negra tem uma única função: sexual e reprodutora. É algo que vem desde a época da escravidão e não deixou de existir. Talvez o maior preconceito esteja aí, que a gente nunca vai ser vista como uma mulher para casar. Mas sempre como a ‘negrinha que eu estou pegando’. É muito difícil. Eu vejo histórias parecidas com a minha e isso vai me deixando meio desiludida e revoltada”.

Por um momento ela tentou esquecer tudo o que já havia passado. Procurou ser forte e independente e não deixou que isso a afetasse. Mas seu último relacionamento mostrou para ela um vilão chamado solidão. Para Joyce, quanto mais ia afundo no assunto, mais se sentia afetada e introduzida no contexto da situação. Porém, ela decidiu não abaixar a cabeça. Quer dar a volta por cima. “Eu coloquei um ponto final em uma página e decidi que, de agora em diante, vou estudar e me aprimorar. Eu sei quem eu sou e quem eu quero ser”.

Para Ana Paula Patrocínio, de 21 anos, o maior problema esteve em não ter uma representatividade na infância. “Eu não tinha nenhum referencial, aquilo era muito cruel”. As meninas eram brancas, com os cabelos cacheados ou lisos, sempre com um namorado ao lado. Mas Ana Paula não era desse jeito, ela precisava queimar a cabeça de tanto alisar o cabelo com o pente quente para que pudesse ser igual as garotas.

Assim como as outras meninas, ela também se apaixonou por vários garotos da escola, loirinhos e brancos. Em algumas situações ela até conseguia ser correspondida, mas logo depois a resposta surgia: o tal menininho ficava com ela por pena. Ninguém poderia saber que ele havia beijado a “morena” da sala.

Ana Paula sempre viveu em um ambiente com poucos negros, por isso, a representatividade era a menor possível. “Nas festas era sempre o padrão do cara com blusinha de marca, perfume e as meninas brancas com cabelo liso e grande. Eu não me via representada em nenhum lugar. Me sentia horrível”. A sua vida era uma eterna privação. As festas na piscina ela não poderia frequentar, já que o cabelo encolheria se molhasse, por conta do alisamento. Pior do que isso, era enfrentar as piadas que ouvia. “Queriam que eu fizesse parte de um padrão no qual eu não me encaixava”.

Hoje, Ana Paula percebe que se redescobriu no momento certo. Ela dá total valor a quem ela é, a sua raça, sua história e sua ancestralidade. Ela encontra em tudo o que passou forças para lutar e ajudar a quem ainda não consegue enxergar o mesmo. “Quando a gente se redescobre é quando tem força. Hoje em dia, se eu olhasse para mim com 10 anos e pudesse falar para me redescobrir agora, eu faria. Mas acredito que foi tudo no tempo certo”.

Joyce Nobre e Ana Paula Patrocinio. Foto: Arquivo pessoal

Joyce Nobre e Ana Paula Patrocinio. Foto: Arquivo pessoal

Aos 31 anos de idade Vanessa Romão imaginava que sua vida sentimental seria completamente diferente de como é hoje. Seu maior desejo era já estar casada há muito tempo. Mas as circunstancias não permitiram que isso se acontecesse, encontrar alguém que quisesse se relacionar com ela para ter uma família nunca foi algo fácil. “Eu sinto que existe essa dificuldade de achar um parceiro que queira ficar comigo para construir uma vida”.

O motivo ela sabia muito bem qual era. Muitas vezes, Vanessa encontrou dificuldade de namorar outros homens por ser negra. Mas o problema nunca foi o relacionamento em si, mas sim torná-lo mais sério. Para ela, essa não é uma realidade que enfrenta sozinha.  “A mulher negra pode se relacionar, mas talvez não da maneira que ela queira. Ter um relacionamento sério é mais difícil para nós, porque eles não querem. Eu vejo que eles nos rejeitam para algo mais sério”.

Seu interesse sempre foi em homens negros, mas com o tempo passou a perceber que ela não fazia parte do gosto deles. “A maioria deles sempre estavam com mulheres brancas para namorar”. Vanessa já enfrentou esse preterimento em seu próprio namoro. “Ele me dizia que ia ficar com uma mulher branca, ao invés de mim, porque ele queria passar a mão em um cabelo liso”.

Por algum tempo ela foi refém desse relacionamento abusivo, em que o único prazer de seu parceiro era inferiorizá-la. Todas as palavras negativas que ele dizia faziam efeito, pois, por algum tempo, Vanessa acreditou que ele estava certo. Hoje sente vergonha de dizer que passou por isso. “Ele me chamava de burra, mas eu sei que não sou burra. Dizia que ninguém ficaria comigo e nem me aturaria. Ele me inferiorizava bastante e eu acreditava nas coisas que dizia”.

Vanessa encarava esse preterimento, sabia das dificuldades que muitas mulheres negras encontram para se relacionarem. “São raros os casos que os homens nos preferem. Nós sempre ficamos para depois. Somos lembradas somente no carnaval, na escola de samba e isso me incomoda muito”. Ouvir dos homens que ela parecia uma passista de escola de samba, sem ao menos saber sambar, era motivo de incômodo. “Esse não é o lugar da mulher negra. O lugar dela é onde ela quiser estar”.

E ela encontrou o seu. Hoje, é servidora pública federal e tem orgulho em dizer que passou em primeiro lugar na medida afirmativa para negros. “É o primeiro lugar da minha vida”. Para Vanessa, essa é a representatividade que a mulher negra necessita. “A nossa história é contada pelo branco e nós precisamos contá-la com as nossas vozes, porque é o nosso lugar de fala. Assim teremos mais mulheres que gostam de serem negras”.

Vanessa Romão. Foto: Lysis Sevilha

Vanessa Romão. Foto: Lysis Sevilha

DEPOIMENTOS:

Luana – Estudante de Publicidade

Eu tive um namorado que me fez pensar que eu deveria ser grata por ele estar comigo e a quão sortuda eu era, por ele ter misericórdia de mim. Eu nunca fui suficiente para ele. Nunca fui linda e nem agradável aos olhos dele. Todos os dias dentro daquele relacionamento eu estava sozinha, ainda que acompanhada. A solidão que ele construía me consumia. No dia em que ele foi embora eu acordei, pela primeira vez em quase dois anos tive uma companhia que desde então nunca mais me abandonou. Eu ganhei a mim mesma e todo o amor-próprio que eu havia perdido graças aquela solidão. Hoje, ainda que sozinha, eu nunca mais me senti só.

Jamile – Professora

O fato de ter estudado em escola particular, desde a 5ª série, foi danoso pra mim. Lógico que naquela época eu não tinha consciência do que isso representava. Era eu e mais duas colegas negras, em uma turma de 40 alunos. Eu achava os meninos (coincidentemente, brancos) lindos e eles não viam beleza em mim. Depois do ensino médio, quando comecei a ter uma vida sexual, percebi o quanto alguns garotos tinham “curiosidade” por mim, mas que não poderia ser na frente de todos. Quando eu criava um vínculo era sempre a mesma história: “Jamile, você é uma pessoa bacana, divertida, interessante, mas não é o momento!” e no decorrer de um tempo eles apareciam namorando uma garota de pele mais clara. Tudo isso me afetou bastante. Hoje tenho consciência. Eu tenho extrema dificuldade de criar vínculos amorosos. Acho que internalizei o fato de muitos homens só demonstrarem interesse sexual por mim e, como defesa, passei a ter esse comportamento. Hoje eu sofro, e muito.

Tamiris – Produtora Cultural

Eu tenho 23 anos e nunca tive um relacionamento sério. Sempre achei que eu nunca tive um porque eu nunca quis. Isso não é mentira. Mas eu me pergunto se não embuti isso na minha mente, como uma forma de fuga, por perceber que eu era preterida por conta da minha cor. Por toda a minha vida, desde a adolescência até a fase de interesse por ter um relacionamento, os rapazes negros sempre preferiam as meninas brancas. É uma questão de tradição, o gosto é moldado. A mulher negra é para “comer” e não para casar. Eu já escutei coisas do tipo: “sempre quis saber como é ficar com uma pessoa como você”; isso a gente se depara no decorrer da vida. A mulher negra não é escolhida. Em pleno século XXI eu ainda tenho que falar que não sou escolhida para que casem comigo, como se eu tivesse que ficar parada, esperando um homem bondoso querer casar comigo. Eu não tenho direito de escolha a pessoa com quem eu vou dividir a minha vida.

Géssica – Estudante de Direito

Eu conheci um rapaz no final de 2015, ele trabalhava comigo. Nós viramos amigos e começamos a ficar no ano seguinte. Foram quase dois anos juntos. Ele me levava para sair, jantar fora, ia na minha casa, mas tudo escondido. Me levava em lugares longes para não ter o problema de encontrar alguém conhecido. Quando tirávamos fotos, ele não me deixava postar na internet. Foram dois anos e ele não me pediu em namoro. Eu perguntava se éramos um casal, ele dizia que sim, mas nunca me assumiu. Ele tinha uma ex-namorada com um relacionamento muito público. Todo mundo sabia do namoro deles. Mas a mim ele não me apresentou para ninguém e quando eu tentava falar algo sobre isso ele ficava bravo e dizia que eu estava cobrando. Ele nunca me disse isso, mas eu tenho em meu coração que esse tratamento era por conta das diferenças entre eu e ela. A ex-namorada dele era branca e loira e eu não. Eu terminei o relacionamento depois de um tempo. Não podia ficar com uma pessoa que tinha vergonha de mim, de me expor para o mundo.


Lysis Sevilha – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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