A discussão sobre quem é o maior jogador da história do futebol não é recente, mas ganhou contornos ainda mais calorosos durante a Copa do Mundo Fifa de 2026. De um lado, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, soberano absoluto das eras de ouro do esporte. Do outro, Lionel Messi, o gênio contemporâneo que coroou sua trajetória com a conquista mundial no Catar, além de sua última participação espetacular, com 39 anos, levando a Argentina para mais uma final de Copa.
Apesar de a comparação mobilizar debates acalorados em mesas redondas e redes sociais, a própria validade do confronto entre dois atletas de épocas tão distintas gera reflexão entre especialistas. Para o jornalista Rafael Marques, da ESPN, com mais de 25 anos de cobertura no jornalismo esportivo, a análise exige um olhar pragmático, ainda que se reconheça o apelo popular desse tipo de embate.
“Racionalmente, eu não acho que seja uma discussão que faça sentido. Eles nunca disputaram entre si, como Cristiano e Messi, caso em que acho super válida a discussão. Mas entendo que isso pertença ao lado lúdico, ao lado empírico do futebol. É o tipo de discussão em que até quem não acompanha o esporte se arvora no direito de participar. É algo comum ao futebol: um debate democrático, inclusivo e simples. Mas repito: racionalmente, comparar ambos não faz muito sentido para mim”, ressalta Rafael Marques.

(Foto: Reprodução/Instagram/@pele)

(Foto: Reprodução/Instagram/@leomessi)
Duas dinastias e o mesmo topo
Se por um lado o confronto direto jamais existiu, por outro, a relevância dos dois nomes para a cultura do futebol mundial os coloca em uma prateleira isolada. Ambas as carreiras se sustentam não apenas pela quantidade expressiva de troféus levantados, mas pela constância técnica e pelo impacto cultural gerado em suas respectivas eras.
“Tudo o que eles construíram em campo sustenta isso. Não são apenas os títulos, mas o desempenho técnico, acima de tudo. Também é a percepção externa de genialidade e as referências geracionais. Então, dá para dizer que são, sim, os dois maiores da história do futebol”, avalia Rafael Marques.

(Foto: Reprodução/Instagram/@rafael_marques_comentarista)
Quando o assunto é a maior vitrine do esporte, a Copa do Mundo Fifa, os dois deixaram marcas impressionantes, ainda que sob contextos e formatos de competição completamente distintos.

O choque de gerações e o diferencial de Pelé
Analisar os cenários em que cada um atuou expõe as transformações drásticas do futebol ao longo do tempo. O jogo disputado por Pelé nas décadas de 1950, 60 e 70 exigia adaptação a gramados irregulares, calçados pesados, preparação física incipiente e arbitragens consideravelmente mais permissivas à violência. Messi, por sua vez, construiu sua carreira sob a era da alta performance, táticas ultraespecializadas e cobertura midiática global ostensiva.
Ao ponderar as variáveis de cada período, Marques ressalta que o repertório técnico de Pelé o coloca em uma posição privilegiada na avaliação histórica.
“É muito complicado a gente comparar gerações. O futebol nos tempos do Pelé era disputado em um ritmo mais lento, com condições de jogo mais precárias, são quase dois esportes distintos. Mas, ressalvadas as circunstâncias, tanto em relevância histórica quanto em qualidade individual, acredito que o Pelé se sobressai ao argentino. O Pelé tinha mais recursos que o Messi, como a cabeçada e a utilização da perna não dominante com mais refino”, destaca o comentarista.
O peso da história e o topo inabalável
O debate ganhou novos capítulos após a Copa do Mundo Fifa de 2022, quando Messi conquistou o título que faltava em sua galeria. Contudo, para grande parte da crítica e para o próprio jornalista da ESPN, o resultado no Catar não altera a hierarquia histórica já consolidada pelo Rei do Futebol.

Ao analisar a representatividade de cada um para seus respectivos países e para o mundo, Marques conclui que a prateleira mais alta segue ocupada pelo camisa 10 brasileiro.
“O Pelé é o maior da história do futebol brasileiro, o Messi é o maior da história do futebol argentino e ambos são os maiores do futebol mundial. O tamanho de ambos para o futebol é bem similar, eu diria, com o Pelé acima pelos pontos que citei antes. Caso o Messi tivesse vencido essa última Copa com a Argentina, minha opinião não mudaria, e acredito que a visão geral que se tem também não, o Pelé seguiria no topo”, afirma o jornalista.
A discussão continuará alimentando conversas em qualquer lugar onde se fala de futebol. No entanto, os fatos e os recursos apresentados pelo brasileiro ao longo de três Copas do Mundo conquistadas garantem que seu legado permaneça como o padrão máximo de excelência no esporte, enquanto Messi vem logo depois, sendo o gênio da atualidade, que jogou em tão alto nível, capaz de ser comparado ao Rei do futebol.
Foto de capa: Reprodução/Instagram/@leomessi
Reportagem de Raul César, com edição de texto de Gustavo Pinheiro
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