Da sala de aula

Atitudes solidárias se multiplicam durante a pandemia

Voluntários ajudam pessoas com dificuldades financeiras em tempos de isolamento social

A corrida contra a fome começou junto com o isolamento social. A preocupação em colocar comida na mesa durante a pandemia vem tirando o sono de muitos cidadãos cariocas. O estado do Rio de Janeiro registra cerca de 2,8 milhões de pessoas sem trabalhos formais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e este se tornou um dos públicos mais necessitados de ajuda durante este período.

O fechamento de comércios e a diminuição da circulação de pessoas na rua levaram a uma queda brusca nas rendas de várias famílias, que passaram a viver de doações e ajuda de projetos sociais. Este quadro de extrema necessidade de alguns acabou despertando um sentimento de solidariedade e levando pessoas a praticarem ações solidárias de forma independente pela cidade.

Com distribuição de quentinhas em comunidades da Zona Oeste do Rio, a jovem Ana Beatriz Oliveira da Silva, de 20 anos, moradora de Jacarepaguá, diz que o olhar das pessoas que recebem os alimentos é o mais gratificante. “Não dá para explicar o sentimento de ver alguém tão feliz com tão pouco. Algumas pessoas estavam tão fracas que não conseguiam nem levantar, outras gritavam que erámos o povo enviado por Deus”, diz ela.

O número de voluntários que distribuíam alimentos para moradores de rua diminuiu muito durante este momento, por medo da contaminação, mas, para Beatriz, a vontade é de continuar, mesmo quando tudo passar. “Quando concluo um dia, já vou para casa pensando no próximo. Não pretendo parar, vou juntar dinheiro e recolher doações sempre que possível”, conclui a jovem, que teve sua primeira ação realizada no dia 11 de Abril, junto com outras três amigas, e conseguiu distribuir cerca de 400 quentinhas naquela região.

Montagem das quentinhas doadas pela jovem. (Foto: Arquivo Pessoal)
Beatriz em ação na comunidade da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Arquivo Pessoal)

A mesma sensação de alegria vivida por Ana Beatriz é descrita por Marcelo Braga Monteiro, de 40 anos. Sem emprego de carteira assinada desde de 2016 e atualmente atuando como vendedor autônomo, ele relata que decidiu distribuir cestas básicas sozinho após observar a realidade de outras pessoas de perto. “Mesmo com as vendas caindo, nunca faltou comida na mesa da minha família ou deixei de pagar alguma conta. Sou grato por isso, mas não é a mesma situação que alguns moradores daqui enfrentam”.

Marcelo mora no Complexo do Alemão, área com o sexto pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade e com mais de cem casos de Covid-19, segundo o jornal Voz das Comunidades. Observar as condições de vida de alguns moradores fez com que ele retirasse parte do dinheiro obtido com o auxílio emergencial, oferecido pelo governo federal, para a montagem e distribuição de cestas de alimentos e higiene naquele local. Com este gesto, Marcelo distribuiu cerca de 100 cestas de alimentos e 50 de higiene a famílias da comunidade.


Cestas distribuídas por Marcelo, na comunidade do Alemão com o dinheiro do auxílio emergencial. (Foto: Arquivo Pessoal)

Já fora do município do Rio, em São Gonçalo, e com mais experiências em ações sociais, um grupo de pessoas vai além de recolher itens apenas de necessidades básicas. Com o pensamento de que as pessoas precisam não apenas de comida, Márcia Pereira, de 40 anos, que divide sua moradia entre o Méier e São Gonçalo, compreende que outras questões também são importantes. Por isso, arrecada brinquedos, livros e roupas, que são doados juntos com os alimentos. Na sua rotina, estes gestos já são um hábito e continuarão após a pandemia. Ela diz ter gratidão por poder ajudar alguém que está em uma situação difícil. “Acredito que Deus nos retribui em dobro. Penso que quanto mais a gente doa mais a gente recebe”, diz ela.

Brinquedos doados por Márcia a crianças de São Gonçalo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Márcia (de camiseta azul) se preparando com sua amiga (de camiseta verde e amarela) para a distribuição dos itens. (Foto: Arquivo Pessoal)

Atitudes como as destas pessoas fazem com que toda a sociedade enfrente este momento tão difícil com mais esperança. As consequências da pandemia do novo Coronavírus serão lembradas para sempre, assim, como todos aqueles que foram ajudados se recordarão de quem os estendeu a mão em umas das maiores crises da existência humana. Com toda certeza, alguns sairão mais empáticos, solícitos e solidários, e, quem sabe assim, ajudarão a tornar o mundo um lugar melhor. Mesmo que essa mudança afete uma só pessoa, já faz a diferença.

*Matéria produzida pela aluna Bianca Faria Pereira para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “Atitudes solidárias se multiplicam durante a pandemia

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, Bianca! Bjs!

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