Da sala de aula

Ações beneficentes na Ilha do Governador mobilizam moradores durante a quarentena

Moradores e empresas distribuem alimentos e produtos de higiene na região

Solidariedade e compaixão ao próximo são sentimentos que vêm aflorando nos corações dos moradores da Ilha do Governador, bairro do Rio de Janeiro. Organizações não Governamentais (ONGs), igrejas, clubes, empresas, grupos de amigos e até a escola de samba do bairro – União da Ilha – têm se mobilizado de diversas maneiras para ajudar os mais necessitados nesse retiro residencial forçado pela pandemia do Coronavírus.

Ao andar pelo bairro, pode-se reparar um baixo número de moradores de rua, fato explicado por diversos movimentos, realizados pela prefeitura do estado, para tira-los das imediações, além de ser um bairro fechado e afastado do Centro da cidade.  Apesar disso, a Ilha conta com um grande número de comunidades carentes, que fazem parte do Complexo do Dendê, um dos dez maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro, além dos sub-bairros Colônia e Tubiacanga, que não fazem parte do complexo, mas são considerados lugares com maior carência e maior necessidade de atenção. Desamparados pelo estado, sem condições financeiras de seguir as recomendações, como trabalhar de casa, comprar álcool em gel ou comida, moradores de favelas são os principais alvos do Covid-19.

Mas há ainda quem pense no próximo. Godson Almeida Gomes, 29, mais conhecido como Ak Daflor, skatista, MC, modelo e produtor cultural, é morador da Ilha e um dos líderes do projeto social Atitude Dendê. A ação solidária começou após o início da quarentena e atua na principal e maior área do complexo. Ak Daflor conta que o maior incentivo para começar o projeto foi a grande necessidade enfrentada pela comunidade. Começou distribuindo comida para os moradores de rua, e, após isso, criou uma vaquinha online para ter maior arrecadação: “O incentivo foi a falta de verba da população aqui do morro do Dendê. Apuramos 5 mil reais da vaquinha e revertemos em cestas básica, para começar a cadastrar as famílias”.

Ak Daflor conta que com o aumento da visibilidade do projeto, foi possível arrecadar mais 5 mil reais e também doações de alimentos. Além da distribuição das cestas básicas, foi aberto um restaurante social na comunidade: “Vendemos quentinha com preço acessível para todos, por 5 e 10 reais, e o restaurante acaba atendendo a pessoas dos arredores do morro que estão em condição de dificuldade financeira ou de rua”.

Ak Daflor distribuindo cestas básicas na comunidade do Dendê.
(Foto: Arquivo Pessoal)

Ele ressalta que a equipe que ajuda no projeto conta com apenas quatro pessoas, e, mesmo assim, já foram distribuídas mais de 300 cestas básicas, fora os inúmeros moradores que se beneficiam do restaurante. Apesar de o projeto ser apenas para o período de quarentena, Ak Daflor conta que conduz projeto chamado Soul Pixta, ligado à cultura do skate: “Conseguimos a reforma da pista de skate do Cocotá (sub-bairro da Ilha do Governador) no ano passado, mas estou um pouco desligado do projeto, por enquanto”. O produtor cultural também fala como está sendo gratificante poder ajudar as pessoas de sua comunidade: “Gratificante é saber que você é útil, é saber que você é reconhecido pelo que faz, num momento de tanto desamor”.

Além do Projeto Social Atitude Dendê, existem muitos outros ligados a igrejas, que também atuam no bairro. A Assembleia de Deus na Ilha do Governador (ADIG) é uma das igrejas que têm ajudado nessa luta. Cleverson Roberto da Silva Filho, 35, bacharel em Direito e secretário geral da igreja, conta que já existia um projeto de doação de cestas básicas para os integrantes mais carentes, que teve que se expandir por conta da pandemia do Coronavírus: “Muitos dos nossos membros perderam seus empregos, trabalhadores estavam em casa, famílias passando grande necessidade, e a igreja viu nisso uma forma de ajudá-los”. Ele explica que o projeto só tem infraestrutura para atender aos membros da igreja e que apenas alguns casos de fora, mais graves, são agraciados com as cestas.

A igreja tem sido o maior investidor do projeto. Cleverson explica que a iniciativa não conta com investidores de fora, somente a igreja, que compra a maioria das cestas básicas. O projeto também abriu recentemente para que pessoas de fora pudessem doar alimentos: “A ajuda dos membros é essencial para que possamos abranger o maior número possível de pessoas”. Além disso, são necessários voluntários para trabalhar no projeto. Cleverson fala que não tem um número exato de pessoas ajudando diretamente, mas que muitos têm se prontificado para auxiliar no projeto, que já alcançou mais de cem famílias.

O projeto não tem encontrado dificuldades para realizar as entregas das cestas básicas, pois a maioria é feita na sede da igreja, na Estrada da Cacuia. Apenas em casos em que a pessoa esteja apresentando sintomas da doença ou seja do grupo de risco, a cesta é levada por algum dos ajudantes: “Vamos até lá, deixamos no portão da casa ou, no caso de ser apartamento, na portaria. Sempre evitamos contato físico”. Cleverson exalta também a forte emoção que está sendo ajudar os membros de sua igreja: “O sentimento que a gente tem de poder ajudar é o sentimento que todos devemos ter em relação ao próximo, independentemente de denominação, de igreja, de religião”.

Muitos amigos também têm se reunido para ajudar. O projeto Doe Amor é formado por um grupo de dez pessoas da mesma igreja, que uniram forças para ajudar quem mais precisa. Adriano Augusto Marinho, 46, militar e colaborador do projeto, explica como a iniciativa começou: “A idealizadora se propôs a ajudar algumas pessoas próximas, mais ou menos de 20 a 30, que tinham seus empregos, seu ganha pão, mas que perderam tudo isso de uma hora para outra, e isso a comoveu muito”.

Ele acrescenta que, a partir daí, Luciana Hoffmann, idealizadora do projeto, chamou ele e mais quatro amigos da igreja para ajudar: “Conforme a ação foi agregando pessoas, elas foram trazendo novas demandas de necessidade, pois conheciam outros que estavam passando dificuldades, fazendo com o que projeto crescesse”, ressalta.

Grupo de amigos reunido no dia da distribuição das cestas.
(Foto: Arquivo Pessoal)

Adriano conta ainda que a maior dificuldade tem sido arrumar parceiros e pessoas dispostas a doar: “As pessoas pensam que têm que ajudar com muito, mas na verdade não precisa de muito. Um quilo de arroz já é ótimo. Um pouco do meu, um pouco do seu, um pouco de outra pessoa, se torna muito para quem não tem nada”. Outra dificuldade relatada por Adriano tem sido o descaso de pessoas diante da situação de calamidade e necessidade de próximo: “Tenho um grupo de amigos no qual eu faço postagens pedindo contribuição e as pessoas não estão nem aí, nem comentam, continuam conversando. Algumas se sensibilizam com a situação, outras nem ligam para isso”.

Mesmo todos sendo da mesma igreja católica, o projeto não tem nenhum cunho religioso e não recebe nenhum tipo de ajuda financeira da Igreja. Adriano conta que existe a contribuição financeira de alguns empresários, mas que a maioria tem sido de pessoas comuns, muito disso, devido à conta criada no Instagram para o projeto. “Por meio dessa conta estamos contatando as pessoas e divulgando o projeto, criamos arte, postamos as necessidades da semana, os alimentos de que mais precisamos. Além disso, pomos nossa conta digital também, na qual a pessoa pode doar 5, 10, quanto ela puder”.

Instagram Oficial do Projeto. (Foto: Print da internet)

Adriano ainda fala que existem muitas iniciativas como essa no bairro, e algumas pessoas acabam sendo assistidas por dois projetos. Ele relata que muitas delas são honestas e repassam suas cestas ou até dão para vizinhos que não estão cadastrados: “São coisas que estão acontecendo que realmente tocam nosso coração, fazem com que a gente reflita sobre toda essa situação, que é um momento difícil para todo mundo, mas muitas pessoas vão sair com um aprendizado”.

Além das pessoas comuns, grandes empresas também estão tendo compaixão nesse momento. Adriano relata que houve falta de verba para a compra de material para a cesta básica de limpeza e que uma grande empresa os ajudou: “A Natura doou álcool e em gel, sendo que ela nem fabricava antigamente, fabricou justamente para estes tipos de projeto”. Ele ainda ressalta que a L’Oréal também está fazendo esse tipo de ação. Uma onda de ações solidárias vem sendo formada por diversas camadas da sociedade – sejam grandes empresários ou um grupos de amigos. “Dentro de algo ruim, a gente tira algo de bom, de poder ajudar, de poder contribuir de alguma forma para a sociedade”, conclui Adriano.

Cestas básicas prontas para serem distribuídas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Além das comunidades carentes, outras instituições que têm necessitado de muitas doações são os hospitais da região, sobrecarregados de pacientes infectados com Covid-19, e nos quais a falta de insumos hospitalares tem sido uma preocupação. A União da Ilha, principal escola de samba do bairro, tem organizado um mutirão na quadra da escola para a confecção de máscaras, que, além dos hospitais, estão sendo distribuídas para o 17º Batalhão de Polícia, Corpo de Bombeiros e para as pessoas do bairro.

Doação sendo feita para a Policlínica Newton Alves Cardozo.
(Foto: Arquivo Pessoal)

Mario Bandeira, 47, empresário, um dos organizadores e costureiro do mutirão realizado pela escola de samba, conta que a ideia partiu do presidente Djalma Falcão, que convidou algumas costureiras e costureiros para serem voluntários na confecção das máscaras: “O grande incentivo foi ajudar a nossa escola, que tem uma grande gama de pessoas com idade acima de 60 anos, e ajudar a população da Ilha do Governador. Todos estavam comprando máscaras e nós poderíamos fazer, sem cobrar nada”.

Máscaras distribuídas para taxistas dos bairros. (Foto: Arquivo Pessoal)

Falta de verba tem sido um problema para o mutirão. Mário conta que a maior dificuldade tem sido a falta de ajuda financeira da população, de parceiros e empresários locais para a compra dos materiais necessários, além da falta do próprio material nas lojas. Ele destaca que o projeto não aceita nenhuma contribuição em dinheiro, apenas de material, como linha, TNT e panos, e ressalta que a maioria do material foi doada pela própria escola.

Mario fala que a equipe era formada por três costureiras e um costureiro, o presidente Djalma Falcão e o Administrador da quadra da escola, onde acontecia a confecção das máscaras, e estima que foram de 7 mil a 8 mil unidades doadas pelo projeto. “Tão poucas pessoas puderam fazer uma grande diferença”. Ele salienta que trabalhos voluntários como esse trazem o melhor de cada ser: “Não tenho nem como mensurar o bem que eu faço ao próximo, mas se cada um fizesse um pouco, não teríamos tanto egoísmo no ser humano. Quando a pandemia acabar, acho que um mundo será um lugar bem melhor”.

Equipe de costureira(o)s durante o mutirão. (Foto: Arquivo Pessoal)

*Matéria produzida pelo aluno João Pedro Goulart Robaina para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

2 comentários em “Ações beneficentes na Ilha do Governador mobilizam moradores durante a quarentena

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, João Pedro! Bjs!

  2. Pingback: Especialista e populares comentam acusações a Eduardo Paes | Agência UVA

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