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Bandidos, meliantes, larápios e gatunos

Na luz do dia, vi o suposto bandido passar com tanta leveza e paz de espírito que pensei em interpelá-lo. O homem jogava fora todo esse estereótipo de cor, roupa e vocabulário que o senso comum ama armazenar em seus radares. O sujeito não tinha etnia, vestia-se com o garbo dos manequins e possuía o vocabulário solicitado pelas gramáticas normativas. Ele observava as janelas da rua, as portas e os carros como quem olha vitrines no shopping. Como se trata de trabalho, pensei em uma forma de abordá-lo sem ser invasivo. Se nem os seguranças da rua ou policiais fazem tal coisa, por que eu, cidadão contribuinte, poderia me aventurar a fazê-lo?

“Bom dia, caro suposto meliante. Com todo o respeito devido, qual a boa pedida para hoje? Caso o Sr. quisesse se apropriar de alguma coisa, qual seria o melhor negócio?”

“Bom dia, caríssimo amigo. Caso eu tivesse uma boa pedida para hoje, eu não diria a você para não causar o risco de ansiedade nas pessoas. Detesto prometer e não cumprir.”

E saiu flanando pela rua como se tivesse mais o que fazer do que dar atenção a um curioso. Para fazer o tipo clássico, ele ainda colocou as mãos nos bolsos e saiu assobiando uma melodia de um samba de Nelson Sargento. Lá pela uma da manhã, um veículo, um par de Nikes secando em uma varanda, um autopropelido e a arma do guarda noturno já não estavam mais em seus lugares originais. Como diriam as melhores páginas policiais, “E ninguém foi preso!”.

No ano passado, o Jornal O Globo publicou o Mapa do Crime e constatou que meu bairro não passou da septuagésima colocação nas modalidades roubo a transeuntes, roubo de celulares, roubo de veículos e roubo em coletivos. Os ladrões locais, inclusive, prometeram uma ação para provar que há subnotificação de seus feitos e asseguraram que vão intensificar os atos para buscar uma melhor colocação neste ano. Alguns meliantes ainda entraram com uma petição para que fosse feita uma varredura para verificar se alguns de seus feitos não estariam sendo atribuídos aos bairros vizinhos, pois as fronteiras muitas vezes eram indevidamente confundidas.

Recentemente, um vizinho acordou com um gatuno embaixo de sua janela, preparando para dar o bote e entrar em sua residência. Ele o espantou com meia dúzia de impropérios. Sentiu-se na obrigação de chamar a polícia. A Sargento Machete, de algum batalhão que prefiro não informar, atendeu o telefone com um bocejo profundo e um “mãe, só mais cinco minutos”. Pelo jeito, ele era a função soneca daquela madrugada.

Não vendo mais outra via, decidiu informar o seu síndico sobre os perigos que os rondavam. O responsável legal pelo condomínio o olhou e perguntou sem rodeios, “Tens uma arma? Caso tenha uma guardada, atira na próxima vez e deixa que eu resolvo!”. Meu amigo ainda tentou argumentar com uma índole pacifista, dizendo que ele mesmo se sentiria criminoso, mas não deu resultado algum. O outro era de um tempo em que tudo se explicava e se curava por defesa da honra, legítima defesa e penicilina. Era bem capaz de o administrador desafiar algum desses malfeitores para um duelo com pistolas de pederneira ao fim do dia.

(Foto: Divulgação/Netflix)

Para não deixar dúvidas de que há alguma coisa muito errada, eu mesmo devo dizer que uma das minhas séries prediletas é Lupin. Nela, o ator Omar Sy interpreta Assane Diop, um sujeito que projeta roubos fantásticos inspirados na figura de Arsene Lupin, personagem da obra do autor Maurice Leblanc. Ou seja, eu mesmo acabo torcendo pelo larápio. Donde se leva a crer que eu mesmo não posso reclamar de nada.

Foto de capa: Gabriel Freitas/ CBN

Crônica de André Lima, com edição de texto de Cássia Verly

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