Entrevistas

Especialista fala sobre fake news em tempos de coronavírus

Suzana Liskauskas, Mestre em Educação em Biociências e jornalista, bateu um papo com a Agência UVA sobre desinformação e saúde

De acordo com a jornalista Suzana Liskauskas, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestre em Educação, Gestão e Difusão em Biociências, as fake news, ou notícias falsas, influenciaram o início da Segunda Guerra Mundial, conflito militar global que durou de 1939 a 1945, envolvendo a maioria das nações do mundo, incluindo todas as grandes potências. Apesar de serem antigas, as notícias falsas, até hoje, atrapalham a vida da sociedade.

Num período em que as fake news sobre o Covid-19 concorrem com informações checadas e verificadas pela imprensa, espalhando medo ou estimulando comportamentos prejudiciais à saúde, a Agência UVA conversou sobre o assunto com a especialista, que já passou pelo programa “Globo Ciência”, da TV Globo, além de “Jornal do Brasil”, “O Globo” e “Valor Econômico”.

Confira a conversa, realizada, claro, à distância.

Agência UVA: Na sua opinião, a disseminação de fake news pode atrapalhar uma cobertura jornalística e também a vida das pessoas?
Suzana Liskauskas
: As fake news ou notícias falsas com aparência de verdade colocaram a humanidade sob risco muito antes de surgir a internet. O termo ficou famoso recentemente, mas é um vírus letal para a informação de qualidade e confiável em vários episódios da História Mundial. Um bom exemplo é a origem da Segunda Guerra Mundial, no episódio ocorrido em 31 de agosto de 1939 e conhecido como “incidente de Gleiwitz”. Nessa data, as tropas ligadas a Adolf Hitler simularam a invasão de soldados poloneses à rádio alemã Sender Gleiwitz, em Gleiwitz, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. O objetivo dessa fake news foi arrumar um motivo para invadir a Polônia. O plano fazia parte da estratégia de divulgação em massa comandada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda no governo nazista (1933 a 1945) e considerado braço direito de Hitler.

Agência UVA: Recentemente, o presidente da República, Jair Bolsonaro, como muitos brasileiros, compartilhou um vídeo dizendo que o mercado da Ceasa, em Minas Gerais, estava desabastecido, fruto das medidas de isolamento do Ministério da Saúde. Após isso, a CBN foi até o local e gravou outro vídeo mostrando o contrário. O quão importante é a checagem de uma informação antes da publicação?
SL:
A checagem de dados está no DNA da atividade jornalística. Meus amigos costumam brincar comigo dizendo que não dá para me contar nada porque devolvo com uma série de perguntas: “onde foi publicado?”, “quem presenciou?”, “quando aconteceu? “, “quais foram os desdobramentos?”. Essa curiosidade é decisiva na trajetória de um jornalista. Mas pessoas bem informadas, de um modo geral, não apenas jornalistas, costumam ser críticas com relação a conteúdos que recebem, sobretudo em redes sociais. Os jornalistas, por exercício da profissão, já têm o hábito de ler uma mensagem e verificar se aquele conteúdo condiz com a fonte ou apresenta fatos respaldados por instituições confiáveis. A checagem de dados sempre fez parte do dia a dia do jornalista, muito antes de a internet existir. Com a propagação das redes sociais, checar dados recebidos tornou-se imprescindível para a segurança de pessoas e da sociedade. A falta de precisão na informação repassada ou absorvida torna um cidadão alvo fácil para crimes cibernéticos e manipulações comandadas por atores sociais, políticos e econômicos. No caso de representante de governo, formadores de opinião de um modo geral, a responsabilidade em checar um conteúdo antes de repassar é ainda maior. Como as redes sociais desses atores impactam milhões de pessoas, o repasse de dados sem checagem é, no mínimo, demonstração de uma conduta que não condiz com a responsabilidade necessária para conduzir os cargos para os quais a sociedade os elegeu.

“A checagem de dados sempre fez parte do dia a dia do jornalista, muito antes de a internet existir. Com a propagação das redes sociais, checar dados recebidos tornou-se imprescindível para a segurança de pessoas e da sociedade”, diz Suzana.

Para Suzana, cidadãos devem estar mais atentos ao que compartilham em suas redes e checar conteúdos antes de enviá-los para amigos e família. Foto: Reprodução LinkedIn

Agência UVA: Que dica você daria para a população parar de cair em fake news?
SL: Ler com atenção tudo que recebe nas redes sociais e desconfiar daquele conteúdo até conseguir verificar sua veracidade. Nunca repassar antes dessas etapas. É essa desconfiança que leva o indivíduo à pesquisa e à descoberta de fatos históricos. As pessoas que têm o hábito da leitura, gostam de se informar, independentemente da área de atuação profissional, são as mais aptas a reconhecerem uma fake news. O primeiro passo, então, é identificar a fonte do conteúdo recebido, verificar datas e fatos relatados. A maioria das fake news apresenta incongruência de datas e fatos, assim como fontes de origem obscura e erros crassos gramaticais. Ao ler uma declaração, é interessante fazer uma pesquisa na internet para saber mais sobre aquela fonte. Uma busca eficiente na internet derruba uma fake news em minutos. Mas é preciso saber procurar as fontes oficiais, como sites de universidades públicas, imprensa e fontes oficiais de governos. Muitas pessoas bem informadas acabam caindo em fake news por confiar cegamente no emissor da mensagem, o que é um erro, pois a maioria dos usuários das redes sociais repassa uma mensagem sem ler todo o seu conteúdo.

Agência UVA: Existe algum órgão que receba denúncias de notícias falsas? Existe algum modo de combater?
SL: No meu dia a dia, presencial e online, costumo checar dados em sites criados para identificar notícias falsas, como o “Boatos.org” e “Aos Fatos”. Veículos tradicionais da mídia também apresentam seções destinadas a mostrar ao público se um conteúdo veiculado em redes sociais é fato ou fake. E é preciso ter uma vigilância constante, porque atualmente há recursos sofisticados de tecnologia, usando inteligência artificial, que possibilitam editar um vídeo real e transformá-lo em fake news, inclusive alterando o conteúdo das falas. Quem costuma ler jornais, revistas e têm conhecimento de História tem mais chances de desconfiar de um conteúdo dessa natureza. Para quem ainda não tem o hábito da leitura e o interesse por História Mundial, recomendo aguçar a curiosidade e correr atrás de fontes de pesquisa. Não acreditar em tudo que circula nos grupos de WhatsApp, seja da família ou de outros círculos sociais, também é um excelente começo.

Agência UVA: Qual é o objetivo de uma fake news?
SL: Como no episódio que originou a Segunda Guerra Mundial, toda notícia falsa tem um intuito por trás. É uma forma de manipular uma camada da sociedade, mascarar fatos e impedir que as pessoas desenvolvam espírito crítico, defendam suas próprias ideias e tenham personalidade para tomar decisões sem serem influenciadas pelo efeito manada.

Agência UVA: Como você percebe o combate às fake news em relação ao coronavírus por parte do governo?
SL: Não tenho como analisar as estratégias de comunicação no combate à disseminação de fake news por parte do governo porque não faço parte do dia a dia dessas equipes. Difícil fazer uma análise criteriosa quando não se está diretamente envolvido no processo. Como cidadã e consumidora de informação, acompanho as coletivas do Ministério da Saúde, em que a equipe técnica parece estar em linha com as determinações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e divulgações da comunidade científica. Numa situação de pandemia, é fundamental que a comunidade científica tenha voz. É a fala de cientistas de reputação ilibada que deve ecoar. Os governantes precisam ser humildes o suficiente para ouvir as recomendações de centenas de pesquisadores que dedicaram uma vida em busca de conhecimento sobre vírus e epidemias. Conferir crédito a qualquer outra fonte, nesse caso, é, no mínimo, uma falta de comprometimento com o bem-estar dos cidadãos brasileiros.

Agência UVA: O presidente da República, Jair Bolsonaro, falou que hidroxicloroquina é eficaz em boa parte dos pacientes em tratamento para o Covid-19. As sociedades médicas brasileiras, no entanto, dizem que a informação é inconclusiva e que mais testes precisam ser realizados. Você acredita a afirmação por parte desta autoridade faz com que a população seja influenciada?
SL: Em todo mundo, governantes devem ser muito criteriosos antes de emitir opiniões pessoais, portanto, sem embasamento científico. Há milhões de pessoas que confiam cegamente no discurso desses governantes e, infelizmente, não têm condições de criticar conteúdo dessa natureza, muito menos cruzar dados. Comecei minha carreira de jornalista, no início da década de 1990, no “Globo Ciência”, programa de TV, como assistente de produção. Minha função era fazer pesquisas sobre o trabalho de cientistas para identificar pautas e bons porta-vozes na comunidade científica, quando não existia a internet sob a forma que conhecemos hoje. As pesquisas eram feitas no centro de documentação das emissoras de TV e bibliotecas. Uma das lições que aprendi naquela época, reforçada ao ingressar no curso de Mestrado em Difusão de Ciências na UFRJ, em 2016, foi a necessidade de manter a austeridade e o critério ao divulgar um achado científico. As pesquisas sobre medicamentos e protocolos médicos só devem ser amplamente divulgadas à população quando há métodos muito transparentes, replicáveis pela comunidade científica e resultados expressivos obtidos com grupos numerosos de pacientes. Resultados tímidos, alcançados em grupos pequenos podem apresentar viés. Esse critério é extremamente necessário para não induzir a população a falsos resultados. O comportamento do novo coronavírus ainda está sendo estudado, tudo é muito recente. Embora a população mundial esteja ávida pela cura da Covid-19, é preciso muito cuidado e escrutínio ao anunciar qualquer avanço da comunidade científica no sentido de encontrar a cura ou a prevenção. Tudo o que for feito no sentido oposto será prejudicial à saúde da população.

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Raphael Pimentel – 6º período

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