Sociedade

Exposição nas calçadas cariocas

População de rua do Rio de Janeiro encontra auxílio na solidariedade e políticas públicas durante à pandemia do coronavírus

A crise global do coronavírus gerou consequências em todos os campos ao redor do mundo. No Rio de Janeiro, não foi diferente; a pandemia chegou e tem afetado, especialmente, os grupos mais excluídos, como a população em situação de rua. 

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizou um estudo levantando dados de estimativa da população em situação de rua no Brasil. A análise mostra que a maioria dessas pessoas estão na região Sudeste do país, em cerca de 56,2%. 

A prefeitura do Rio de Janeiro fez um levantamento, em outubro de 2020, que constatou um total de 7.272 pessoas em situação de rua, na cidade.

Um desses moradores é Alexandre Fontes da Silva, de 34 anos. Ao ser questionado por onde costuma ficar, Alexandre aponta para o local em que se encontra, na Praça Nossa Senhora da Apresentação, em Irajá. Com outro gesto, ele sinaliza que também fica na esquina da Avenida Monsenhor Félix, no mesmo bairro. 

Há sete anos na rua, Alexandre também já foi morador de Jardim América, Vista Alegre e Senador Camará, mas afirma que é no atual bairro onde encontra bons sentimentos. “O bairro de Irajá representa alegria e felicidade. Aqui eu creio que é Terra de Deus”, diz Alexandre.

Apesar da pandemia, ele diz não ter medo do Coronavírus e que vai estar pronto caso “Deus decida levar sua vida”. Alexandre comenta que se sente mais confortável nas ruas, já que teve seus pertences roubados em um abrigo, além de ter sido maltratado por outras pessoas em situação de rua que estavam na unidade.  

Embora não esteja em nenhum centro de acolhimento, o mesmo recebe ajuda de ONGs e considera o trabalho delas de extrema importância.

“Eu sou um sobrevivente e Deus usa o coração dessas pessoas solidárias para ajudar. Elas têm uma vaga no céu”, aborda Alexandre. 

Em relação ao futuro, Alexandre relata com clareza que só tem um propósito em mente. “O amanhã só pertence ao Pai. A vida não me leva, eu apenas preciso agradecer de manhã cedo por meu pulmão poder se abrir e fazer com que eu respire mais uma vez”, reflete Alexandre. 

Com um crescente número de pessoas em situação de rua na cidade, a Prefeitura do Rio utilizou políticas públicas para o auxílio dessa população. De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio (SMASDH), entre o período de 10/03 a 12/11, 83.249 atendimentos foram feitos à população em situação de rua.

Além disso, 18.814 kits de higiene foram entregues e mais de 11.637 pessoas em situação de rua e vulnerabilidade foram acolhidas nas unidades da secretaria. Atualmente, na cidade do Rio, são 3.261 vagas para acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social e de rua. A rede dessa pasta possui 41 unidades de acolhimento próprias e 28 conveniadas.

Unidades públicas auxiliam população vulnerável no Rio (Foto: divulgação/Prefeitura do Rio)

Para o professor de sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Dario de Sousa, é importante que as políticas públicas tenham um caráter técnico, no sentido de serem voltadas à melhoria da qualidade de vida das pessoas de extrema pobreza no meio urbano. Dario também afirma que não há um motivo principal para o alto número de pessoas em situação de rua no Rio, mas que todos os pretextos estão ligados ao crescimento da extrema pobreza.

“As pessoas pobres têm uma rede social de apoio familiar menos densa e pouco capaz de protegê-las. A pobreza também faz com que situações de comprometimentos mentais, de saúde e de outros tipos de vulnerabilidade recaiam sobre a população em situação de rua”, explica Dario. 

Para o sociólogo, existem medidas que podem ajudar no combate ao crescente número de pessoas em situação de rua no Rio. De acordo com ele, dar prosseguimento aos trabalhos de gestões anteriores, ouvir profissionais que estiveram envolvidos, gerar mais detalhes no campo da política habitacional e realizar investimentos na produção de novas moradias através da construção civil, seriam as principais atitudes que o poder público poderia exercer para a paralisação do aumento de pessoas que vivem nas ruas. 

O sociólogo ainda conta que com a pandemia do Coronavírus, a situação dessas pessoas só piorou.

“Aqueles que já eram invisíveis ficam menos existentes agora. Não se trata apenas do risco de contaminação e desenvolvimento da doença. Há pessoas com condições nutricionais muito ruins, que passam fome e são evidentes mais vulneráveis. Sem contar as que estavam no limite da ocupação precária e informal, e que decaíram por conta do rebaixamento da economia fluminense”, desenvolve Dario, que tem ênfase em Estratificação, atuando principalmente nos seguintes temas: desigualdade da pobreza, populações de rua e conflitos urbanos, sociologia urbana, Favela, juventude, estratificação e violência.

O alto número de pessoas em situação de rua no Rio está ligado ao crescimento da extrema pobreza (Foto: divulgação/Observatório Legislativo da Intervenção Federal na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro

Toda ajuda é bem-vinda 

Apesar do isolamento social ter causado distanciamento entre todos, existem grupos que buscam ajudar as pessoas em situação de rua, mesmo em tempos de crise. Em uma noite fria e chuvosa de 2017, Daniela Soares ficou preocupada com a situação da população de rua e decidiu se reunir com os amigos para ajudar através de ações solidárias. Conhecido como “Amigos da Rua”, o projeto tem como finalidade distribuir quentinhas, no centro do Rio.

Os 15 voluntários se reuniam de noite em frente à sede do Ministério Público para a distribuição das marmitas, mas por questões de segurança, durante a pandemia, as ações estão acontecendo na parte da manhã. Com a crise do coronavírus e as pessoas em situação de rua necessitando cada vez mais de ajuda, outras ações estão sendo realizadas, como a entrega de kits de higiene e roupas. Além disso, há distribuições de cestas básicas para famílias de baixa renda do bairro do Andaraí.

 Voluntários do projeto se reúnem para distribuição de cestas básicas (Foto: Reprodução/Amigos da Rua) 

Em média, 100 pessoas são atendidas pelo grupo. Daniela conta que o principal ganho das ações solidárias é levar dignidade aos moradores e fazer com que eles se sintam mais “visíveis”. A idealizadora ainda ressalta os planos do grupo para o futuro.

“A meta é manter o atendimento, enquanto existir uma pessoa em desabrigo, passando fome e descaso. Gostaríamos que essas situações não existissem mais e nossa maior motivação é saber que o pouquinho que fazemos, muda o mundo dessas pessoas”, revela Daniela.

Uma extensa fila é feita para o recebimento de quentinhas (Foto: Reprodução/Amigos da Rua)

Perto dali, na zona sul da cidade, uma ONG também aparece como auxílio para a população de rua. O “Projeto Ruas” atua para demolir barreiras, e prestar apoio e assistência às pessoas em situação de rua, por meio da distribuição de refeições, kits de higiene, realização de atividades semanais e outras campanhas. 

A organização sem fins lucrativos teve início no Leblon e hoje está presente em outros três bairros: Botafogo, Copacabana e Largo do Machado. Com a pandemia do Coronavírus, a atuação focou na distribuição de itens de assistência básica e outros serviços, como provisão de documentos pessoais. 

Mesmo na pandemia, o projeto segue ajudando a população de rua (Foto: Reprodução/Projeto Ruas)

A gestora do projeto, Larissa Montel, revela que a média de atendidos antes da pandemia era 30 pessoas por bairro. Já no período de emergência sanitária, esse número está em 50 pessoas, mas já ultrapassou 100. De acordo com a gestora, mais de 800 pessoas foram atendidas antes da pandemia da Covid-19. 

Larissa explica que as rondas e o processo de “moradia primeiro“, em que a ONG ajuda no alojamento em casa própria, além de uma série de formações profissionais para capacitar o morador de rua, são as iniciativas do grupo. Apesar de diferentes ações estarem suspensas no momento, a gestora cita a importância das ações solidárias como um todo.

“Os principais ganhos são a criação e mantimento de vínculo, espaço de conexão com os atendidos, além de suprir necessidades básicas, cuidados e proteção para essas pessoas”, expõe Larissa. 

A gestora ainda ressalta que durante as atividades é construído um espaço de confiança entre o voluntário e a pessoa atendida, como a partilha de sonhos, aflições e desejos. Por esse e outros motivos, Larissa informa que possui metas e planos para o futuro do “Projeto Ruas”.

“A proposta da organização é ser uma franquia social, que possa ser expandida para outros bairros, cidades e estados. Queremos investir em moradia, falar sobre habitação e amplificar essa metodologia, além da geração de dados para buscar soluções que façam sentido. São muitos sonhos e planejamentos para o futuro e vamos nos adaptando ao cenário nacional e global que vai se configurando”, manifesta Larissa. 

Atividades entre voluntários e atendidos é um dos métodos para dinâmica interativa do projeto (Foto: Reprodução/Projeto Ruas)

Incumbência Política 

No campo da política, projetos para auxílio das pessoas em situação de rua estão em andamento. Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), o Deputado Danniel Librelon é o Presidente da Comissão Especial para discutir e analisar o problema crescente da população em situação de rua, e traçar uma radiografia atualizada da questão no Estado do Rio de Janeiro.

O objetivo da comissão é levantar números assertivos, mapeando pontos de concentração de pessoas em situação de rua, e outros dados estatísticos que apontem com precisão a evolução desta população e os efeitos correlacionados que impactam direta e indiretamente os diversos setores da sociedade.

 Danniel Librelon é o responsável pela criação da Comissão em agosto de 2019 (Foto: Reprodução/Instagram)

O Deputado menciona que é necessário a elaboração de um conjunto de informações fundamentadas para reduzir o problema de forma efetiva.

“O estado de invisibilidade desse contingente populacional e a ausência de resultados satisfatórios das políticas públicas para promover a reinserção social e o tratamento humanizado fazem com que medidas urgentes sejam necessárias no âmbito legislativo, a fim de contribuir na construção de um diagnóstico atualizado. Este diagnóstico tem como objetivo orientar possíveis soluções a serem adotadas no enfrentamento e discussão do tema”, expressa Danniel.

As reuniões das Comissões Especiais estão suspensas durante a pandemia, porém o deputado continuou exercendo sua atividade parlamentar, apresentando projetos a fim de atender às principais necessidades da população em situação de rua. Ao todo, sete projetos foram apresentados, sendo dois aprovados e posteriormente sancionados.

As propostas aprovadas foram: a elaboração e divulgação de campanhas a respeito da infecção pelo Coronavírus e as formas de prevenção direcionadas à população em situação de rua no estado do Rio, e um projeto que dispõe sobre a ampla divulgação dos locais que estão abrigando, em situação emergencial, a população de rua. 

A comissão será encerrada devido questões regimentais, no retorno dos trabalhos. Porém, Danniel informa que tem planos para continuar na ajuda à população de rua. “Minha intenção é propor uma nova Comissão e continuar a discutir e ouvir os órgãos envolvidos no tema com o objetivo de propor políticas públicas que possam minimizar o sofrimento deste grupo tão vulnerável”, informa o Deputado.

João Henrique Reis – 5° período. A reportagem premiada foi produzida no âmbito do 12º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão.

Logomarca /Instituto Vladimir Herzog. São Paulo, Brasil, 2020

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