129 anos de descaso e resistência

No dia 13 de maio, comemoram-se os 129 anos da Abolição da Escravatura, porém, mesmo depois de tanto tempo, o descaso com a população negra ainda é notório.

“De um lado, cana-de-açúcar/Do outro, cafezal/Ao centro, senhores sentados/Vendo a colheita do algodão branco/Sendo colhidas por mãos negras”. Os versos, cantados por Jorge Ben Jor na canção “Zumbi”, em 1974, relata um cenário doloroso, mas comum na formação da sociedade brasileira. Ao longo dos séculos, a escravidão relatada na música era o contexto perverso em que os negros estavam inseridos.

Foi apenas em 13 de maio de 1888 que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, um documento legal de dois parágrafos que decretava o fim da escravidão no Brasil. Neste sábado (13/05), completam-se os 129 anos da abolição, mas a data está longe de ser algo a ser celebrado e o impacto do período escravocrata perdura até os dias de hoje.

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Capa da “Gazeta de Notícias” do dia 13 de maio de 1888 [foto: Reprodução da Internet].

A abolição foi o encerramento de um longo processo. Antes da promulgação da Lei Áurea, outras três leis começaram a dificultar  a manutenção do trabalho escravo no país. Em 1850, a lei que extinguia o tráfico internacional fez com que diminuísse a quantidade disponível de escravos, encarecendo a mão-de-obra.

Vinte e um anos depois, em 1871, foi a vez da lei do ventre-livre, que tornavam libertos os filhos de escravos que nascessem a partir daquela data. Já em 1875, a Lei dos Sexagenários deu liberdade aos negros com mais de 65 anos. Paralelo a criação de tantas leis, o movimento abolicionista  e suas manifestações também ganhavam força, conquistando o respeito das pessoas. A formação dos quilombos – marco de resistência da população escrava – foi outro fator de impacto na história.

Liberdade pra quem?

Depois da abolição, não foram implementadas medidas para inserir a população negra na sociedade, que foi deixada às margens, sem acesso a terra ou a educação, impossibilitados de exercer a verdadeira cidadania. Apesar dos avanços ao longo dos anos, não é difícil perceber que até hoje os vestígios dessa época não abandonaram por completo o imaginário popular.

As relações sociais assimétricas e as dificuldades em entrar no mercado de trabalho são um exemplo disso, e 129 anos depois, ainda permeiam a vida dos negros no Brasil. Dados da ONU (Organização das Nações Unidas) mostram que 70% das pessoas que vivem em situação de extrema pobreza são negras. O  salário médio da população, que é 2,4 vezes mais baixo que o dos brancos,  também é uma amostra amarga dessa realidade.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) revela, ainda, que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das pessoas negras é menor que o das pessoas brancas e foi somente em 2010 que os negros alcançaram um patamar que os brancos já tinham desde 2000. Esses dados colocam em voga a questão das políticas públicas para a igualdade racial e como ela vem sendo aplicada no Brasil.

 É possível observar que há um longo caminho pela frente.  Os casos de racismo, recorrentes no país, são uma prova da ineficiência de tais políticas. Jogadores de futebol, cantores, professores ou personalidades da mídia –  a população negra ainda não está completamente imune a este tipo de crime.

A boa notícia é que cada vez mais pessoas estão buscando ajuda e denunciando seus agressores. Apesar de ser considerada “uma via de mão dupla”, as redes sociais têm sido um canal para que essas acusações sejam feitas. Através de grupos de apoio e debates voltados para a questão racial, uma nova forma de resistência e combate à esses casos cresce, dando esperança de justiça e de um Brasil mais justo para uma população que sofre até hoje pelos fantasmas do passado.


Thainara Carvalho – 50 período

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