“História de Taipei” se perde na superficialidade de sua própria trama
Neste setembro, novo livro de R. F. Kuang,“História de Taipei”, chegou ao Brasil com edição da Intrínseca. A história de ficção retrata o verão da sino americana Lily Chen, estudante de Yale, que decide fazer um curso intensivo de chinês em Taipei. A trajetória explora problemas da protagonista com sua colega de quarto, uma viagem para um retiro de spa com um menino que mal conhece e o falecimento de um familiar.
O problema inicial que Lily enfrenta é quando descobre que ela e Anna, sua colega, têm que dividir uma pequena habitação desconfortável. A protagonista se mostra supercrítica do começo até o fim do livro com o comportamento de todos à sua volta, inclusive com o de Anna. Essa postura julgadora contribui para Lily formar uma certa barreira invisível que a impede de fazer amizades no curso ao longo dos dois meses que passa na ilha.
A sinopse do livro também detalha sobre os únicos marcos narrativos da obra, quando ela sai para uma viagem às fontes termais com um garoto do mesmo curso e o falecimento de seu avô. Contudo, a obra apresenta um descaso narrativo com o que deveria ser o ápice da história, pois os dois eventos que deveriam induzir a história acabam sendo esquecidos pela autora depois que ocorrem. Logo após cada evento, Kuang continua focando nos acontecimentos banais do dia a dia da personagem.
A estrutura do texto não contribui para a experiência de uma narrativa fluida, porque os capítulos são longos, entre 50 páginas, quebrados entre sessões de três a cinco parágrafos, com passagem de tempo entre essas sessões. Então o capítulo passa por situações comuns do cotidiano que não são muito atrativas, como relatos das aulas, a fila que Lily enfrenta para almoçar, bate papo com Anna e descrições de filmes que assistiu em aula.
Além disso, a sinopse traz a informação de que Lily vai para Taiwan com a intenção de entender a história de sua família. Contudo, essa promessa de se aproximar com as raízes familiares esbarra num paradoxo que os parentes de Lily são originários da China e ela própria não renovou o passaporte chinês para visitá-los durante a estadia em Taiwan, o que mostra um distanciamento proposital. Somente, quando seu ente querido falece que passa a investigar mais a origem da família. O que não dura por muitas páginas.
Sobre o desenvolvimento da personagem, a personalidade de Lily não mostra nenhuma transformação e aprendizado com a experiência do intercâmbio. A protagonista também não é cativante igual aos outros personagens da autora, como Robin Swift de “Babel: Ou a necessidade de violência”, ou Rin de “A Guerra da Papoula”.
R. F. Kuang é conhecida pelo estudo que faz sobre o tema que irá tratar na obra antes de escrevê-la, porém, neste livro essa profundidade só foi observada na descrição de uns filmes que Lily assistiu ou do que comeu de diferente. Por fim, “História de Taipei” resultou em um diário de situações monótonas do cotidiano.
Foto de capa: Natália Zichtl/Agência UVA
Resenha de Natália Zichtl
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