Cultura

Para Chimamanda Adichie, “histórias podem humanizar, dar dignidade e promover reparações históricas”

Autora nigeriana esteve no Brasil depois de oito anos, convidada do Salão Carioca do Livro (LER)

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, conhecida e premiada por vários romances, como “Hibisco Roxo” e “Meio Sol Amarelo”, muito populares no Brasil, conversou com a filósofa e também escritora, Djamila Ribeiro, no último sábado (14), num Maracanãzinho repleto de 3 mil fãs, leitores e personalidades. “As narrativas podem e devem ser usadas para reparação histórica. Acredito na força transformadora que uma história tem”, disse ela, num dos mais badalados eventos do Salão Carioca do Livro (LER).

Aos 44 anos de idade, a autora teve seus livros traduzidos em mais de 30 idiomas. É considerada um ícone cultural e feminista da contemporaneidade, premiada com 16 títulos de doutora honoris causa. Ela já teve seus textos citados pela cantora pop Beyoncé na canção “Flawless” e seus dois TED Talks, “O perigo da história única” e “Deveríamos ser todos feministas”, somam 15 milhões de visualizações.

“A leitura formou-me, alimentou-me, me ensinou sobre o mundo e me deu confiança. Eu comecei a escrever muito jovem, mas sempre soube que escrever era o amor da minha vida”, afirma a escritora.

Chimamanda se disse feliz por ver mais autores e autoras negras no cenário literário brasileiro, bem como maior diversidade no público frequentador de um festival literário (Foto: Divulgação/Salão Carioca do Livro (LER)

Em sua fala, Chimamanda reverenciou seus ancestrais e sua pátria, dois importantes temas de sua escrita.

“À medida que envelhecia, comecei a sentir um sentimento de orgulho pela minha cultura. Venho de um povo sábio, bem-humorado, empreendedor e gentil. Um povo que resistiu à colonização britânica. E assim, contando histórias, meu pai me deu o dom da autoconfiança e eu estou aqui hoje, confiante do meu lugar no mundo, porque tive a sorte de ouvir as histórias de quem eu sou”, conta a autora.

Chimamanda destacou a importância de contar histórias do passado porque elas estão conectadas ao presente. Para a autora, é mais do que necessário contar histórias de como os sistemas de opressão esmagaram os espíritos e as almas das pessoas.

“Não devemos viver de mentiras, devemos viver pela verdade, contando as histórias esquecidas e contando-as honestamente. Se quisermos pensar em incluir todos nós, não devemos pensar meramente em termos de como as pessoas são oprimidas, devemos pensar também no que elas valorizam, do que se ressentem, aspiram, o que lhes traz alegria e fere seu orgulho. A melhor forma de fazer isso é ouvindo suas histórias”, explica Chimamanda.

A autora brasileira Djamila Ribeiro, escritora nigeriana Chimamanda Adichie e jornalista Luana Génot em conferência, no Maracanãzinho.
(Foto: Divulgação/Salão Carioca do Livro (LER)

De volta ao Brasil após 14 anos (ela veio para o Festival Literário de Paraty em 2008), Chimamanda afirmou estar vendo em solo nacional mais pessoas negras do que da última vez. Esse era um de seus questionamentos quando esteve aqui no passado. Apesar de o Brasil ter a segunda maior população negra do mundo, apenas atrás da Nigéria, país de Chimamanda, segundo ela, no passado não se viam negros em espaços culturais, literários e restaurantes sofisticados, por onde ela havia circulado.

“Voltando aqui anos depois vi pelo menos alguns negros. Sei que comparado a 2008, as mulheres negras agora estão sendo publicadas. Me disseram também que os melhores livros são de autores negros e eu espero que seja verdade. Porém, é importante abordar o fato de que o passado não é passado para um país como o Brasil. É necessário dar mais visibilidade aos trabalhos de pessoas negras, à causa negra, ao movimento. Ainda tem muito a ser feito”, expõe a autora.

Ao receber Chimamanda, no palco do Maracanãzinho, Djamila Ribeiro agradeceu a outras autoras e pensadoras negras brasileiras e seu legado: Lélia Gonzales, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Sueli Carneiro, Eliana Alves Cruz, Elisa Lucinda e inúmeras outras.

“Ter Chimamanda aqui representa o reconhecimento ao trabalho dela para toda a sociedade. É muito simbólico ter uma mulher negra sendo celebrada por milhares de pessoas nesse País que tanto violentou essa população negra. Então, isso é revolucionário e histórico. Mais uma vez as mulheres negras nos mostram que elas são o caminho da revolução, que não tem como pensar esse país, sem pensar a potência que elas nos trazem”, diz Djamila.

Confira a gravação completa da conferência “Contando histórias para empoderar e humanizar”, com Chimamanda Adichie e Djamila Ribeiro:

Foto de Capa: Reprodução/YouTube Ler

Indaya Morais (8º período) e Daniela Oliveira (Coordenadora da Agência UVA), com revisão de Gabriel Folena (5º período)

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