Da sala de aula

Na linha de frente da solidariedade

Três lideranças femininas se unem pelo Rio, contra a Covid-19 e a desigualdade social

Era tarde de sábado quando Clarice Linhares e Luiza Serpa resolveram unir as forças de suas organizações, frente à Pandemia de Covid-19, e chamaram Andrea Gomides para fazer parte desse movimento. A quarenta, recém instaurada pelo prefeito Crivella, no dia 22 de março, havia colocado não só elas, mas várias lideranças do terceiro setor em alerta. Logo que identificaram a urgência, começaram a se mobilizar. (Na foto, Clarice Linhares/Banco da Providência – Arquivo Pessoal)

Paralelamente às três, estava se formando um grupo no WhatsApp, uma espécie de “Reage Rio”, em que vários amigos queriam saber o que fazer e como fazer. Conhecendo várias pessoas desse grupo, realizaram uma grande união de esforços e separaram o Movimento em duas frentes: a área da Saúde, articulada pelo Instituto da Criança com o Instituto Desiderata, e a de Comunidades, liderada pelo Instituto Phi, Instituto Ekloos e pelo Banco da Providência. (Na foto, Luiza Serpa/Insituto Phi – Divulgação)

Da captação à distribuição

Em uma hora de conversa, entenderam os pontos fortes de cada uma e alinharam: o Phi, fundado por Luiza, ficaria com a captação; o Ekloos, de Andrea, com a fomentação das comunidades, além da comunicação, por ter a agência Kio. E o Banco da Providência, no qual Clarice é Superintendente, com a logística e a compra: “A gente é muito de operacionalizar e de querer o resultado. A nossa mobilização era para fazer chegar na ponta”, conta Clarice. (Na foto, Andrea Gomides/Instituto Ekloos – Divulgação)

Além de operacionais, as três se mostram extremamente práticas: “Talvez seja uma feliz coincidência que eu, Clarice e Andrea tenhamos um perfil muito pragmático, muito de execução, de querer colocar as coisas no chão para acontecer mesmo”, comenta Luiza.

Alinharam o nome do movimento no sábado, depois de identificarem as funções, montaram a página no domingo, com a equipe da Andrea, iniciaram a captação na segunda e, na terça já estavam fazendo a primeira entrega de cestas básicas. “Quando a gente viu que a quarentena ia acontecer, sabia que os projetos iam imediatamente sucumbir”, pontua Luiza, após destacar o pragmatismo das três. A praticidade vinha como reflexo da vontade de se colocar em ação frente à urgência do cenário estabelecido. “Por mais que cada uma tenha a sua trajetória, e a minha é bem mais longa, a gente não imaginou viver o que a gente está vivendo”, comenta Clarice, que enfatiza o quanto elas têm crescido, juntas, ao longo desses meses.

Caminho até o terceiro setor

A preocupação das três não é recente, no entanto. Atuantes no terceiro setor e nas causas sociais desde muito novas, elas seguem na luta pela redução da desigualdade social há muito tempo. Clarice Linhares, por exemplo, desde os 18 anos sobe favelas e realiza trabalhos voluntários como arquiteta. Ela conta como resolveu deixar para trás sua própria empresa e se dedicar integralmente ao Banco: “Eu toquei sete anos a minha empresa e teve uma hora que não deu mais. Porque de noite eu ia ver um cliente que não estava satisfeito com o tom de rosa do quarto da filha e de dia eu ia para uma favela em que a família de sete pessoas tinha que viver em 12 metros quadrados. Aí eu tive que fazer uma opção na minha vida. E foi a melhor opção que eu fiz”. De lá para cá, somam-se mais de 30 anos atuando no Banco da Providência.

Sobre como se sente ocupando um cargo de liderança feminina, Luiza sorri e responde: “Eu encontrei a minha vocação no que eu faço, eu amo o que eu faço”. Andrea ainda conta como deixou a Microsoft para fundar o Instituto Ekloos. Com um discurso de incômodo similar ao trazido por Clarice, Andrea expõe: “Principalmente quando a gente trabalha em grandes empresas, tem acesso a muita coisa. Eu percebi que as pessoas nas comunidades moravam em casas muito menores que a minha sala de trabalho na Microsoft. E isso mostrava o tamanho da desigualdade social no Brasil”.  Foi se sensibilizando com tais constatações que resolveu aplicar os conhecimentos e metodologias que agregou ao longo dos anos na Microsoft e fundar o Ekloos, que tem como principal foco capacitar as pessoas que estão à frente das organizações sociais.

Problema pré-existente

O Movimento União Rio, durante a quarentena, já captou 45 milhões de reais e conseguiu ultrapassar duas mil toneladas de alimentos doados, além de quase 500 mil litros de material de limpeza e higiene para 72 organizações sociais, que abrangem cerca de 230 comunidades. Ao todo, foram cerca de 160 mil famílias impactadas.

“Isso só evidencia a enorme desigualdade que vive o nosso Estado. E que as pessoas já passavam fome antes da Pandemia. A gente chegou para atuar num problema que já existia e que está sendo agravado”, destaca, reflexiva, Luiza.

São números expressivos, mas que de acordo com as três, servem mais para mostrar o quanto o estado do Rio de Janeiro e o Brasil são desiguais. Tanto Luiza, quanto Clarice e Andrea têm suas falas voltadas para tal problemática quando mensuram o impacto gerado pelo Movimento. O trio traz, a todo momento, a preocupação com uma situação que só se agrava no que chamam de ponta, que são as pessoas atingidas em situação de vulnerabilidade social.

“A gente vive num país que é pautado pela desigualdade social em diversos aspectos e, como consequência disso, a gente tem um alto índice de empregos informais, principalmente no Rio de Janeiro”, destaca Andrea.

Andrea, ao analisar a questão, reflete: “Quando a gente começa a distribuir as primeiras cestas encontra uma população com fome.  Mas não foi por causa do coronavírus. Nossa primeira sexta foi entregue no dia 23 de março, a gente tinha acabado de entrar em isolamento social”. Para ela, não só o Rio, mas o Brasil como um todo, vem de um processo histórico de desigualdade social crescente, que se agrava a cada dia com a pandemia.

Distribuição das cestas do Movimento União Rio na ONG NEAC.
(Foto: Abel Colberth)

Desigualdade de longa data

O cenário agravado com a pandemia, de acordo com Clarice, é resultado de anos de omissão do governo. “O que a gente está colhendo agora é o resultado de décadas, séculos até, de descaso total com uma parcela enorme da população, tanto na Cidade do Rio de Janeiro como no Brasil como todo. Nós somos um dos países mais ricos do mundo e um dos mais desiguais”, frisa.

 A realidade presenciada e analisada por Clarice está expressa em números e porcentagens. Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2019, da Organização das Nações Unidas (ONU), que analisa as Desigualdades no desenvolvimento humano no século XXI; no Brasil, os rendimentos dos 40% da base cresceram 14 pontos percentuais, acima da média, entre os anos de 2000 e 2018. No entanto, aponta que o percentual do topo registrou, igualmente, um aumento superior à média. O relatório conclui: “Visto não ser possível todos os grupos crescerem acima da média, tal significa que os grupos com rendimentos médios (entre os 40 por cento da base e o percentual superior) encolheram, com um crescimento inferior à média”.

Ainda segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve estagnação da desigualdade social no país, medida pelo índice de Gini. O indicador monitora a desigualdade de renda, utilizando uma escala de 0 a 1, em que quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade no local. Embora o índice tenha apresentado uma leve queda percentual a nível Brasil, indo de 0,545 em 2018 para 0,543 em 2019, regionalmente ele mantém a mesma pontuação, de 0,53, na região Sudeste.

A solidariedade feminina

Não é de hoje a presença feminina voltada para as questões sociais e preocupação com a redução da desigualdade. De acordo com Andrea, tem fundamentação histórica: “Historicamente, no Brasil, as primeiras-damas dos presidentes, dos governadores e prefeitos não trabalhavam fora. Estavam sempre apoiando as causas sociais, enquanto os maridos trabalhavam como governantes”. Ela lembra também da ex primeira-dama Ruth Cardoso, que diz ter saído de um universo puramente assistencialista para começar um processo de capacitação das pessoas, já entrando na nova lógica de responsabilidade social.

No entanto, para Andrea também existe o fato de que a mulher sempre ficou em casa, cuidando dos filhos, enquanto o homem saía para trabalhar. E que isso talvez tenha contribuído para uma visão estereotipada do gênero. “Quando a gente pensa nessa visão da mulher, a gente pensa numa mulher de classe média alta que não tinha muito o que fazer e aí se dedica a ajudar o próximo”.

Já para Luiza, as mulheres tendem a ter uma visão mais ampla. “A gente tem uma visão do que tem que ficar bom para todo mundo, para estar bom para a gente. Esse senso de olhar a sociedade de uma forma mais integrada”. Uma característica que, segundo ela, justifica inclusive a predominância das lideranças femininas na área social.

Entrega de cesta básica do Movimento União Rio pela educadora Andressa, da ONG NEAC. (Foto: Abel Colberth)

O fato de grande parte das presenças em projetos e organizações sociais ser feminina, de acordo com Andrea, se dá também porque mulher evoca mãe. “A mulher tem um espírito materno intrínseco, de cuidar e querer o bem”, diz. Para ela, essa característica vem de um perfil feminino. Os homens, para Andrea, são mais diretos, práticos. Fatores que fazem com que o terceiro setor seja prioritariamente levado por mulheres. No entanto, Andrea reflete: “Eu também acho que quanto mais profissional for o terceiro setor, mais a gente vai fazer com que essa característica feminina deixe de ser relevante, em termos numéricos, porque aí você vai ter um homem também encaixado nesse perfil”.

Além da presença assistencial e solidária ser predominantemente feminina, o trio aborda o fato de que, também na ponta, a maior parte das famílias com quem trabalham é chefiada por uma mulher. Clarice, que atua fortemente com o Banco da Providência na capacitação de famílias, com cursos profissionalizantes, destaca: “A maioria esmagadora não larga filho. A mulher não desiste. Ela dá nó em pingo d’água: lava, passa, cozinha, vai para o curso, deixa de comer o lanche para levar para casa e alimentar os filhos. Eu acho que é esse sentimento de urgência. Como o sociólogo Betinho dizia: ‘Quem tem fome tem pressa’. Acho que isso é uma característica bem positiva nas mulheres: de fazer acontecer”.

Selma Pacheco, fundadora da ONG NEAC, descarregando cestas básicas doadas pelo Movimento União Rio. (Foto: Abel Colberth)

Sobre a representatividade que existe no fato de serem três mulheres à frente de um grande movimento solidário, Luiza Serpa revela: “Quando você veio com essa percepção de que eram mulheres à frente do Movimento União Rio, isso nem me passava pela cabeça em momento algum. Porque é tanto de ação, de execução, de“vamos fazer”, que, de verdade, o fato de eu ser mulher é quase um detalhe”, afirma, sorrindo. “Mas eu entendo que para o momento em que a gente vive isso é importante valorizar”.

Não deixa, por outro lado, de colocar que todos têm em si essa força de realização. “Todos temos, independentemente de ser homem ou mulher. E aí, ver que as mulheres são capazes e que é possível… na verdade isso nem deveria estar em pauta. Mas já que ainda está, que isso sim sirva de inspiração e exemplo, de que lugar de mulher é onde ela quiser”.

*Matéria produzida pela aluna Juliana Líbano para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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