Escrito por Catherine Doyle e lançado pela Intrínseca em abril, o livro aposta em uma história intensa sobre amor, ódio, liberdade e sobrevivência, tendo como cenário a perigosa cidade de Fantome e seus monstros. A protagonista, Seraphine Marchant, é uma jovem camponesa que vive fora dos portões da cidade, levando uma vida marcada pelos prazeres do campo. Tudo na personagem parece seguir esse estereótipo, exceto pelo fato de sua mãe ser uma contrabandista de Sombra, substância que alimenta a criminalidade de Fantome, além de guardar segredos sombrios que nem a própria filha conhece.
A trama muda de rumo quando, após um passeio, Seraphine encontra sua casa em chamas e a mãe morta na entrada. Sobre o corpo, está a silhueta de um homem misterioso de olhos prateados, característica associada apenas aos Adagas. Ao perceber o perigo, Seraphine foge para Fantome em busca de proteção junto à Ordem dos Mantos, o único lugar onde acredita estar segura dos assassinos.
A Ordem dos Adagas, formada por assassinos, e a Ordem dos Mantos, composta por ladrões, são guildas rivais que comandam o submundo de Fantome, em uma dinâmica que remete ao clima sombrio de Batman e de Gotham City. Ambas utilizam a Sombra, a substância mágica contrabandeada pela mãe de Seraphine, para sustentar suas atividades criminosas na cidade.
Em meio a esse cenário caótico, surge o protagonista masculino. Ransom, membro da Ordem dos Adagas, recebe a missão de matar a filha da contrabandista. No entanto, descobre rapidamente que a tarefa será mais difícil do que imaginava, tanto pela determinação de Seraphine quanto pelo crescente envolvimento emocional com a jovem e os mistérios que a cercam.
Com cenas de luta entre os dois protagonistas do início ao meio da trama, a evolução do relacionamento acontece de forma lenta, como esperado para um romance construído em meio a rivalidade e desconfiança. Ainda assim, a química entre os personagens é inegável e, em diversos momentos, até cômica. Os diálogos sarcásticos parecem ter sido escritos para arrancar risadas dos leitores mesmo durante situações em que um tenta matar o outro. Embora isso possa soar pouco orgânico em alguns trechos, o recurso acaba intensificando a torcida pelo casal.
Embora Seraphine funcione como o centro da história, a narrativa em terceira pessoa é dividida entre dois pontos de vista. A escolha favorece a construção de Ransom, que rapidamente se revela mais complexo do que apenas um assassino fiel à própria guilda.
Um dos pontos negativos da obra está na forma como Catherine Doyle desenvolve os personagens secundários. Apesar de interessantes, muitos deles têm participação reduzida nos momentos mais importantes da trama. Isso fica ainda mais evidente entre os aliados de Seraphine, que frequentemente surgem quando o ápice emocional das cenas já passou e, mesmo presentes, raramente conseguem protagonizar ações marcantes.
Apesar disso, o enredo se encaixa de maneira eficiente na construção de mundo apresentada pela autora, sem incoerências evidentes, algo sempre valorizado pelos leitores de fantasia. E, claro, para os fãs do gênero, não falta um dos recursos mais clássicos: o mapa. Utilizado de forma constante ao longo da narrativa, ele contribui para a exploração do espaço geográfico fictício e se destaca como um dos pontos altos da parte técnica do livro.
Para quem gosta de histórias marcadas por rivalidade intensa, romances construídos a partir do ódio e universos mágicos envoltos em mistério, Adaga e Chama entrega exatamente a essência do clássico trope enemies to lovers.
Foto de capa: Divulgação/Intrínseca
Resenha crítica de Carolina de Melo,com edição de texto de João Gabriel Lopes
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