A Meta, dona do Facebook e do Instagram, fechou um acordo histórico de até US$ 18 bilhões com autoridades dos Estados Unidos. A empresa foi processada por criar mecanismos pensados justamente para viciar crianças e adolescentes, mantendo esse público preso às telas pelo maior tempo possível. A pressão aumentou depois do vazamento de documentos que provaram algo grave: a própria Meta já sabia que o Instagram vinha prejudicando a saúde mental dos mais jovens, agravando quadros de ansiedade, depressão e problemas de autoimagem.
Para encerrar a disputa nos tribunais, a companhia aceitou mudar a forma como opera. Os jovens com menos de 18 anos terão um teto de aproximadamente duas horas diárias nas plataformas. Quando esse tempo acabar, o aplicativo simplesmente para de funcionar. A ideia é impedir que horas preciosas do dia se percam no feed sem que o adolescente se dê conta.
A rotina de notificações também vai mudar para respeitar os momentos em que o jovem precisa de descanso ou foco. Nada de alertas pulando na tela durante a madrugada, no horário de dormir, nem ao longo do período de aula. Além disso, o aplicativo terá de verificar melhor a idade de quem cria uma conta, dará a opção de ver as postagens em ordem de publicação (e não pelo algoritmo viciante) e vai barrar filtros de estética exagerada.
Esse movimento não acontece de forma isolada nos Estados Unidos. Em várias partes do mundo, o sinal de alerta sobre o impacto das redes na infância acendeu com força. A Austrália deu o passo mais radical ao proibir redes sociais para menores de 16 anos, jogando a responsabilidade de barrar essas contas nas mãos das empresas. Na Europa, governos já debatem regras parecidas para limitar o tempo de tela e monitorar o acesso.
No Brasil, o debate ganhou força com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. A nova lei exige que as plataformas ofereçam um ambiente mais seguro, proibindo a rolagem infinita de vídeos, vetando o uso de dados de crianças para anúncios publicitários e cobrando mais rigor na confirmação de idade.
O motivo de tanta preocupação aparece com clareza nos números. Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que um em cada dez adolescentes já apresenta sinais claros de dependência digital. Por aqui, segundo a pesquisa TIC Kids Online, a maioria dos jovens entre 9 e 17 anos entra no Instagram ou no TikTok todos os dias. Diante dessa realidade, os governos começam a tratar o tempo de tela não apenas como uma questão familiar, mas como um problema urgente de saúde pública.
Quem vive essa rotina consegue perceber os efeitos do uso excessivo no dia a dia. É o caso de Thiago Holanda, de 17 anos, morador de Fortaleza. Ele conta que percebeu sozinho que estava passando tempo demais no Instagram e decidiu recorrer ao próprio limitador de tempo disponível no aplicativo.
“O Instagram por dia eu limitei a uma hora, que eu me lembro. Passava tempo demais no Instagram e então resolvi usar o limitador pra eu não ficar muitas horas lá”, conta Thiago.
Para ele um dos principais problemas era a facilidade de perder a noção do tempo enquanto navegava pela plataforma.

(Foto: Reprodução/Instagram)
“Às vezes eu preciso fazer alguma coisa, entro para olhar uma algo simples e quando vou ver, já se passaram duas ou três horas e perdi meu compromisso”, diz o estudante.
Na sala de aula, os efeitos desse problema também são percebidos. A pedagoga e professora de língua inglesa Aretha Martins, de 29 anos, afirma que consegue observar diferenças no rendimento dos alunos relacionadas ao uso excessivo de telas.
“É perceptível a diferença na atenção e no rendimento dos alunos em sala de aula. O uso excessivo de telas tem condicionado os estudantes a terem cada vez menos tempo de atenção ao conteúdo, tornando a concentração cada vez mais difícil”, explica a professora.
Segundo Aretha, o problema já aparece em diferentes faixas etárias e não está restrito a poucas escolas. Ela considera que essa é uma realidade crescente em turmas de todos os níveis. Para as famílias, a orientação da pedagoga é começar a controlar o tempo de tela antes que o hábito saia do controle.
“Pedimos aos pais que diminuam gradualmente o tempo de tela dos alunos, principalmente dos mais novos. Também orientamos que acompanhem as atividades realizadas em casa para avaliar se o estudante está executando-as com autonomia ou dependendo excessivamente da internet”, conta Aretha.
Ela também destaca a importância de acompanhar os conteúdos consumidos pelos adolescentes. Segundo a pedagoga, muitos alunos chegam à escola expostos a conteúdos inadequados para sua faixa etária. Para a professora, o papel das escolas também precisa ir além da simples proibição dos celulares em sala de aula.
“Muitas escolas já proíbem o uso de celulares em sala de aula, porém essa medida nem sempre é eficaz, pois os alunos frequentemente tentam burlá-la”, afirma.
Na avaliação da pedagoga, a conscientização precisa começar dentro de casa. Para ela, as escolas devem não apenas fiscalizar o uso das redes, mas também encontrar maneiras de aproximar novamente os estudantes do ambiente de aprendizagem, utilizando atividades que despertem o interesse pelos estudos.
A psicóloga e pedagoga Jacqueline Maia analisa o problema por uma perspectiva mais ligada ao comportamento e ao desenvolvimento dos adolescentes. Segundo ela, o contato constante com o celular pode acelerar o processamento mental dos jovens e afetar diretamente a concentração e a motivação.
“Essa aceleração cerebral muitas vezes ocorre em função dessa manipulação da telefonia mobile o tempo inteiro. E isso também provoca uma ansiedade nesse sujeito, porque a rede social oportuniza uma resposta imediata, e a vida real não é assim”, explica.
Para Jacqueline, a diferença entre a velocidade das redes sociais e o ritmo da escola ajuda a entender parte do desinteresse observado pelos professores. “A escola não acompanhou esse ritmo acelerado do desenvolvimento tecnológico, e isso ficou muito claro durante a pandemia. Então a aula acaba sendo maçante: tem que ler, tem que interpretar. E no dia a dia da rede social, isso é irrelevante”.
Ela também chama atenção para a forma como os estudantes passaram a buscar respostas prontas na internet. Entre os exemplos citados está o uso do ChatGPT para realizar atividades, prática que, segundo a especialista, pode diminuir o espaço para que o aluno desenvolva uma reflexão própria sobre aquilo que está lendo.

(Foto: Reprodução/UVA)
No consultório, a psicóloga relata situações ainda mais delicadas. Ela conta que já atendeu casos de ansiedade severa provocados pelo excesso de telas e até pacientes que chegaram a receber diagnósticos equivocados de esquizofrenia. Em situações como essas, a raiz da questão estaria na dificuldade do cérebro em desligar o fluxo contínuo de estímulos digitais, mesmo quando a pessoa já se afastou do aparelho.
A professora também associa a exposição precoce a jogos e ambientes virtuais ao surgimento de outras compulsões no futuro, citando como exemplo a busca desmedida por pornografia entre adultos jovens que chegam para atendimento.
Os perigos do acesso sem supervisão vão além das notas baixas ou da falta de foco. Menores desacompanhados no ambiente virtual ficam vulneráveis ao assédio e à exploração sexual dentro das próprias redes. Episódios de perseguição, ofensas e humilhações entre os próprios adolescentes também já se tornaram caso de polícia e chegaram aos tribunais.
Ao ser questionada sobre a quem cabe colocar limites nessa rotina digital, a terapeuta é taxativa ao apontar a responsabilidade para a própria família.
“Quem dá o telefone para o jovem é a família. Quem paga a internet é a família. E a família está delegando isso como se esse jovem tivesse maturidade para ponderar o tempo que vai gastar ali e não tem. Essa maturidade só se consolida por volta dos 25 anos”, explica.
Ela defende que esse papel não deve ser transferido para as salas de aula. “A escola tem a função de educar, de passar conteúdo, não de suprir a ausência de controle da família. Só que muitas vezes a própria família não quer se envolver e é aí que mora o perigo.”
O debate se conecta diretamente a um dos pontos centrais do acordo firmado pela Meta, que estipula o teto de duas horas diárias de navegação para os mais jovens. A criação de uma trava imposta pela própria plataforma evidencia, na análise da psicóloga, que muitos pais e responsáveis perderam a capacidade de estabelecer regras de convivência com as telas em casa.
“Quando a Meta coloca um limite, é porque os pais não estão conseguindo colocar. Quem tem que colocar limite num nativo digital é a família. Responsabilizar só a plataforma pelo que acontece eu acho que não é por aí. Tem que ser uma coisa coletiva”, afirma.
O colégio até pode contribuir nesse processo, mas atuando como ponto de apoio e orientação. “Acho que esse é o caminho, a escola ser um recurso para melhor orientar essa família, com palestras, reuniões de pais, trazendo profissionais da área para falar sobre o assunto.” Ao mesmo tempo, a profissional reforça que o envolvimento dos professores não anula a obrigação primária dos pais dentro de casa.
“A família também está pagando a escola e, muitas vezes, acha que pode se isentar da própria responsabilidade. Não é por aí. A gente tem que fazer um trabalho coletivo”, finaliza.
Há também um componente geracional no centro desse conflito. Pais que já cresceram imersos no avanço tecnológico muitas vezes enfrentam dificuldades para enxergar os próprios exageros diante das telas e, por consequência, acabam sem autoridade ou clareza para impor freios aos filhos.
Por isso, o impacto das redes na vida dos jovens deixou de ser um dilema restrito a quatro paredes. Mais do que simplesmente cronometrar minutos de uso, o cenário atual exige um pacto real entre famílias, colégios e grandes empresas de tecnologia, garantindo que crianças e adolescentes não fiquem desprotegidos em um território desenhado para prender a atenção a qualquer custo.
O acordo bilionário da Meta deixa evidente que a discussão nunca foi apenas sobre tecnologia ou algoritmos, mas sobre saúde pública e o futuro de uma geração. As redes precisam responder pelas armadilhas que criam para lucrar com o engajamento, mas a proteção dos mais novos só se torna real quando pais e educadores entram em cena para puxar os jovens de volta ao mundo real antes que o hábito vire dependência.
Foto de capa: Reprodução/Agência Brasil
Reportagem de Rafael Costantino, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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