Durante muitos anos, consumir em brechós foi visto apenas como uma alternativa econômica para quem não conseguia acompanhar o ritmo da moda tradicional.
No entanto, esse cenário começa a mudar, impulsionado por uma geração que busca autenticidade e exclusividade na forma de se vestir. Como reflexo dessa transformação, surge o questionamento sobre os brechós serem realmente capazes de democratizar o acesso à moda ou apenas criarem novas formas de consumo.

Apesar da expansão desse mercado, o impacto dos brechós na indústria da moda tradicional ainda é limitado. Segundo a professora do curso de Moda da Universidade Veiga de Almeida e pesquisadora de comportamento do consumidor Márcia de Mesquita, ao comparar a quantidade de lojas físicas e online existentes com o volume de produtos novos comercializados, a influência dos brechós ainda se mostra pouco significativa.
“O número de brechós aumentou no Brasil nos últimos tempos. Mas a força do fast fashion e, agora, ultra fast fashion como a Shein ainda é muito grande, infelizmente”, explica a especialista.

(Foto: @relancebrecho)
Ainda assim, os brechós participam de uma lógica mais ampla de consumo consciente, sendo uma das práticas associadas à moda sustentável por prolongarem o ciclo de vida das peças e reduzirem o descarte têxtil. Entretanto, ainda não representam uma ressignificação do consumo de “luxo” na contemporaneidade, como afirma Márcia. Ao ser perguntada a respeito do consumo de luxo contemporâneo, a professora e pesquisadora afirmou:
“Peças de luxo sempre tiveram um ciclo de vida mais duradouro e brechós de peças de luxo já são relativamente concretizados. Já existia essa cultura de passar de geração para geração há algumas décadas. O que aconteceu recentemente foi esse tipo de comércio ganhar mais visibilidade e aumentar as opções por causa das lojas online e das vendas em redes sociais”, explica a professora.
Com esse aumento de visibilidade e das opções de acesso, os brechós passaram a dialogar com questões de representatividade estética e exclusividade de estilo. A popularização está justamente ligada à possibilidade de construir um estilo próprio, que se diferencia da padronização do varejo tradicional.
Esse é o caso de Luiz, um consumidor de brechó que, ao ser entrevistado, afirmou ter começado o consumo de roupas de brechó em busca de estilo, e não por necessidade.
“O brechó me proporciona peças exclusivas e fora do padrão. Roupas com personalidade”, conta o consumidor.

Ele também explicou que sua percepção mudou com o passar do tempo. Antes, associava esses ambientes a “itens velhos e mal conservados” devido a experiências ruins. Entretanto, hoje sua visão é completamente diferente e ele reconhece que esse pensamento estava diretamente ligado a experiências isoladas. Ao ser perguntado a respeito de preconceitos, Luiz afirmou:
“Hoje ainda existe preconceito, mas muito mais externo. As pessoas ainda têm essa visão de roupa velha”, complementa Luiz.
Essa mudança de percepção também é notória para quem exerce o papel de vendedor. Ao conversar com Pedro Ivo, responsável pelo Relance Brechó, um brechó situado em Botafogo, no Rio de Janeiro, ele explicou que, embora o estigma não tenha desaparecido completamente, ele diminuiu nos últimos anos.
“Os motivos são variados, mas frequentes: as pessoas buscam por preços mais em conta e pela autenticidade, peças que você dificilmente vai encontrar iguais em outro lugar”, afirma o lojista.

(Foto: Instagram @relancebrecho)
Segundo ele, o consumo segue sendo fortemente guiado por questões financeiras, mas existe um público fiel que busca aprimorar o próprio estilo com autenticidade. Pedro Ivo também afirma que é muito difícil ir contra a maré do que “está na moda”, um ideal constantemente construído pelas grandes marcas, e que isso se reflete diretamente no que a maioria procura ao chegar à loja.
A ideia de que os brechós democratizam o acesso à moda ainda divide opiniões. Segundo a professora e pesquisadora Márcia, tudo depende da proposta do estabelecimento. No Brasil, muitos ainda são associados a peças de marcas consagradas e preços elevados. Com o crescimento das lojas virtuais e das vendas nas redes sociais, surgiram opções mais acessíveis e variadas, mas esse movimento ainda não alcança todos os públicos igualmente.
“Não chamaria de tendência, mas ainda é algo de um tipo de consumidor e bem mais comum apenas em cidades grandes e algumas médias”, explica a pesquisadora de comportamento do consumidor.
Na prática, para quem consome, essa democratização é mais perceptível. O consumidor Luiz, por exemplo, afirma que é possível acompanhar tendências com um custo mais baixo, já que, segundo ele, nos brechós há como reproduzir o que está em alta pagando muito menos. Ele também destaca a possibilidade de acessar peças de grife por valores reduzidos, mantendo uma sensação de exclusividade.

Já para quem trabalha diretamente com esse mercado, o potencial de transformação existe, mas não acontece de forma automática. Pedro Ivo, responsável pelo Relance Brechó, aponta que o acesso à moda de qualidade também passa pelo repertório do consumidor. Segundo ele, o consumo precisa estar atrelado ao conhecimento, como saber reconhecer um bom tecido, acabamento e marcas que priorizam qualidade.
Os brechós ampliam caminhos para um consumo de moda mais consciente e acessível, mas ainda não são suficientes para tornar esse mercado plenamente democrático. Segundo Márcia, a indústria da moda ainda está longe do ideal, especialmente no investimento em materiais sustentáveis e na forma como o consumo é comunicado. Para a pesquisadora, o valor simbólico atribuído à moda continua afastando os consumidores de práticas mais sustentáveis.
Nesse cenário, as redes sociais surgem como uma ferramenta central tanto na transformação quanto na manutenção dessas dinâmicas. Para o responsável pelo Relance Brechó, elas são indispensáveis, já que é por meio delas que o brechó ganha visibilidade, constrói sua identidade e estabelece uma troca direta com o público sobre moda, comportamento e sustentabilidade.

Entre avanços impulsionados pelo digital e limitações estruturais da própria indústria, os brechós se consolidam como parte de uma mudança ainda incompleta. Mais do que uma solução definitiva, eles revelam uma tensão contemporânea entre o desejo de consumir de forma mais consciente e uma cultura que ainda incentiva o excesso.
Foto de capa: Pexels
Reportagem de Maria Eduarda Lima, com edição de texto de Cássia Verly
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Amei essa reportagem!!!!!Parabéns a todos que trabalharam pra fazer!!! Eu amo brechós 💗quando tenho oportunidade estou sempre visitando algum… Já comprei peças novas por preços bem pequeno é preciso garimpar!!!infelizmente existem pessoas que acham que se trata de peças velhas e acabadas.
Adorei o contexto!! Vai ajudar a mudar um pouco a ideia das pessoas sobre roupas de brechós. Já comprei peças novas e de bom estado. Parabéns pela reportagem!!
Confesso que eu mesma tinha uma certo receio de comprar em brechó, mas agora fiquei foi com vontade!
Top, muito bom o texto.
Parabéns a todos, em especial para minha Duda!
Confesso que não sou fiel aos brechós, mas consumo, vez ou outra. Realmente uma ótima alternativa pra quem não consegue seguir à risca moda contemporânea e pelo bom custo benefício. E devia ser mais do que isso, ser especialmente sobre consumo racional.
Respondendo ao título da matéria, acredito que ainda não, infelizmente. Apesar do avanço, há muitos preconceitos, e ainda esbarra na motivação desmedida de consumir, como bem citou no último parágrafo. Está atrelada a educação e cultura.
Muito boa sua matéria, Maria Eduarda. Parabéns!