Da sala de aula

A presença feminina na arte urbana

Mulheres têm participado cada vez mais de eventos de grafite

por Anna Lemos

O número de mulheres no grafite tem crescido consideravelmente. Um espaço que sempre foi dominado pelos homens tem sido um lugar para as grafiteiras expressarem suas opiniões e críticas na busca por igualdade de gênero. As artistas estão prontas para quebrar barreiras e ser exemplo para outras garotas, que têm a vontade de conhecer a arte urbana e ver que este também é um espaço de empoderamento feminino.  

Organizadora do Baile das Rainhas, predominantemente feminino, DJ Rê conta como surgiu a ideia de fazer um evento voltado para mulheres: “O baile é uma produção independente com ações coletivas e colaborativas. A intenção é unir mulheres produtoras, artistas, arte educadoras, performers…”. Na comunidade do Arará, em Manguinhos, a iniciativa teve a presença de grafiteiras de todos os bairros do Rio. Cada uma levou sua arte para falar sobre o poder que as mulheres podem ter no grafite. A arte urbana tem uma extensa diversidade, e traz também questionamentos importantes sobre questões sociais.

Negra Rê dando base na parede do mutirão
(Foto: Anna Lemos)
 
 

“O grafite vem na luta contra a homofobia, o racismo e tantas outras lutas que envolvem uma minoria”, explica DJ Rê.  

Resistência feminina 

Na arte urbana, ocupar as ruas já é considerado um ato político, é hastear bandeiras por meio de letras e desenhos, brigar por igualdade usando spray e pincel. Iame Raissa (33) grafita há cinco anos, e diz o quanto tem sido importante a contribuição do grafite na luta por igualdade de gênero: “Estamos num espaço que antes era basicamente masculino. Acho que faz parte da luta ocupar um espaço onde a gente quer estar, independentemente de os homens serem predominantes ou não”.  

As imagens dão voz a quem vive numa sociedade de opressão e de padrões que rodeiam o universo das mulheres, o que tem levado a voz feminina para o mundo, ecoando em grito de liberdade. “Só de você estar na rua, você está se empoderando e empoderando outras pessoas. É um jeito de a gente falar e gritar”, diz Iame.

Iame Raissa em evento de grafite 
(Foto: Anna Lemos)

Seja nas áreas centrais ou nas periferias, o grafite é uma arte inclusiva, com intervenções socioculturais. A trajetória de outras grafiteiras tem inspirado meninas a se interessarem em conhecer a pintura com o spray. Natália Flores (33), conhecida como Natf, diz: “As que vêm conquistando esses espaços, são as grandes referências das próximas gerações”. Natália está sempre presente nos chamados “mutirões” de grafite, que costumam acontecer, na maioria das vezes, nas favelas e periferias.

“É importante essa movimentação nas comunidades, por meio de projetos que acolhem outras mulheres”, pontua Natf.

Ela também faz parte de uma crew, as Brabas Crew, que se unem para estar sempre presentes em prol da arte e da defesa dos direitos. Natália fala da importância de estar nas ruas reivindicando a igualdade de gênero: “Muitas mulheres são excluídas de alguns eventos, então temos que nos juntar e ir para as ruas proferir o que é nosso”, expressa Natalia.  

Natália e sua persona Molly
(Foto: Anna Lemos)

Uma luta pelos direitos 

Cada vez mais, as mulheres estão tirando a sua arte do papel, transformando muros e fachadas de locais públicos em espaço de protestos e resistências ao ar livre, e usando uma linguagem interpretativa. Elas participam de intervenções e aumentam a ocupação feminina na arte, que ainda é muito dominada pela presença masculina. Os encontros onde organizações têm procurado incentivar o gênero feminino a participar mais de editais que selecionam mulheres têm sido fundamentais para essa ascensão. 

Nascida na comunidade da Vila Kennedy, Carla Felizardo (44 anos), conhecida como Negra Grafite, é grafiteira, produtora cultural, arte educadora e curadora de eventos de arte urbana. Ela tem sete anos de grafite e acompanhou de perto essa ascensão das grafiteiras.

“O mundo do grafite é um mundo masculinizado, a visibilidade é direcionada aos homens. Existe uma inclusão, mas a gente ainda sente a carência de ter eventos prioritariamente femininos”, diz Carla. 

Ela criou um coletivo de mulheres que se reúnem para pintar,  a AMO Crew, que atualmente tem quatro integrantes, também representantes nos eventos de arte urbana. “Existe uma grande potência de mulheres buscando representatividade. A hashtag #maismulheresnografite é o símbolo dessa busca”, pontua Carla.

“Tivemos um aumento significativo. São muito mais meninas pintando. Eu, como oficineira, já estimulei muitas mulheres a iniciar na arte urbana”, conta Carla. 

Carla Felizardo em evento de grafite
(Foto: Anna Lemos):

O poder de transformar 

Influenciado pela cultura hip hop, o grafite foi popularizado nos anos 70 e 80 no Brasil, mas era considerado uma manifestação artística associada ao vandalismo e foi alvo de críticas e denúncias, mesmo levando mais cores para as cidades. Em 2011, o grafite foi descriminalizado e reconhecido como arte. Essa street art (arte de rua) é, hoje em dia, um dos meios de expressão mais populares do Brasil. Os artistas utilizam o grafite como uma ferramenta para combater as altas taxas de violência, defender temas e levantar bandeiras como a do feminismo, seguindo uma narrativa de diversidade, e buscando respeito nos muros.


Reportagem realizada por Anna Lemos para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “A presença feminina na arte urbana

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