Comportamento Moda

Do luxo ao coletivo: a popularização dos brechós está democratizando a moda? 

Entre acesso e exclusividade, os brechós transformam o consumo de moda e revelam suas contradições 

Durante muitos anos, consumir em brechós foi visto apenas como uma alternativa econômica para quem não conseguia acompanhar o ritmo da moda tradicional.

No entanto, esse cenário começa a mudar, impulsionado por uma geração que busca autenticidade e exclusividade na forma de se vestir. Como reflexo dessa transformação, surge o questionamento sobre os brechós serem realmente capazes de democratizar o acesso à moda ou apenas criarem novas formas de consumo.

(Foto: Pexels)

Apesar da expansão desse mercado, o impacto dos brechós na indústria da moda tradicional ainda é limitado. Segundo a professora do curso de Moda da Universidade Veiga de Almeida e pesquisadora de comportamento do consumidor Márcia de Mesquita, ao comparar a quantidade de lojas físicas e online existentes com o volume de produtos novos comercializados, a influência dos brechós ainda se mostra pouco significativa.

“O número de brechós aumentou no Brasil nos últimos tempos. Mas a força do fast fashion e, agora, ultra fast fashion como a Shein ainda é muito grande, infelizmente”, explica a especialista.

Montagem de look do Relance Brechó Foto tirada do Instagram: @relancebrecho
Vestuário Relance Brechó.
(Foto: @relancebrecho)

Ainda assim, os brechós participam de uma lógica mais ampla de consumo consciente, sendo uma das práticas associadas à moda sustentável por prolongarem o ciclo de vida das peças e reduzirem o descarte têxtil. Entretanto, ainda não representam uma ressignificação do consumo de “luxo” na contemporaneidade, como afirma Márcia. Ao ser perguntada a respeito do consumo de luxo contemporâneo, a professora e pesquisadora afirmou:

“Peças de luxo sempre tiveram um ciclo de vida mais duradouro e brechós de peças de luxo já são relativamente concretizados. Já existia essa cultura de passar de geração para geração há algumas décadas. O que aconteceu recentemente foi esse tipo de comércio ganhar mais visibilidade e aumentar as opções por causa das lojas online e das vendas em redes sociais”, explica a professora.

Com esse aumento de visibilidade e das opções de acesso, os brechós passaram a dialogar com questões de representatividade estética e exclusividade de estilo. A popularização está justamente ligada à possibilidade de construir um estilo próprio, que se diferencia da padronização do varejo tradicional.

Esse é o caso de Luiz, um consumidor de brechó que, ao ser entrevistado, afirmou ter começado o consumo de roupas de brechó em busca de estilo, e não por necessidade.

“O brechó me proporciona peças exclusivas e fora do padrão. Roupas com personalidade”, conta o consumidor.

Luiz em sua viagem para o Chile utilizando peças de brechó
Luiz em sua viagem para o Chile utilizando peças compradas em Brechó.

Ele também explicou que sua percepção mudou com o passar do tempo. Antes, associava esses ambientes a “itens velhos e mal conservados” devido a experiências ruins. Entretanto, hoje sua visão é completamente diferente e ele reconhece que esse pensamento estava diretamente ligado a experiências isoladas. Ao ser perguntado a respeito de preconceitos, Luiz afirmou:

“Hoje ainda existe preconceito, mas muito mais externo. As pessoas ainda têm essa visão de roupa velha”, complementa Luiz.

Essa mudança de percepção também é notória para quem exerce o papel de vendedor. Ao conversar com Pedro Ivo, responsável pelo Relance Brechó, um brechó situado em Botafogo, no Rio de Janeiro, ele explicou que, embora o estigma não tenha desaparecido completamente, ele diminuiu nos últimos anos.

“Os motivos são variados, mas frequentes: as pessoas buscam por preços mais em conta e pela autenticidade, peças que você dificilmente vai encontrar iguais em outro lugar”, afirma o lojista.

Vestuário Relance Brechó.
(Foto: Instagram @relancebrecho)

Segundo ele, o consumo segue sendo fortemente guiado por questões financeiras, mas existe um público fiel que busca aprimorar o próprio estilo com autenticidade. Pedro Ivo também afirma que é muito difícil ir contra a maré do que “está na moda”, um ideal constantemente construído pelas grandes marcas, e que isso se reflete diretamente no que a maioria procura ao chegar à loja.

A ideia de que os brechós democratizam o acesso à moda ainda divide opiniões. Segundo a professora e pesquisadora Márcia, tudo depende da proposta do estabelecimento. No Brasil, muitos ainda são associados a peças de marcas consagradas e preços elevados. Com o crescimento das lojas virtuais e das vendas nas redes sociais, surgiram opções mais acessíveis e variadas, mas esse movimento ainda não alcança todos os públicos igualmente.

“Não chamaria de tendência, mas ainda é algo de um tipo de consumidor e bem mais comum apenas em cidades grandes e algumas médias”, explica a pesquisadora de comportamento do consumidor.

Na prática, para quem consome, essa democratização é mais perceptível. O consumidor Luiz, por exemplo, afirma que é possível acompanhar tendências com um custo mais baixo, já que, segundo ele, nos brechós há como reproduzir o que está em alta pagando muito menos. Ele também destaca a possibilidade de acessar peças de grife por valores reduzidos, mantendo uma sensação de exclusividade.

Luiz utilizando peças compradas em Brechó.

Já para quem trabalha diretamente com esse mercado, o potencial de transformação existe, mas não acontece de forma automática. Pedro Ivo, responsável pelo Relance Brechó, aponta que o acesso à moda de qualidade também passa pelo repertório do consumidor. Segundo ele, o consumo precisa estar atrelado ao conhecimento, como saber reconhecer um bom tecido, acabamento e marcas que priorizam qualidade.

Os brechós ampliam caminhos para um consumo de moda mais consciente e acessível, mas ainda não são suficientes para tornar esse mercado plenamente democrático. Segundo Márcia, a indústria da moda ainda está longe do ideal, especialmente no investimento em materiais sustentáveis e na forma como o consumo é comunicado. Para a pesquisadora, o valor simbólico atribuído à moda continua afastando os consumidores de práticas mais sustentáveis.

Nesse cenário, as redes sociais surgem como uma ferramenta central tanto na transformação quanto na manutenção dessas dinâmicas. Para o responsável pelo Relance Brechó, elas são indispensáveis, já que é por meio delas que o brechó ganha visibilidade, constrói sua identidade e estabelece uma troca direta com o público sobre moda, comportamento e sustentabilidade.

Instagram Relance Brechó.

Entre avanços impulsionados pelo digital e limitações estruturais da própria indústria, os brechós se consolidam como parte de uma mudança ainda incompleta. Mais do que uma solução definitiva, eles revelam uma tensão contemporânea entre o desejo de consumir de forma mais consciente e uma cultura que ainda incentiva o excesso.

Foto de capa: Pexels

Reportagem de Maria Eduarda Lima, com edição de texto de Cássia Verly

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5 comentários em “Do luxo ao coletivo: a popularização dos brechós está democratizando a moda? 

  1. Avatar de Flavia soares
    Flavia soares

    Amei essa reportagem!!!!!Parabéns a todos que trabalharam pra fazer!!! Eu amo brechós 💗quando tenho oportunidade estou sempre visitando algum… Já comprei peças novas por preços bem pequeno é preciso garimpar!!!infelizmente existem pessoas que acham que se trata de peças velhas e acabadas.

  2. Avatar de Liliane da cunha lima
    Liliane da cunha lima

    Adorei o contexto!! Vai ajudar a mudar um pouco a ideia das pessoas sobre roupas de brechós. Já comprei peças novas e de bom estado. Parabéns pela reportagem!!

  3. Avatar de Ana

    Confesso que eu mesma tinha uma certo receio de comprar em brechó, mas agora fiquei foi com vontade!

  4. Avatar de Jorge Marcos
    Jorge Marcos

    Top, muito bom o texto.

    Parabéns a todos, em especial para minha Duda!

  5. Avatar de Fernanda Reffe
    Fernanda Reffe

    Confesso que não sou fiel aos brechós, mas consumo, vez ou outra. Realmente uma ótima alternativa pra quem não consegue seguir à risca moda contemporânea e pelo bom custo benefício. E devia ser mais do que isso, ser especialmente sobre consumo racional.

    Respondendo ao título da matéria, acredito que ainda não, infelizmente. Apesar do avanço, há muitos preconceitos, e ainda esbarra na motivação desmedida de consumir, como bem citou no último parágrafo. Está atrelada a educação e cultura.

    Muito boa sua matéria, Maria Eduarda. Parabéns!

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