Brechós no Instagram: moda sustentável vira tendência gerando renda

O meio digital é uma porta de muitas possibilidades e cada vez está sendo mais usado para criar negócios. Tentando fugir da crise econômica que assombra muitas casas, as pessoas estão buscando alternativas online de gerar renda, revivendo antigas tendências: os brechós. A diferença é que ao invés de locais antigos, o lugar de venda são as redes sociais e nesse caso, principalmente o Instagram. É uma grande mudança, já que por muito tempo os brasileiros criaram um grande preconceito com esse estilo de loja. Por esse motivo, só comprava em brechós quem realmente não tinha condições financeiras. Já hoje, a moda sustentável tem ganhado seu espaço.

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Arara de roupas da blogueira e dona de brechó Ana Mastrochirico Foto: Site O Garimpo

Além da mudança no conceito dos brechós, o brasileiro também perdeu o preconceito de comprar itens usados. Esse cenário contribuiu para o crescimento do mercado. Em janeiro de 2013, os dados do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) mostravam que 10,8 mil micro e pequenas empresas comercializavam produtos usados. No ano de 2015, esse número aumentou para 13,2 mil, o que representa uma alta de 22,2%.

A professora de Conhecimento e Inovação e de Microeconomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Lèbre La Rovere, explica que as pessoas estão preferindo comprar em brechós, por terem acesso a produtos de qualidade, a preços mais baixos e também pelo tipo de consumo mais sustentável do que comprar em lojas, principalmente entre os jovens. “O conceito de economia circular vem sendo cada vez mais adotado por este público devido à preocupação com as mudanças climáticas.”

Para Renata, essa opção pode ser um bom negócio desde que o empresário faça o seu dever de casa antes, buscando se informar mais sobre o público-alvo das suas mercadorias e as condições de divulgação do seu negócio. “Brechós online, a meu ver, são uma opção para quem está habituado a utilizar redes sociais e fazer compras online. Numa cidade como o Rio de Janeiro, onde há problemas de segurança na entrega de mercadorias, creio que apenas o público consumidor mais jovem se interessaria. Já para cidades de porte pequeno ou médio pode ser uma opção interessante”, analisa a professora.

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Mirian Lima para o @brechodamirian | Calça elle et lui + blusa amarela

É por ter um público majoritariamente jovem que as vendas se consolidaram no Instagram. “As vantagens são que você não gasta com locação, nem com luz, água etc. Não demanda tanto do seu tempo como um espaço físico provavelmente toma, pois online você pode ter outro trabalho ou faculdade como projeto paralelo também”, conta Mirian Lima, dona do Brechó da Mirian. Estudante de Psicologia, ela nunca ligou de usar peças usadas e sempre gostou de procurar por roupas antigas. Nunca pensou em montar um brechó, mas com a tecnologia e, principalmente, a rede social, começou a ver muitas pessoas criando perfis para venda e achou interessante.

Foi no meio de 2017 que Mirian perdeu a bolsa auxílio da faculdade por conta de corte de gastos e começou a ter problemas financeiros. Por estudar integralmente, não havia possibilidade de trabalho formal ou, até então, oportunidade de estágio remunerado. Se vendo nessa situação, resolveu criar um perfil para venda de algumas peças de desapego pessoais.

 

Mirian Lima para o @brechodamiran | Look mom jeans 90’s + suéter de tricô

 

As vendas foram um sucesso e com isso, ela conseguiu em torno de 350 reais. Foi o pontapé inicial e motivação para começar a garimpar peças em brechó ou bazar e revender nesse perfil que havia criado. “Como já era frequentadora de brechós e sempre comprei muito, uni o útil ao agradável e criei o @brechodamirian, em final de março de 2018”. Hoje, é o brechó que gera o dinheiro dela e a sustenta na faculdade com custos como de alimentação, transporte e material.

O que também explica esse avanço é o menor poder de compra do brasileiro ultimamente, em especial dos consumidores da classe C, que ajudam o segmento a deslanchar. Segundo dados do SEBRAE, os brechós no Brasil saltaram de cerca de quatro mil para mais de 11 mil em cinco anos. Cerca de 80% das lojas online de roupas e acessórios usados ainda estão baseadas em blogs ou sites institucionais, sem a integração de um meio de pagamento. Essa situação é explicada por Paulo Tigre, professor titular do Instituto de Economia da UFRJ, como uma oportunidade para reaproveitar, reciclar e reduzir intermediários.

 

Esse consumo consciente gera microempreendimentos pois, segundo Paulo Tigre, como os brechós trabalham com roupas usadas, o negócio será sempre pequeno, mas suficiente para melhorar as vendas dos empreendedores. Para os clientes também pode ser uma forma de comprar boas roupas a preços módicos. “É um pequeno negócio que pode ser um canal alternativo para pequenos comerciantes, que já estejam no ramo e que conseguem coletar ou adquirir roupas chiques”, avalia o professor. Ele e a professora afirmam que, para ter sucesso, é interessante saber que abrir um negócio envolve muita pesquisa preliminar sobre o mercado, sobre os produtos e sobre a concorrência, além de muita disposição em cuidar do negócio durante o seu funcionamento.

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Perfil do Brechó da Mirian Foto: Reprodução / Instagram

A dona do Brechó da Mirian, que possui atualmente 3.017 seguidores, consegue fazer toda essa pesquisa preliminar, o que demanda esforço. “O brechó envolve todo um trabalho manual de garimpo, conserto e higienização, que custa muita disposição, tempo e dinheiro. Então é mais desgastante do que parece, eu mesma achei que seria mais fácil. Se você traz sempre novidades num preço justo, você consegue conquistar clientela e manter uma renda legal.”

Apesar de todas essas tarefas, Mirian se diz muito feliz com o resultado. Para ela, o ponto positivo é a possibilidade de criar moda sustentável, que faz a peça girar, com rotatividade. Isso é muito bom para o planeta, pois evita que mais roupas entrem no mundo e sejam descartadas no lixo. “Toda roupa merece segunda chance e o mais incrível do brechó é encontrar peças únicas, muitas de mais de 30 anos atrás, sendo procuradas em pleno 2018. Essa moda atemporal é incrível!”

 365 DIAS DE BRECHÓ

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Ana Mastrochirico em seu blog “365 dias de brechó” Foto: Magno Calderon

Ana Mastrochirico tem 30 anos, é designer gráfica, paulista e apaixonada por moda. Desde 2014, manteve o costume de garimpar roupas e montar seus estilos. Com essa paixão pela moda sustentável, começou a despertar curiosidade e ouvia com frequência perguntas sobre sua forma de se vestir. Tentando respondê-las, passou a postar em seu Facebook onde adquiria seus looks e montou um blog. Com o crescimento dessa ideia, no ano seguinte criou o 365 dias de brechó, em que se comprometeu a ficar um ano inteiro usando apenas roupas reutilizadas e produzidas por ela mesma.

O projeto fez sucesso e mudou a visão dela sobre brechó, a fortaleceu. Na época, blogueiras de moda postavam em seus perfis looks do dia, com roupas de marca, sempre muito caras. Essa tendência fez Ana se questionar sobre como as pessoas menos favorecidas financeiramente também poderiam se vestir bem e por um preço muito mais em conta, pelo mercado de vendas de roupas usadas. A partir daí, ela criou o Garimpomag, plataforma onde compartilha conteúdo sobre brechó e sobre consumo consciente.

Logo após essa iniciativa, a paulista que havia ido morar por 10 anos em Vitória, no Espírito Santo, resolveu voltar para São Paulo para fazer Jornalismo. Estava tudo certo até que, por conta da crise, se viu desempregada quando chegou na cidade. Nessa situação, Ana parou para pensar: “O que eu sei fazer?”. Com essa reflexão, chegou à conclusão que sua grande paixão e hobby poderia ser a solução e voltou a vender roupas no Instagram. Em 2016 criou o O Garimpo, vendendo roupa de brechó utilizando a plataforma.

O negócio estava fazendo sucesso, mas Ana deu uma pausa após conseguir um emprego de designer em uma agência e voltou para o mercado de trabalho. No entanto, se arrependeu da decisão pelo duro e não-compensador trabalho que tinha. “Não queria mais viver o sonho dos outros, aquele era o sonho do meu chefe, não o meu”. Se demitiu, reativou o perfil no Instagram e voltou às vendas online com dedicação total.

Perfil do O Garimpo Foto: Reprodução / Instagram

Hoje, o @ogarimpobrecho soma 9.706 seguidores e clientes, tendo aumento de 20% nas vendas a cada mês, com previsão de melhora para daqui a um ano. Ana vive com esse trabalho que gera uma boa renda, a mesma que ganhava em seu antigo emprego e a deixa realizada e com planos de crescimento. “É muito fácil para mim vender, lidar com o público, ainda mais que eu fiz comunicação”, afirma ela. Esse é um dos motivos para seu sucesso, além de seu comprometimento e dedicação com o consumidor.

Todo esse cuidado que Ana – assim como Mirian e outras curadoras de brechó –  tem com os clientes vem desde o primeiro contato pelo Instagram até o final da compra. Demanda todo um atendimento personalizado e especial. Mas essa atenção também precisa vir do consumidor, para evitar os furos de pessoas que reservam as peças, se prontificam a pagar, mas em cima da hora desistem ou não respondem mais. Tentando resolver isso, Ana diz: “Tento educar o cliente no sentido dele entender como funciona uma venda online, sendo sempre muito honesta e sincera”.

As vantagens de ter uma loja online são diversas, conta Ana. Perfil no Instagram é gratuito, enquanto ter uma loja física demanda vários gastos. Além de outros benefícios, como maior comodidade. “Posso trabalhar de casa e fazendo outras coisas, esse para mim é o maior ponto positivo”. No entanto, ter um espaço próprio é uma ideia considerável. “Vontade não falta, nem ideias”.

Enquanto ainda não é o momento, a designer está com uma nova ideia. O Projeto Mina, no qual ela irá unir sua experiência de mais de cinco anos desse trabalho com o conhecimento de comércio, comunicação visual e marketing digital para moda. O propósito é oferecer serviços pra quem quer começar a empreender ou para quem já tem um brechó e quer melhorar as vendas. O objetivo é ajudar mais pessoas a conseguirem fazer o que gostam e achar uma alternativa nesse mercado de oportunidades.

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Natália Pires – 7° período

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