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O corpo segundo Antonin Artaud e a guerra contra o preconceito

Para o encerramento da “20ª Semana da Psicologia da UVA” foi promovido, na última sexta (30), o debate sobre as questões do corpo nos textos do autor francês Antonin Artaud. O evento organizado por Aline Drummond, professora da graduação da UVA e coordenadora da especialização em psicanálise, teve a presença da educadora Ana Paula Kiffer, do programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade – PUC-RJ. O evento acontece há dez anos e é realizada através da parceria do mestrado e do doutorado nos campus da Tijuca e da Barra.

Antoine Marie Joseph Artaud (1896-1948), conhecido como Antonin Artaud, nasceu em Marselha, na França. Além do ofício de escritor, era também poeta, dramaturgo, ator, roteirista e diretor de teatro. Sua produção literária e imagética inclui 28 obras e 75 desenhos. Desse total, 18 narrativas foram escritas em um intervalo de cinco anos. O feito do autor chega a impressionar pelo volume, sendo comparado apenas ao da produção de Picasso. Ainda sob sua autoria, foram escritos 503 cadernos e incontáveis notas. Sobre isso, Ana Paula Kiffer comenta que “diferente de outras pessoas, a própria noção de obra em Artaud é contestada. Não há uma linearidade. Não é possível determinar o início e o fim de seus trabalhos. São incontáveis notas, cadernos. Põe em questão a obra e nossa capacidade de entendimento”.

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Em 1937, após um incidente, Artaud é considerado louco e internado em um hospital psiquiátrico. Então, ele é transferido sucessivamente para inúmeros manicômios franceses e depois de um período de seis anos, dá entrada em outra instituição psiquiátrica, desta vez em Rodez, cidade ao sul da França, em que permanece por três. Nessa época, estabeleceu correspondência com o médico responsável. O terapeuta admite o talento de poeta e o estimula a retomar a produção literária. No entanto, tem seu comportamento classificado como delirante e é submetido ao tratamento de eletrochoque, o que afeta sua memória e seu corpo.

As cartas que trocava com o médico, eram um recurso de Artaud para não se desprender de sua lucidez. O conteúdo refletia um indivíduo em sofrimento, que fala de sua dor da maneira mais íntima que encontra. Ele dizia que não queria que ninguém ignorasse sua dor e seus gritos. Queria ser ouvido. Ana Paula comenta que o autor se refez. “Ele entende que o ativo da dar e a precariedade geram força. Não fica se lamuriando. Ele consegue sobreviver à sua própria ausência. Em sua produção existem três momentos: a falha; a fome como afirmação de vida, um ato político da afirmação de um corpo precário e por fim, o corpo sem órgãos, que ataca a organização. Denuncia que vivemos em uma sociedade que vive sob um estado de abandono controlado”.

Na primeira tentativa de publicar seus textos, Artaud o pedido negado por um editor e o responde com uma carta visceral. O impacto que o conteúdo causa é tamanho que abre um precedente para que inverta a ordem das publicações literárias. Chega ao conhecimento do público através de suas cartas e não de sua composição integral de textos, uma vez que o volume e a pluralidade de fragmentos nos levam a repensar a noção de obra.

A vida de quem é estrangeiro no próprio corpo

Ainda no evento, foi realizada uma mesa de debate composta por Luciana Ribeiro Marques, coordenadora de psicologia; João W. Nery, primeiro trans homem brasileiro a fazer cirurgia de readequação de gênero e Indianara Siqueira, ativista e militante trans. A conversa além de esclarecer a diferença entre gênero e sexualidade, aproximou o público presente dos termos cisgênero, transgênero, gênero binário, intersex, assexual e também discutiu o que é ser homem e o que é ser mulher.

A existência do humano em meio a uma sociedade misógina, sexista, racista e homofóbica torna absolutamente necessária a discussão em torno da pluralidade dos corpos, principalmente pelo fato do Brasil ser o primeiro país do mundo a matar LGBTs. Entre 2008 e 2014, 604 assassinatos de travestis e transexuais, além de 318 homicídios motivados por homofobia. E mesmo com esses números alarmantes de violência contra esse grupo, grande parte da população ainda desconhece o assunto.

A disciplina de gênero e sexualidade praticamente inexiste e quando aparece nas grades universitárias é apresentada como eletiva. Em um país onde o desconhecimento e o ódio ainda se fazem muito presentes no dia a dia dos LGBTs, é de suma importância o debate sobre gênero e sexualidade nos espaços educacionais, sejam eles em escolas ou no nível superior de ensino. A UVA buscando se adequar, adotou no ano passado o nome social, designação adotada por travestis e pessoas trans quando reconhecida sua identidade de gênero. Atualmente se formam no Brasil psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e médicos sem saber diferenças elementares como entre gênero e sexo, e com isso, sem ter as condições mínimas para atender a população transgênera, por exemplo.

O ativista de direitos civis e primeiro transgênero a fazer a cirurgia de readequação de gênero no Brasil, João W. Nery, avalia a importância da ocupação do espaço de fala nas universidades pela população trans: “eu estou muito satisfeito, porque nunca pensei que um dia eu chegaria a ser um ativista dos direitos humanos. A falar e a comparecer a tantas palestras em faculdades e participar de congressos. Me operei em 1977, durante a ditadura militar. Nesse período, as cirurgias eram proibidas. Só 20 anos depois é que foram permitidas, embora tenha começado apenas em 2008 a vigorar. Eu não tinha nenhum modelo, nenhuma referência. Naquele tempo, eu não tinha internet e fui conhecer uma pessoa trans apenas com 30 anos, com quem eu pude trocar algumas experiências”.

Formado em psicologia, João exerce um trabalho de orientação virtual às pessoas LGBTs em situações de risco ou crise: “Hoje em dia estou 14 horas disponível no Facebook para conversar. Sou uma espécie de psicólogo virtual. Atendo principalmente garotos trans. Criei 26 grupos secretos, um para cada estado, em que posto os profissionais que estão habilitados para atendê-los, psicólogos, advogados, endocrinologistas, cirurgiões, porque o SUS não dá vazão. O tempo médio de espera por uma cirurgia é de dez anos. Tanta demora faz crescer ainda mais o sofrimento. Os garotos se mutilam ou se suicidam ou entram em profunda depressão por causa da transfobia. Mais do que o desconforto com o próprio corpo”.

João também alerta sobre o risco da homofobia para a sociedade como um todo. “A homofobia atinge também as pessoas cisgênero. É algo que passa despercebido. Acham que por não serem homossexuais não precisam se preocupar com a homofobia, quando na realidade a coisa está tão séria que dois homens abraçados na rua podem ser mortos. Como é o caso do pai que estava abraçado com o filho e que sofreu agressão, e acabou perdendo uma parte da orelha. Ou ainda o caso dos irmãos em Camaçari, na Bahia, que saíram abraçados de uma boate. Um deles foi morto e o outro foi hospitalizado”.

A também ativista pelos direitos civis da população LGBT e das trabalhadoras sexuais, Indianara Siqueira, em sua fala no debate salienta: “A sociedade não está preparada para todos os corpos e a diversidade e pluralidade de vivências. Ser travesti e transgênero na nossa sociedade quando não significa uma morte física precoce – a expectativa de vida da população trans é de 35 anos de média –, representa uma morte social, pois nos são negados direitos civis básicos, além de haver uma invisibilidade crônica de nossas pautas”.


Laís De Martin- 8º Período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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