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Ética em xeque: saiba como o crescimento das casas de apostas impacta o jornalismo esportivo

O número alto de propagandas divulgando casas de apostas nas transmissões esportivas gerou muita discussão e até liminar do CONAR

O jornalismo esportivo contemporâneo flerta cada vez mais com o entretenimento. O surgimento de canais baseados em transmissões por streaming, como a CazéTV, revolucionou a linguagem com o público jovem. Trata-se de um formato mais leve, espontâneo e que preencheu a lacuna deixada pela TV aberta, que perdeu o apelo com as novas gerações.

No entanto, essa mudança na mídia veio acompanhada de um modelo de negócios agressivo. Durante as transmissões de jogos, não é raro ver jornalistas e influenciadores dividindo a tela com QR Codes, bônus de boas-vindas e até fazendo “fezinhas” ao vivo. Esse cenário tem sido ainda mais frequente durante a Copa do Mundo, o que fez o público massivo da competição reparar na quantidade e na forma como as propagandas eram feitas.

O burburinho foi aumentando até chegar ao CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que, no dia 26 de junho, emitiu uma liminar contra as publicidades de casas de apostas na CazéTV. Logo após o ocorrido, a emissora cortou drasticamente esse tipo de propaganda durante o ao vivo das suas transmissões.

O vício em apostas é considerado uma doença pela OMS.
(Foto: Canva)

A jornalista, mestre e doutora em comunicação Mônica Nunes compartilhou sua análise sobre a ação do CONAR e alertou sobre a responsabilidade social do jornalista para com o público com o qual se comunica.

“Eu achei correta e necessária a intervenção do CONAR. O jornalismo esportivo hoje é muito mais entretenimento, e a Cazé TV veio para mostrar isso, mas é preciso ter muito cuidado nesse ponto. Até onde vai a liberdade de entrar na casa das pessoas e influenciá-las a apostar? Ainda mais da forma agressiva como estava sendo feito,” afirma Nunes.

Mônica é Docente dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Cinema na Universidade Veiga de Almeida.
(Foto: Reprodução/Linkedin/Mônica Nunes)

As transmissões na CazéTV são conhecidas por terem um tom mais leve e bem-humorado, mas o problema não está na existência do entretenimento, e sim na metamorfose do profissional de imprensa. Quando o jornalista deixa de analisar o jogo para sugerir uma odd (probabilidade) ou promover um jogo de azar, a credibilidade da informação é colocada em xeque.

A professora afirma que se preocupa com o cenário atual, em que o jornalismo esportivo e as casas de apostas estão cada vez mais entrelaçados.

“A gente precisa ter responsabilidade, pois o conteúdo é visto por milhares ou até milhões de pessoas. É nosso dever, como jornalistas, entender o que está sendo divulgado e a imagem que isso transmite. Essa associação com jogos de apostas é preocupante,” alerta a Doutora.

Nunes aborda o poder de alcance e influência que um canal como a CazéTV pode ter sobre quem consome aquele conteúdo. Esse tópico foi corroborado em um vídeo nas redes sociais publicado pela jornalista e diretora do projeto “Fogo Cruzado”, Cecília Olliveira.

A jornalista investigativa capitaneou a forte crítica aos anúncios feitos pela emissora de Casimiro Miguel. No vídeo, ela também comenta sobre a sensação de ser “bombardeada” com publicidades incentivando a fazer uma aposta. O vídeo é bem produzido e seu objetivo fica bem claro: alertar as pessoas sobre esse perigoso território das bets e como elas podem destruir vidas.

Casimiro Miguel se pronunciou em defesa da emissora, destacando que o dinheiro que vem das bets sustenta a existência da CazéTV e que, quando vemos transmissões de outros canais, como a própria TV Globo, lá também existem propagandas de jogos de azar, o que acaba levantando a dúvida: o jornalismo esportivo está rendido pelas apostas? Para Mônica Nunes, sim.

“O mecanismo que o jornalismo esportivo encontrou para se garantir, para se sustentar foi recorrer às bets. Do ponto de vista do negócio, isso faz sentido, já que é necessário gerar lucro. No entanto, não se pode abandonar a responsabilidade social visando apenas ganhar dinheiro,” diz a professora.

A ética, muitas vezes, é deixada de lado em busca do lucro. No entanto, quando se trata de jornalismo, não apenas do esportivo, mas em geral, a ética e a credibilidade são fundamentais e jamais podem ser negligenciadas se o jornalista deseja ser respeitado. A forma como esse dinheiro passou a entrar, sem a devida consideração das questões sociais, acende alguns alertas: em que momento deixa de ser uma necessidade e passa a ser exagero? O fato de a transmissão sair da TV aberta e migrar para a internet dá liberdade para anunciar qualquer coisa? São perguntas que surgem em meio às discussões sobre esse tema delicado.

Estudo da Consultoria Regulus Partners divulgado pela BBC News aponta que o Brasil encerrou 2025 como o quinto maior mercado global de apostas com faturamento estimado em cerca de R$ 22 bilhões.
(Foto: Canva)

O publicitário, professor e mestre em comunicação, Júlio Martins, discorda da forma como as propagandas são feitas e divulgadas, e acha baixo como as empresas usam estratégias que parecem infalíveis, tendo em vista a popularização astronômica das casas de apostas no Brasil.

“A utilização de ídolos ou pessoas bem-sucedidas, praticamente validando e incentivando o público a apostar, é o que torna essa estratégia tão eficaz para atrair cada vez mais novos clientes. O público jovem é o mais afetado e influenciado por isso. Quando vê um ídolo o incentivando a apostar, por que ele não apostaria? Eu acho essa prática covarde,” afirma o publicitário.

As casas de apostas muito provavelmente não deixarão de existir, mas a divulgação e a disseminação delas parecem estar no caminho de redução. A sensação de ser “alvejado” ou “bombardeado” por propagandas de bets tende a diminuir, porém não desaparecer. O alerta para o cenário do jornalismo esportivo está mais do que evidente. A reputação entra em xeque, e a credibilidade pode ser perdida ao se associar às apostas. O jornalismo não pode, nem precisa, abrir mão de sua ética e responsabilidade social para sobreviver.

Reportagem de Raul César, com edição de texto de João Gabriel Lopes

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