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“O Fabricante de Lágrimas”, nova aposta da Netflix, não é fiel à obra literária

O sucesso literário italiano chega na Netflix como filme, deixa de lado e modifica cenas importantes do livro

A crítica a seguir contém spoilers.

O filme “O Fabricante de Lágrimas”, adaptação literária do livro publicado em 2021, escrito pela italiana Erin Doom, chegou na plataforma de streaming Netflix na última semana. A obra cinematográfica é dirigida pelo diretor italiano Alessandro Genovesi, e protagonizada pelos atores Caterina Ferioli e Simone Baldasseroni. O livro foi um sucesso com mais de um milhão de leituras no Wattpad na Itália, além de internacionalmente.

O enredo acompanha a jornada de dois adolescentes, Nica Dover e Rigel Wilde, prestes a completar 18 anos, que foram criados em no orfanato Grave, e entram em análise da adoção por um casal, Sr. e Sra. Milligan. A narrativa é contada em primeira pessoa por Nica Dove, a protagonista, e se desenrola no Alabama, nos Estados Unidos.

Poster em inglês do filme. O adpatação é um sucesso globalmente.
Foto: Reprodução / Netflix

O LIVRO

A linguagem da obra literária é rica em melodrama e detalhes, o que pode sobrecarregar alguns leitores, e levá-los a desistir da leitura. No entanto, o desenvolvimento da história de Nica e Rigel é cativante, graças aos seus passados tumultuados e assombrados, e um futuro repleto de dilemas amorosos para os personagens. Embora muitos classifiquem o livro como uma história de amor proibido, é necessário chegar até o desfecho para compreender plenamente os acontecimentos.

Capa do livro é marcada por uma borboleta por causa do significado do nome “Nica”.
Foto: Reprodução / Amazon

Ser adotada é o sonho de uma vida para Nica, conforme descrito pela autora. Após perder seus pais em um acidente de carro na infância, Nica se torna órfã e vai morar em um orfanato, que é marcado por um lado sombrio e criminoso. Com a ajuda de uma amiga Adeline e de Rigel, embora ela não esteja ciente de sua assistência e proteção, Nica enfrenta os anos no Grave. Rigel sempre implicou com Nica durante esse período, o que a impedia de entender seus verdadeiros sentimentos. Suas provocações eram a maneira que ele encontrou de demonstrar afeto por ela.

Rigel Wilde é retratado como um personagem frio e rude. Ele cresceu no orfanato sem nunca ter conhecido seus pais, que o abandonaram em frente ao Grave quando ainda era um bebê. A diretora na época, Sra. Fridge, o criou como se fosse seu próprio filho. Sem muita escolha, Rigel cumpria o papel de denunciar qualquer criança que quebrasse as regras, exceto Nica.

No processo de adoção pela família Milligan, Nica fará de tudo para ser uma boa filha para seus futuros pais adotivos, tentando não decepcioná-los, pois o processo poderia ser cancelado. Contudo, com a presença de Rigel na mesma casa e seus próprios demônios a seguindo, ela se depara com um grande desafio ao descobrir seus sentimentos por Wilde e tentar escondê-los de todos, preocupada com sua futura adoção. Apesar de não terem nenhuma ligação biológica, seriam considerados irmãos pela lei.

O FILME

O filme se passa em uma cidade pequena na Itália, o que difere do livro, mas isso não é algo ruim, pois mantém-se fiel à origem da obra. As escolhas dos atores, principalmente Rigel (Simone Baldasseroni), são bem fieis ao livro, e a atriz que interpreta Nica (Caterina Ferioli) também foi uma boa escolha. A direção do filme é feita por um homem, o que, na minha opinião, poderia ser realizada por uma diretora italiana para combinar com o fato de a autora ser mulher e a narrativa em primeira pessoa da obra ser de uma jovem. Além disso, isso proporciona mais espaço na indústria para diretoras mulheres.

Atores posam para divulgar filme.
Foto: X / Netflix Brasil

A adaptação era aguardada com grande expectativa pelos fãs da obra literária e, nos seus primeiros dias na Netflix, alcançou o primeiro lugar no top 10 do Brasil. O filme tinha um potencial enorme para se tornar um grande fenômeno de romance devido à história, às escolhas dos atores e por ser produzido pela Netflix. Porém, o tempo do filme, com apenas uma hora e quarenta e cinco minutos, não seria ideal para um livro de quase 600 páginas. É praticamente impossível desenvolver adequadamente a narrativa em tão pouco tempo— o ideal seria uma série.

A cena do primeiro beijo de Nica e Rigel no filme saiu completamente diferente do que foi descrito no livro, o que é frustrante para aqueles que o leram e entendem a importância desse momento crucial para o relacionamento deles. No livro, o primeiro beijo acontece depois de uma festa na casa de Lionel, não em um baile feito pela escola. Assim como o filme, Lionel agrediu sexualmente Nica, ela consegue fugir e encontra Rigel em casa, onde ocorre a briga dele com Lionel. Só depois, cheios de emoção pelo que aconteceu, eles se beijam na sala da casa. Mudar esse fato foi o maior desencanto pelo filme, onde a cena fica rápida cortando as falas com as confissões e medos dos dois. 

Algumas partes seguintes do filme, como quando fogem do carro de Lionel na ponte, não existem no livro. Outros momentos de suma importância, como a investigação dos crimes cometidos pela ex-diretora do orfanato que já estava em andamento antes do acidente, foram alteradas e ficaram sem sentido e acelerada no longa.

Entretanto, momentos como quando parte Rigel nega a adoção para Anna Milligan, confessando estar apaixonado por Nica e que só concordou com a fase de teste de adoção para não se afastar dela, ficam mais clara no filme. Foi importante dar mais atenção a esse enredo para que o público compreendesse que eles não são irmãos, nem legalmente. No livro, essa parte é contada em terceira pessoa, com a autora no papel de narradora onisciente para relatar os pensamentos e sentimentos de Rigel, por isso ficou um pouco omitida. Os leitores só entendem esse fato quando Rigel compartilha sua escolha com Nica.

A ausência de várias cenas importantes para a narrativa e mudanças significativas fez com que a história se perdesse. Cortes de tempo confusos, enredo corrido e diálogos rasos, além da falta de personagens secundários, deixaram um vazio, como as amizades de Nica na escola, sua relação com Asia e o cuidado que teve com Rigel enquanto ele estava em coma no hospital. Suas vidas universitárias e a compra de um apartamento por Rigel também foram excluídas no filme. Com isso, o final se torna confuso para os espectadores.

Foto de capa: Reprodução / Netflix

Crítica por Juliana Ramos com edição de texto de João Agner

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5 comentários em ““O Fabricante de Lágrimas”, nova aposta da Netflix, não é fiel à obra literária

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  4. Avatar de Juuuh

    fiquei com mais vontade ler do q de assistir ao filme.

  5. Avatar de Emanuelle

    Não gostei muito do filme, mas vi potencial na história. Estou finalizando o livro e amando! Quando terminar vou rever o filme pra ver se fica melhor depois de conhecer a história de fato.

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