Da sala de aula

Fobia social preocupa pessoas em isolamento

Jovens enfrentam medos que quarentena trouxe

O que para muitos é um alívio, pode se tornar um pesadelo para outros. Sair de casa para frequentar locais sempre foi sinônimo de diversão, mas em tempos de pandemia, há quem tenha adquirido fobia social. Era comum ir a festas, bares, praças e diversos outros lugares aglomerados sem se importar com a quantidade de pessoas no ambiente. Em tempos de pandemia, porém, muitas atitudes mudaram. Tendo que sair apenas para suprir necessidades básicas, uma parcela das pessoas acaba ficando em casa quase 24 horas por dia. Para a maioria, o fim da pandemia é bastante esperado, mas para outros, a situação acaba sendo mais complicada.

Com medo de contrair o novo Coronavírus, algumas pessoas evitam sair de casa até mesmo para ir ao mercado uma única vez ao mês. A grande quantidade de mortes assusta parte da população, que pretende ficar muito tempo sem pisar do lado de fora. Mesmo com as poucas saídas de emergência, essas pessoas não estão preparadas para o fim do isolamento social. E contam que, mesmo com o desfecho da pandemia, não pretendem sair de casa tão cedo.

É o caso de Klaus Stahlmann, de 22 anos, que viajou para Portugal em novembro para morar com a mãe. Durante sua passagem de cinco meses, teve que retornar ao Brasil por conta do vírus para cuidar de sua avó que havia ficado na Bahia. Em Portugal, ele conta que não costumava sair sempre, mas quando saia, era para conhecer novos lugares. No pouco tempo em que ficou fora, ainda não havia acontecido o alerta da pandemia. Assim que descobriu o aumento de casos, voltou para seu estado. “Tive que retornar pensando em minha avó, pois não queria que ela ficasse sozinha, tinha medo que acontecesse algo e não conseguisse dar um suporte”, diz.

De volta ao Brasil, Klaus teve que aguardar alguns dias no aeroporto, que já enfrentava alguns problemas pelo grande número de viagens acontecendo. Depois de passar os primeiros dias de pandemia no aeroporto, ele ficou assustado com a situação. “Assim que cheguei, já não queria mais saber de sair para lugar nenhum”. Com medo da situação em que o país se encontrava, decidiu se isolar imediatamente, mantendo distância até dos parentes mais próximos.

Para uma parte da população, relacionar-se não é tão fácil como parece. De acordo com a psicóloga Simone Lima, de 42 anos, a propensão é que seja ainda mais difícil manter laços após a pandemia. Com o isolamento, as pessoas adotam restrições em relação a contatos físicos, e mesmo com o seu fim, é esperado que a falta de toque continue. Para quem tem Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), a tendência é ter ainda mais manias. “Possivelmente, estas pessoas vão ficar ainda mais restritas com relação a preocupações sobre como vão namorar, como vão viver, quem vão abraçar e como serão as práticas e vivências do dia a dia”, diz a psicóloga.

Matheus Barros, de 22 anos, saia quase todos os dias na semana, fazia exercício funcional duas vezes ao dia, além de ter compromissos diários. Ele costumava sair pelo bairro para jogar Pokémon GO, cujo objetivo é sair pelos lugares para procurar personagens do jogo. No começo da pandemia, continuava saindo, mas com menos frequência. Ao descobrir o uso obrigatório da máscara, se deu conta de que a situação tinha chegado a um nível mais sério e resolveu se isolar totalmente.

Nos primeiros dias, não conseguia usar máscara por conta da respiração e não queria sair de maneira alguma. Hoje, ele só sai de casa poucas vezes, para atividades básicas como ir ao mercado. Para Matheus, não vai ser fácil voltar a sua rotina quando o isolamento acabar, pois ele ainda vai ter receio de pegar o vírus. No começo, sentiu uma fobia social. “Nos quinze primeiros dias de isolamento, tive medo de entrar nos lugares, principalmente em supermercados”, diz ele.

A necessidade do isolamento social é compreendida por Klaus e Matheus, mas o fim dele não. Desde o começo, apoiaram o isolamento, pois viam nele uma maneira de fazer com que o vírus não se propagasse, e que tudo retornasse ao normal o mais rapidamente possível. Entretanto, ambos não conseguem e nem pretendem sair de casa para nada, pois perceberam que estão com fobia social.

Klaus conta que em dois meses de isolamento, só foi ao mercado uma vez e quando pensou em ir pela segunda vez, resolveu pedir os alimentos por aplicativo, para que não precisasse sair de casa e entrar em contatos com outras pessoas. Já Matheus não pretende frequentar suas aulas de funcional por um longo período de tempo, mas  descarta a possibilidade de desistir dos treinos. “Sei que vai ser difícil, mas pretendo me esforçar para continuar”.

São apenas dois exemplos de muitas pessoas que não estarão preparadas para o fim da pandemia. Simone conta que a maioria de seus pacientes não quer ter consultas presenciais em seu consultório de Psicologia. “Alguns pediram para que eu pudesse atender por chamada de vídeo, pois não queriam sair jeito nenhum”. A previsão é que, aos poucos, pessoas retornem a suas vidas. Mas para outros, a situação continua preocupante. Para Simone, vai ser difícil se acostumar com o fim do isolamento. “Eu acredito que nossa vida nunca mais vai ser a mesma depois dessa doença”.

*Matéria produzida pelo aluno Matheus Araújo Lima para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “Fobia social preocupa pessoas em isolamento

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns , Matheus!!!

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