Sociedade

A crise acumulada e os desafios para encontrar um emprego no Brasil de 2020

Em um cenário de sufoco econômico causado pela pandemia do novo Coronavírus, a retomada do emprego é o desafio mais difícil para o povo.

A carteira azul com o escudo brasileiro representa o grande desejo de quase 13,8% da população que está, hoje, na busca por um emprego de carteira assinada. Até julho de 2020, 82 milhões de brasileiros possuíam de alguma forma uma assinatura válida e atual no documento que garante direitos trabalhistas, um salário e outros benefícios.

No entanto, nem a modernização e a entrada no século XXI garantiu que empregos fossem protegidos no surgimento da pior pandemia em quase 80 anos. O Brasil atingiu a marca histórica de 13 milhões de desempregados em Julho, e isso representa 13,8 % dos brasileiros, não muito longe, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que a América Latina perdeu cerca de 34 milhões de empregos movidos pelo surto do novo coronavírus.

O país que ensaiava uma recuperação após 3 anos de uma recessão histórica precedida por uma crise política, foi por água abaixo com os números recordes da pandemia. Até o momento foram 150 mil mortes e 5 milhões de casos. O Brasil é o país com mais casos na América Latina, e o segundo no continente americano, atrás apenas dos Estados Unidos.

A crise econômica dentro da crise da pandemia afundou as perspectivas de um futuro melhor para o país, e para os desempregados que tentam a sorte na informalidade. Mesmo com a pandemia, o Brasil teve 38 milhões de pessoas trabalhando na informalidade. De acordo com Panorama Laboral da Covid-19, houve uma queda de 5,4% na ocupação média dos brasileiros, que sem uma renda, foram assistidos desde maio com o Auxílio Emergencial no valor de 600,00 reais.

Mas engana-se quem pensa que o desemprego surgiu apenas na pandemia, Magno Nobrega, de 35 anos, e 15 deles dedicados a supervisão de T.I se viu desempregado desde o ano passado após a quebra do supermercado onde trabalhava. A luta por um novo emprego teria terminado, se não fosse a pandemia, demitido em 19 de março, dois dias depois do coronavírus ser declarado pandemia e de ter conseguido a assinatura na carteira.

Magno Nóbrega perdeu o emprego dois dias depois de ter sido contratado devido a pandemia (Foto: Acervo Pessoal)

“Foi frustrante” diz ele, que acumula 9 entrevistas sem resultados positivos desde então. “Não é difícil ser chamado para uma entrevista, difícil é você convencer que pode trabalhar lá mesmo que esteja parado antes disso (pandemia)”. O caminho para ter a carteira assinada é mais difícil com a atual situação. Em um contraste com Magno, Marcus Zanella, conseguiu um emprego de atendente durante a pandemia.

Marcus Zanella, 22 anos (Foto: Acervo Pessoal)

“Consegui ainda em Junho, de lá pra cá muitos amigos meus perderam o emprego e tiveram que usar o auxílio do governo”, Marcus se refere a polêmica ajuda que o governo federal deu aos desempregados de todo o país. Um voucher no valor de 600,00 por 5 meses e, que a partir de Outubro, será de apenas 300,00 reais, com a garantia de receber até dezembro. “Acabou, não vai ter em janeiro” é o que afirmou o ministro Paulo Guedes, em 8 de outubro ao ser questionado sobre a possibilidade do Voucher existir em 2021.

“Eu sei que ajudou muita gente, mas ainda é um valor bem baixo” disse Marcus, que afirmou que seu namorado, Victor conseguiu o auxílio, após perder o emprego como entregador de quentinhas em um restaurante self-service em Mesquita, na baixada fluminense.

O retrato da demissão de Victor corrobora os dados do CAGED, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho. De Janeiro a Julho de 2020, 1.547.000 milhão de empregos foram perdidos no país, a maior parte no ápice da pandemia entre Março e Maio. Os setores mais atingidos foram serviços com 489 mil vagas perdidas, seguidos do comércio com 409 mil vagas e a Indústria com 107 mil vagas.

Cargos como garçons, copeiros, barmans representam 131 mil vagas perdidas, auxiliares de escritórios (atendentes, secretárias etc.) 92.706 postos perdidos, e cargos como cozinheiros e na indústria de alimentos representam 62.474 e 45.353 vagas perdidas.

O turismo foi duramente golpeado com pouco mais de 50 mil cargos perdidos desde o começo da pandemia até o mês de agosto, quando lentamente começou a retomar suas atividades que, ainda, dependem do afrouxamento das medidas restritivas impostas pelos estados.

Thiago Cardoso, de 21 anos, era consultor de viagens em uma importante agência de turismo no sul de São Paulo, a perda do emprego refletiu no aspecto de cidades que dependem do setor para sobreviver. “Eu sou de Pirapozinho, é uma cidade de pouco mais de 20 mil pessoas, a gente precisa do turismo, todo o dinheiro que entra aqui vem do turismo, esse ano foi talvez o mais difícil pra muita gente”, conta.

Thiago Cardoso trabalha e mora em Pirapozinha, no interior paulista – Foto: Acervo pessoal

Cidades como Pirapozinho em São Paulo, e outras, e até mesmo em estados, já sentiram de maneira muito cruel o impacto da pandemia. No nordeste, por exemplo, 18% de todo o arrecadamento da região vem do turismo e em estados como Rio Grande do Norte e a Bahia, em que 24% do PIB vem desse setor. 8 dos 9 estados da região ainda mantém as medidas restritivas ativas, mesmo que mais brandas do que em maio, quando foi o período mais rígido, apenas o estado do Rio Grande do Norte aboliu 90% suas medidas restritivas.

A Retomada da vida normal

De forma lenta a vida normal começa a ressurgir, o chamado “novo normal” acostumou as pessoas a viverem com máscaras no rosto e álcool em gel na mão, a dura forma com que as medidas restritivas foram tomadas não proporcionou as pessoas se prepararem para a pandemia, afinal ninguém se prepara para uma mudança tão brusca na forma de viver.

Sobrevivendo ao desemprego e driblando a fome, a falta de dinheiro e o desespero por ajuda, a informalidade surgiu como uma via para escapar do fundo do poço. Maria de Lourdes, de 64 anos, se viu obrigada a confeccionar máscaras e vendê-las para complementar sua renda “Minha aposentadoria não dá pra segurar as 3 pessoas aqui em casa que perderam o emprego, tive que me virar nos 30”.

Para driblar a crise, Maria de Lourde confecciona máscaras para vender. (Foto: Acervo Pessoal)

A ótima notícia talvez seja que Lourdes vendeu em uma semana algo que ela venderia em um ano “Foram quase 3000 máscaras de uma só vez para uma empresa de remédio, e agora preciso fazer 1500 para uma fábrica de calçados”. As máscaras de pano, ou de TNT, são vendidas a 5 reais cada, acima de 100 elas passam para o valor de 4 reais. “Tá dando pra segurar”.

A retomada de alguns setores econômicos trazem alívio para famílias, e isso significa alívio para a própria economia do país, isso porque 60% da roda econômica do Brasil depende do consumo das famílias. A abertura de shopping, mercados e feiras possibilitou que pequenos empreendedores voltassem a procurar clientes e assim sentirem um alívio nas contas.

“Não aguentava mais tanto empréstimo”, exclama Lucas Dias, que viu sua pequena lojas de móveis quase fechar durante a pandemia. “Vim dos Estados Unidos somente para abrir essa loja, abri e quase perdi todo meu investimento. Felizmente tudo está voltando ao normal”. Ele explica que quando quase desistiu do negócio recebeu a notícia de que poderia voltar as atividades de entrega das mercadorias. “Foi um alívio. Em uma semana consegui vender 7 itens da minha loja e acalmar os bancos”, revela.

Lucas Dias morava nos Estados Unidos antes de voltar ao Brasil (Foto: Acervo Pessoal)

Se para Lucas a sorte foi conseguir voltar a vender e entregar suas mercadorias, para Sandro Luiz, o tão sonhado emprego surgiu após a pandemia sofrer o último afrouxamento no dia 20 de agosto, no Rio de Janeiro. “Até tinha esquecido da vaga. Eles me telefonaram depois de muito tempo, mas graças a Deus conquistei esse emprego”. Sandro conseguiu um trabalho como repositor em uma rede de lojas de departamento, foi e apenas um dos mais de 75.948 recontratados ou contratados do comércio nessa retomada da economia. “Fiz todo o processo pro whatsapp, só precisei sair de casa pra assinar a carteira”, conta.

Sandro Luiz, 24 anos (Foto: Acervo Pessoal)

O tipo de modalidade de contrato do Sandro não foi por acaso, durante a pandemia, com o aumento do chamado home office, muitos departamentos responsáveis por contratação utilizaram do aplicativo para não ficarem desfalcados. “Foi o que deu, adaptamos a nossa necessidade e respeitamos as medidas restritivas” disse Marcus Vinicius Monteiro, consultor de RH da CICLO, empresa responsável por processo seletivos de gigantes como a AMBEV. “Representa uma porta que esperávamos que seria aberta mais para frente, mas com a pandemia ela foi aberta antes, é uma tendência”, diz.

Marcus Vinícius é consultor da CICLO a 5 anos (Foto: Acervo Pessoal)

De acordo com o BNE, Banco Nacional do Emprego, principal portal para processos seletivos em aberto, o whatsapp foi responsável por um aumento de 53% das contratações online, entre os meses de Março e Setembro. “Barateou muito o serviço. Ele permite que os candidatos não gastem dinheiro com a passagem, tendo o mesmo efeito que uma entrevista presencial”, completou.

O crescimento econômico talvez seja hoje um desafio tão grande quanto controlar a pandemia, e ambas tem em comum que só poderão ser solucionadas com ajuda do governo. O retrato das duas crises pode ser mais positivo dependendo de quão disposto está o poder público para mudar essa realidade.

Bernard Múrcia 8º período

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